Paradoxo e simplificação



Estabelecer paradoxo é uma maneira de manter opostos. Simplificando, paradoxo é um problema cuja solução é outro paradoxo, ou ainda, paradoxo é a contradição do estabelecido, do posto. 
 
O inesperado é paradoxal. Quebrar certezas hauridas de regularidade e frequência cria paradoxo. Saber que qualquer coisa estéril frutificou, por exemplo, é também paradoxal, caso não se considere a possibilidade de enxertos. Saber que uma mulher dependente e espancada por anos foi à Delegacia após meses sem ser seviciada, é paradoxal, caso não se considere o tempo de construção da lucidez, gerado por visitas de agentes sociais ou por outras intervenções. Enfim, paradoxal é tudo aquilo que rompe uma cadeia de referências situantes das constatações que estão sendo consideradas paradoxais.

Na esfera moral é na família que se vivencia os maiores paradoxos. A mãe que se recusa a aceitar que a filha tenha uma vida sexual, quando ela mesma não esconde seus inúmeros relacionamentos sexuais; o pai que ameaça cortar a mesada do filho que não estuda e não trabalha, quando ele próprio vive de expedientes questionáveis etc. A tabela de valores é oscilante, pois outros contextos interferem. O paradoxo em relação a alguma situação é solução para outra. A própria palavra em sua etimologia esclarece que é outra doxa, outra opinião. Quanto mais se vive, mais se morre, mais se aproxima da morte, é mais um exemplo de paradoxo. Tudo que é quantificado, destituído de sua qualidade, seu quali - essência especificadora - pode se constituir em paradoxo.

Atualmente se estabelece abismos, contradições, divisões, conflitos psicológicos e se tenta resumi-los em situações paradoxais como justificativas de manutenção. Querer e não querer o mesmo que está diante de si é uma divisão, uma explicitação de fragmentação de perspectivas, é a motivação flutuante em função de referenciais próprios, impermeabilizados a questionamentos. Não querer mais e continuar vivendo com um companheiro que trai e engana, mas ao mesmo tempo querer que ele mude, que ele seja outra pessoa, é o desejo paradoxal alicerçado nas quimeras da insegurança e dependência. Geralmente o confronto das contradições, a vivência das situações paradoxais é gerada por insegurança e absurdos resultantes da mistura do espaço e do tempo. A situação de agora, a verdade que inunda é confrontada com o sonho, o que se desejaria que fosse, o que se pensava que era. Enfim, as situações são percebidas e categorizadas pelos filtros dos sonhos, dos medos e dos desejos e assim não é possível desistir da mulher que diz preferir outro amante, não é possível aceitar que o filho escolha outra profissão diferente da programada, por exemplo.

Paradoxos desaparecem ao se perceber que o que ocorre, ocorre com todas as suas implicações e nuances, e assim se afirma a nova ideia, a cristalização de outra doxa, outra opinião, outras visualizações.

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