Equivalências




Corresponder situações uma à outra necessariamente implica em comparações. Comparar requer parâmetros que açambarquem similitudes a fim de que se possa estabelecer a comparação. É o clássico e matemático não poder comparar grandezas diferentes, que aqui vale ser lembrado. Redução quantitativa viabiliza tudo, tanto quanto não esgota individualidade e condições intrínsecas do existente, e nesse sentido equivalência é sempre uma redução quantitativa. Apesar dessa redução elementarista a ideia de equivalência pressupõe também a de igualdade. Assim, saber, por exemplo, que um ser humano equivale a outro ser humano e que isso acaba com qualquer diferença entre humanos é neutralizador de preconceitos e paradigmas arbitrários de superioridade e inferioridade que só permitem comparações arbitrárias, isto é, fora do sistema que as estruturou: igualdades e equivalências.

Em geral, onde há igualdade não há comparação, entretanto só aí é que podemos encontrar equivalência: comparações prévias que estabelecem as igualdades e que são geradas pela similitude. Esse critério, essa realidade cria semelhantes, cria iguais e a partir daí surgem equivalências, surgem também referenciais que permitem substituições. Esse círculo, que não se fecha, aponta para novas implicações. Substituir é criar outro, consequentemente, o diferente. Essa dança processual gera semelhantes, diferentes e substituíveis, alma, raiz e essência dos equivalentes.

Equivaler é ser igual, é ser diferente, é ser substituível. A igualdade aponta para o outro, e para manutenção do conceito de equivalência enquanto individualidade são necessários suportes conceituais ou reais que abriguem esse padrão. Por exemplo: a vivência de encontros se desenvolve por meio de inúmeros relacionamentos nos quais A equivale a B, e a C, e a D infinitamente, pois essas possibilidades são processadas e abrigadas pela ideia de encontro existencial fundamental, o amor por exemplo, e assim se obtém o tema a partir do qual as situações se equivalem, embora diferentes. Socialmente, é necessário a existência de atmosfera unitária e coesa para que não haja utilização do humano como objeto. Psicologicamente só por meio da unidade, do não fracionamento ou parcialização se consegue vivenciar o outro enquanto totalidade significativa, independente de sua utilização autorreferenciada.

Equivalência é situar em um tempo, em um espaço, em inúmeros contextos, significados e vivências. Sem essa base situacional fracionamos vivências e tudo é entendido como proveitoso ou prejudicial, critério esse dado por desejos e propósitos alheios ao que se estabelece como equivalência.

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