Vantagens


Medir, contar são frutos da atitude de avaliação. Quando a pessoa não vivencia o presente, seu dia a dia é um espaço em branco, tempo sem lei pontuado por medos, insegurança e desejo de coisas a realizar e também a evitar. Tudo é aferido. Não se suporta o que se vivencia, caso isso não aponte para alguma conveniência, alguma vantagem ou superação do que se quer esconder. Desde cuidar da aparência - mudança de cor de cabelo, plásticas rejuvenescedoras, uso de roupas de marcas famosas, coleção de amigos influentes e poderosos - até um cotidiano de aplausos e estímulos para manter o que de bom e significativo foi conseguido, o indivíduo vive como máquina que registra, amealha e cuida. Cuidar que um futuro bom aconteça, evitar que as coisas ruins apareçam são os parâmetros, são barreiras a destruir. Nesse referencial, o indivíduo coleciona ansiedade, angústia, inveja e medo. Não se suporta sozinho, pois sem apoio não tem onde se agarrar ou se sustentar para os pulos que podem permitir aproveitar boas oportunidades. Viver assim é se candidatar à eterna despersonalização, povoada pelo medo de falhar, pelo medo de morrer. Esta expectativa de não conseguir, de perder oportunidades é atitude de vítima, fortalecendo sua dependência, seus medos e quando muito consegue, enquanto lucidez e transcendência, é perceber que “perdeu boa oportunidade”, “foi superado pelo bonde da história”, “não pegou o cavalo selado que apareceu”, enfim, suas próprias constatações e críticas mantêm os referenciais de vantagem e oportunidade. Ter como referência vantagem e bons resultados é se perder na circunstancialização, é estar nela ancorado. Essa atitude tritura possibilidades e cada vez mais aumenta o nível das necessidades, pois tudo é avaliado autorreferenciadamente: “É bom para mim? Vai melhorar? Vale à pena? Não corro risco de prejuízo?” Essas perguntas/cogitações exilam o indivíduo de seu mundo, conseguindo assim, que ele flutue nas águas das circunstâncias, sem comando, sem determinação.

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