Rotina

 


Se tudo fosse igual, nada seria diferente. Igualdade e diferença são conceitos que não subsistem sem outros parâmetros que permitam configurar comparações a fim de que possa surgir o igual e o diferente. As vivências de monotonia e tédio, por exemplo, pressupõem sempre insatisfações, frustrações, fracassos vivenciados e não admitidos, não aceitos. Entender os despropósitos das vivências rotineiras só é possível quando consideramos os níveis de aspiração, os desejos frustrados, as vivências de submissão e medo responsáveis por desânimo, insatisfação e ansiedade. Viver o presente como se fosse uma passagem, uma ponte, um trem bala correndo célere para atingir o paraíso sonhado cria ansiedade. Nas vivências ansiosas, nada se percebe enquanto está acontecendo, tudo é imantado, polarizado como sinal de que o futuro, os sonhos estão sendo nutridos ou esquecidos. A ansiedade é uma vivência similar ao bate estacas, aos barulhos iguais, aos espaços constantes no que se está construindo e desejando. O dia a dia transformado em “canteiro de obra”, em deserto que deve ser atravessado até o grande Oásis cria cansaço, desmotiva, gerando despropósito: é o tédio que embranquece e enegrece tudo, são vivências homogeneizadas que desvitalizam. Diversificações, cores só surgem quando se olha em volta, pois o presente é sempre colorido, miríades de acontecimentos que significam quando vivenciados enquanto aqui e agora. Não há tédio, não há monotonia, tudo expressa novidade e mudança. Basta se deter no que acontece que despropósito e rotina desaparecem.

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