“Ou a bolsa ou a vida”




Com o exemplo “ou a bolsa ou a vida” Lacan procura demonstrar o absurdo da escolha, que sempre implica em perda não apenas do que não se escolheu, mas também daquilo que pretensamente se escolheu. Escolhendo a bolsa se perde as duas, bolsa e vida, e escolhendo a vida o que se escolhe é uma vida (sem a bolsa). As obviedades ampliadas para condições paradoxais criam o faz de conta que é a escolha.

Atualmente, na pandemia da Covid-19, temos o equivalente com as pessoas que entendem a necessidade de isolamento como uma escolha e não como uma evidência que se impõe. Escolher o trabalho e o não isolamento, em última análise, é escolher a possibilidade de se contagiar e aumentar o risco de morrer. Ficar em casa é o óbvio, inelutável, sequer deveria ser pensado como passível de escolha. 

Certas situações sempre nos lembram a escolha de Sofia: com os dois filhos a seu lado exigem que ela entregue um deles para ser sacrificado, e se não o fizesse perderia os dois. Nesta situação de explicita impotência e desespero, o que resta é a mãe que diante do ter que escolher já está destruída. Uma reação possível e transcendente seria a “explosão” da impotência ou assunção da mesma, por esta mãe, mesmo que a consequência fosse a morte dos três, pois assim ela não teria que descobrir mais tarde que há situações às quais não vale à pena sobreviver. Nesta escolha o que sobrevém não é o triunfo de uma mãe que salvou um dos filhos, mas uma mãe destruída pela culpa insuportável, culminando com seu suicídio como alívio e solução demorada de desesperos acumulados.

A escolha sempre revela uma impotência que quer ser metamorfoseada. Escolha, parecendo coisa nova, aponta sempre para perspectivas inexistentes. Triste de quem pensa ter que escolher, carta marcada que nada de novo oferece, apenas repete avaliações, compromissos e alianças. Impotente, cooptado, desumanizado, ter que escolher é uma mentira, um faz de conta aliciador.

Jamais existe a possibilidade de escolha, e quando ela é insinuada, colocada, parece um jogo com supostos critérios de solução. É quase a fábula do gato e o rato contada por Kafka:

“Ah, disse o rato, o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro. - Você só precisa mudar de direção, disse o gato e devorou-o”.

Lacan, Sofia, Kafka são exemplos que resumem desejos e mentiras que assolam o indivíduo quando ele faz de conta que o que acontece não está acontecendo. Nesse sentido até a matemática engana: é o clássico seis por meia dúzia enunciado como algo diferente para a mesma situação.

Triste o indivíduo que pensa escolher, ele apenas adia e eterniza conflitos. Escolhas são situações que explicitam conflitos, conflitos decorrem de divisão, e divisão remete às possibilidades de autonomia, submissão, medo e cogitações sobre perdas e conveniências. Em outras palavras, escolher é sempre uma avaliação pragmática e conflituosa ditada por medo e principalmente por despersonalização.

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