Comportamentos esquemáticos


Seguir um esquema é procurar seguir uma receita, é procurar ter bons resultados. Esse comportamento é sempre deficitário, pois estruturado em outros contextos funciona como encaixe rapidamente transformado em quebra-cabeça ou acerto de figurinhas que se parecem. Assistir os esforços das mães querendo educar os filhos de acordo com tudo que é preconizado por psicopedagogos e psicólogos é exemplificador dessa atitude. A agenda recreativa, lúdica, cultural e esportiva é movimentada, tudo é dado, menos o contato direto com os pais, única possibilidade de amor e de carinho. É um caminho que valoriza ganhos e sucesso e a questão do ganhar dinheiro, do exercício profissional, que sempre cria outras demandas e variáveis.

As dietas, a fixação em alimentação saudável é outro exemplo de comportamento esquemático. O esforço inviabiliza a espontaneidade. Se dedicar a fazer o que é necessário, o que é considerado bom, é sempre ruim pois busca realizar metas ou propósitos. As barras de proteção, o que se segura atravessa o vivenciado e assim transforma o presente em ferramenta para atingir o futuro. Essa utilização interfere e atrapalha. Os mecanismos de proteção e de ajuste são também mecanismos de isolamento. O protegido se perde enquanto possibilidade de transformação.

Endereçamentos são úteis e necessários, tanto quanto são pontualizadores e discriminadores. A receita, o esquema é sempre precário, pois percebe o todo como soma de partes: são etapas, patamares, escadas que transpostas levam ao pódio, mas reduzem possibilidades, ações e interações.

A vida não pode ser esquematizada. Educação de filhos e relacionamentos afetivos, por exemplo, não devem ser esquematizados sob pena de instalar a meta, a busca de resultados como principal objetivo das vivências. É fundamental não esquecer que todo ponto atingido é rapidamente superável e superado e é bom lembrar que a dinâmica, o movimento são constantes. Envelopar, encaixar cria bolhas destrutivas de criatividade e assim assistimos, por exemplo, o surgimento de líderes sociais, de manipuladores que utilizam como matéria prima o que era passível de felicidade e de alegria. Viver programado para bom ou mau resultado é sempre desumanizante, pois os mesmos são constituídos para outros momentos, outras individualidades. O bom de hoje, em geral, é o péssimo de amanhã e foi o esforço desesperado de ontem.

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