Quando a solução é o problema
Parece contraditório afirmar que existem soluções que são problemáticas. Mas, isso acontece sempre que soluções são arbitradas a partir de metas, de desejos gerados pela não aceitação do que está ocorrendo. Os problemas ressurgem, aparecem. Imaginemos situações desesperadoras, como naufrágios e grandes acidentes, se aí existe um grupo de três pessoas e só tem comida para duas, a solução de eliminar uma pessoa é problemática, paradoxal e desumana. Para se salvar, se mata o outro. Não é tão raro e é um exemplo de solução problemática. Esse caso extremo do exemplo é diariamente vivenciado sob condições normais: é a luta pelo emprego, o roubo, o engano, a mentira. A falta de verdade, o egoísmo, tudo fazer para sobreviver são soluções predatórias que destroem a individualidade, a humanidade. Ao ser transformado em animal lutando pela sobrevivência, o ser humano se contingencia em matar ou morrer. Essa atitude é encontrada nos níveis mais doutos, assim como nos mais extremados casos de sobrevivência. É a luta para ser o primeiro, para conseguir, para vencer, aproveitar as oportunidades oferecidas. Aproveitar é sempre a solução que é problemática. Vencer é também o que despersonaliza. Enfim, qualquer meta, qualquer busca de resultado como solução aplaca e despersonaliza.
Aceitar limites, transformá-los ao entender o jogo de erros que eles escondem é uma maneira de manter humanidade. Lembrando Santo Agostinho, que embora dualista e metafísico atingiu o ponto unificador do existir humano: “Deus deixou no ponto mais profundo da autoconsciência humana um sinal distintivo de presença, correspondendo a sua transcendência, a saber: aquela alegria da verdade que é completamente inerradicável (assim crê Agostinho) da mente humana e da memória.”
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"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos
"Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista




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