“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz”




“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz, minha vida é vazia”
é um desabafo que aparenta ser vazio e tédio, mas concluir isso é ilusório, incongruente. Jamais tédio e vazio  resultam de avaliação. A consistência da avaliação, ou seja, o enumerar possibilidades e neutralizar conflitos é a medida, o peso que tudo determina e contabiliza. Fazer a conta, pesar, medir, avaliar é estabelecer recursos, etiquetas e rótulos. Preencher espaços jamais enseja vazio e tédio.

Nada ver, nada deter, nada sentir, esvazia e entedia, mas avaliar é um procedimento que obriga sempre a completar e quando isso ocorre não há o que fazer, a não ser renovar o processo, destruir e buscar complementar, enfim, iniciar novas avaliações que permitam constatar e não ter o que fazer, apenas manter o conseguido. Essa constante repetição é como Sísifo ainda na esperança de conseguir libertação. Como aconteceu com Sísifo, tudo foi entendido. Ficou claro que sua vida é fazer e refazer, mas ir além disso, constatando não ser feliz, é ainda estar na espera de realização, de libertação.

Jamais o ter define o ser, jamais confinamento define liberdade. Estar em uma prisão pode até significar liberdade, tanto quanto solto no meio de ruas equivale à prisão quando se está comprometido com realização e definição para os próprios processos. Não são as circunstâncias que definem as trajetórias, embora às vezes as configurem. Estruturas do terreno, dos espaços criam referenciais delimitadores tanto quanto ampliadores. Restringir ou ampliar sempre se referem a condições aderentes. Onde se pisa e caminha, se pisa e caminha independente da medida dos passos. Medir caminhos percorridos equivale a outras considerações, não mais se refere apenas a pé no chão.

Vivenciar os próprios espaços e condições é assumir a temporalidade do aqui e agora sem medi-la nem avaliá-la. Quando se entra nesse contexto de avaliação já não se fala de vivência, mas sim de desejos que sempre traduzem frustrações e metas, falta e anseio que funcionam como necessidades, areia movediça que tudo traga e engole. Avaliar é criar pântanos, buracos incomensuráveis, daí a ideia de nada tangível, inclusive a felicidade, o ânimo, o presente, o novo.

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