Lutas infrutíferas
De uma maneira geral, lutar sempre expressa defesa de um ponto de vista, uma posição, um princípio norteador de comportamentos e desejos, enfim, de objetivos a estabelecer ou defender.
O processo de luta se caracteriza pela sucessão de teses e antíteses transformadas em sínteses. Esses resultados, essas sínteses, automaticamente são as novas teses, início de novas lutas na medida em que antíteses sempre surgem. É o estar no mundo, vivenciando contradições geralmente muito próximas. Estar com o outro, como nos exemplos mais frequentes de relacionamentos afetivos e educacionais, é estar sempre possibilitando contradições. Quando as contradições são aceitas como parte do processo e das diferenças individuais, as motivações de estar com o outro são constantes. Mas, quando as contradições não são aceitas – e às vezes são negadas – as dificuldades se instalam e surgem dúvidas, especulações sobre a origem das atitudes e comportamentos divergentes: “onde ela aprendeu esta maneira de pensar?”, “será que ele desejaria e faria isto com os próprios filhos?”. Lutas são iniciadas. É o querer que o outro pense igual e não aceitar o desenvolvimento, a mudança, o novo que diariamente se implanta nos processos vivenciais, relacionais. É um ambiente de discordância, no qual não se aceita os novos caminhos, eles são criticados ora pela incoerência, que os estabelece, ora pela ameaça, que os estrutura e caracteriza. Por exemplo, o pai empresário que não aceita a ideia antissistema, anti-riqueza do filho, ou a mãe que espera que tudo que ocorra à filha, enquanto descobertas e relacionamentos sexuais, seja idêntico ao por ela vivenciado. Essas são plataformas significativas de luta, por definição, inglórias, infrutíferas.
Não existindo antíteses, não existindo questionamentos às vivências e opiniões, as discussões e discordâncias são meras paralelas – não se tocam nunca – não permitem contradição, não há resultante, apenas expressam distanciamento, disforia ou desconforto afetivo, insatisfação e mal-estar psicológico.
No entanto, é a dificuldade de suportar que vai preenchendo o cotidiano, os relacionamentos, e aí é que se constituem os pontos que podem estabelecer antítese. A vivência disfórica impede questionamento, pois tudo engloba, por isso serem necessárias presenças e atitudes terapêuticas para transformá-la. Os questionamentos terapêuticos a essas vivências se constituem em questionamentos ao autorreferenciamento. Questioná-lo é quase impor prevalência do vazio existencial e situacional do outro. Autorreferenciado, o indivíduo só percebe a ele próprio, ou seja, tudo a partir de si mesmo. A quebra dessa muralha acontece quando ele é resgatado do autorreferenciamento que protege, mas o massacra e esconde.
A mudança desse processo é uma luta diária, um questionamento que implica em constatação de limites sempre percebidos como impeditivos, dados extras que atrapalham os desejos. Essa persistência da não aceitação, geradora de metas e projetos, estabelecida para a realização do que se deseja, mantém o autorreferenciamento.
Mudar essa estrutura pontualizada nos desejos e medos pode se constituir em uma luta inglória, pois só é possível desfazer a pontualização – o ponto – quando todas as variáveis estruturais dela são desfeitas. É um trabalho sisífico. Não se pode pensar no resultado, é o levar e trazer a pedra enorme, constantemente, é a percepção de permanecer, de existir sem metas, aspirações e medo, que trará mudanças. Nesses casos, a atitude terapêutica é assistir o processo, aplaudir e validar a aceitação dos limites e da impotência. Não há mais lutas, não há questionamentos. É essa aceitação do que ocorre que promove outras dimensões, faz existir o outro como espectador. Não participar enquanto criador de teses e antíteses, é presença consequente e concreta que permite recriar a demarcação do outro, que tudo muda. Estar diante equivale ao estar com que impede lutas. É aceitação da impotência e da impossibilidade que vai quebrar o autorreferenciamento, fazer que o outro, outra situação e vivência, além da reduzida ao autorreferenciamento, passe a existir. Nesse processo, qualquer antítese, qualquer luta é inglória e é tão desesperada e inócua quanto querer humanizar o monstro, o torturador e o serial killer, por exemplo.
Fazer terapia muda o autorreferenciamento e a não aceitação, é um processo que visa mudança, mas, quando ela é feita como meio de melhor se adaptar ou se inserir nos padrões, obter resultados e ser vitorioso, é mais um processo de alienação e despersonalização.
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