Dogmas e certezas


 

O estabelecimento de certezas é uma das maiores necessidades, assim como uma das maiores dificuldades cotidianas. Acreditar no que se percebe, no que se pensa, ou ainda, acreditar no outro ou em si mesmo é um processo que geralmente implica desespero e alienação.

 

Essa dificuldade cotidiana psicológica é também filosófica, epistemológica. Quando a continuidade dos processos é quebrada por introdução de referências a partir das quais se possa pensar, corrigir e também resumir dificuldades, rompe a Gestalt, a totalidade dos fenômenos, e, é assim que se distorce.

 

É bom lembrarmos de Aristóteles, cuja obra ainda é pilar do pensamento filosófico atual, apesar de propiciar distorções e divisões com suas “categorias lógicas” a priori. “As dez categorias de Aristóteles são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ações e paixões para classificar tudo o que existe. É a Teoria de Classe com seus agrupamentos e categorias, escondendo o que está à luz dos olhos. Kurt Lewin, séculos depois, questiona esse pensamento com seu conceito de Teoria de Campo, antagônico e questionador da Teoria de Classe aristotélica. É importante notar que, quando Aristóteles coloca relação como categoria, ele não apreende a dinâmica dos processos.”*

 

Ele costumava dizer que “todos os homens são mortais”. Essa sua afirmação era fundamentada no que considerava como percepção sensível, consequentemente ele tinha que justificar tanto a percepção sensorial, quanto a memória, já que ambas estão envolvidas. Daí a doutrina de que os sentidos, enquanto tais, jamais erram: só o juízo é verdadeiro ou falso. Aristóteles, portanto, afirmava que o erro é sempre subjetivo. Ele fazia uma divisão entre o que considerava dado sensorial, natural, real, e o que considerava subjetivo resultado de avaliações pessoais.

 

A divisão entre subjetivo e objetivo, entre percebedor e percebido gera infinitas categorias, divisões e impressões distorcidas da realidade. O que se percebe não é seguro, é sempre discutível, pode causar acertos ou erros na apreensão dos fatos e processos. Por conseguinte, a influência do sujeito cria divisão e valoração no processo do existir. Conceitos de normalidade e patologia ficam, assim, embaralhados. Aristóteles acha que o erro, a distorção perceptiva é sempre subjetiva. A culpa é do sujeito, de como ele percebe, é isso que quebra a organização do cosmos, segundo ele.

 

Essa ideia ainda ecoa nas escolas, nas famílias, na sociedade, nas vivências individuais. É uma busca de certeza e normalidade que cria padrões despersonalizantes.

 

Não há certo e errado. O que existe é contextualização e descontextualização. Existem a priori e metas, desejos e medos. Esses são os polarizantes imobilizadores do estar no mundo e para percebê-los é necessário aceitar a reversibilidade, a continuidade. É também fundamental o questionamento do que divide, do que unifica, das aceitações, metas e medos. Não há certeza, salvo a de existir continuidade, o que por definição impede e exila qualquer posicionamento fixado em a priori, ou na vivência psicológica constituída por medos, desejos, ansiedade e ambições, ou seja, por mecanismos adaptativos.

 

A visão aristotélica de que o erro, a culpa, a distorção são sempre subjetivas, e de que o que existe objetivamente é constante e perfeito, cria um grande anátema: o indivíduo é maldito, erra, está entregue à destruição, e, assim, precisa ser ajudado, salvo, redimido de seus erros, de suas avaliações subjetivas, de seu desajuste. Precisa ser adaptado. A religião e a psicologia exercem esse papel. Não é por acaso que, na filosofia, os tomistas – religiosos de base aristotélica –, buscaram a palavra de Deus para adaptar o homem, para impedir seus erros e avaliações subjetivas.

 

Mecanismos de repressão são engendrados quando se parte da ideia de que o erro é sempre do sujeito, do indivíduo.

 

Apreender as contradições, nelas se situar e transcendê-las permite mudança e satisfação. Neutralizar dicotomias é fundamental na filosofia, na psicologia e no dia a dia do comportamento humano. Manter medos, ansiedade, desejos, processos de não aceitação gera os desejantes e as dificuldades expressas nos medos, tristeza e ganância. Transformar o que está estático em dinâmica, quebrar categorias posicionantes é o que se coloca para dinamização do estar no mundo com o outro.



* em Tudo é relacional – Causalidade nada explica. Vera Felicidade de Almeida Campos. Labrador. São Paulo. 2025. p.61.

 

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 "Como bem nos alerta a dialética, o homem se desenvolve mesmo na alienação" - Vera Felicidade, in: Tudo é relacional - Causalidade nada explica 

"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos 

 "Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante,  via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista

 

 

 


 

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