Constância

 



Normalmente entendemos constância como o que não muda, e em relação a pessoas são aquelas que são fieis, que mantêm propósitos, compromissos e desejos. Nessa abrangência a constância é uma faca de dois gumes: ela diferencia, corta, separa e também limita.

 

Ser constante, manter propósitos pode ser uma maneira de negar o tempo, a passagem das situações, a mudança, e, assim, a constância é transformada em compromisso, em medo do próximo passo e proteção para os vendavais que transformam realidades. Torna-se uma cabine de isolamento e proteção que pode ultrapassar a imanência individual e colocar o indivíduo fora dos processos vivenciais. Os juramentos de fidelidade, como o clássico “até que a morte nos separe”, estão calcados em suportes negadores de circunstâncias e vivências, enfim, negadores de mudança.

 

A vivência contínua de constância impõe questionamentos. São antíteses que exacerbam propósitos e medos e questionam a coerência. Podemos perguntar se a fidelidade, a constância ao que se propõe, é ao que se conquista, ao que limita e define, ou, ela é ao que integra e individualiza? Responder esse questionamento gera diferenciações responsáveis por medos, preconceitos, compromissos, regras, enfim, por aprisionamentos, ou gera esclarecimentos responsáveis por libertações. Romper laços, mudar atitudes pode também ser exemplo de constância e fidelidade, assim como de desespero e desorientação.

 

Dizer não ao que aprisiona, engana e ilude é uma constante necessidade, é antítese ao que compromete e aliena. A instrumentalização da constância, a adoção de “verdades legais” para a vida, saúde, trabalho e amizade constrói cápsulas protetoras, e nesse isolamento, mentiras se justificam, exigindo constantes reciclagens. Essa é uma maneira de entender as mudanças de comportamento, as modas que comandam: todos magros, todos cheios de vitamina D, todos bronzeados, e que são úteis, mas estabelecem a ciranda da inconsistência que configura despersonalização, regras e preconceitos.

 

Certas lutas sociais, as questões de identidade, por exemplo, quando suturadas em seus vazios constantes e preenchidos por queixas e reclamações, perdem vitalidade, pois são transformadas em fósseis indicativos de processos. Da mesma forma, as tradicionais lutas em prol da classe operária se mantidas hoje são anacrônicas, pois a classe trabalhadora atual é bem mais diversificada, tornando inadequada a manutenção da antiga luta operária.

 

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 "Como bem nos alerta a dialética, o homem se desenvolve mesmo na alienação" - Vera Felicidade, in: Tudo é relacional - Causalidade nada explica 

"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos 

 "Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante,  via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista

 

 

 


 

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