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Desprendimento

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Abnegação e renúncia frequentemente escamoteiam medo (omissão) e impotência, tanto quanto se constituem em investimento para realização de papeis sociais como os de pessoas de boa alma, simples criaturas nada ambiciosas mas capazes de ajudar o próximo, justificando as instituições que as amparam. Desprendimento é generosidade. Existe apenas quando exercido por pessoas disponíveis. O não estar comprometido, o não estar voltado para o depois, permite que se seja desprendido frente a obstáculos e impasses. Abrir mão é neutralizar o conflitivo, tanto quanto abdicar é permitir o aparecimento de outros processos, outras configurações, nas quais novas realidades e motivações se desenvolvam. Quando os conflitos são neutralizados inauguram-se outras esferas para a continuidade e ela é restauradora: o quebrado é transformado. Abrir-se ao novo, tanto quanto possibilitá-lo, depende de perceber o outro, seus impasses e dificuldades. Este caminhar junto, acompanhar é empático, é simp...

Insaciabilidade

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É insaciabilidade querer conseguir mais para garantir o próprio futuro e segurança, para não morrer por falta de cuidados. Esperar o pior e o súbito e estar para eles preparado é o objetivo característico dos processos de não aceitação de limites, de não aceitação de impossibilidades e da realidade. Viver sozinho e querer a qualquer momento ter alguém apto a ajudá-lo, por exemplo, é desespero configurado pelo impossível desejado. Para esses indivíduos, deve acontecer o que é necessário em função de seus problemas e demandas que precisam ser resolvidas, não importando o fato de não existir condição para satisfazer esses desejos; o que importa é acontecer o resultado almejado. A vivência desse constante impedimento, causado pelo paradoxo não atendido, cria atitudes de expectativa, de ansiedade, orientadas para predar. Dos filhos, empregados, sem esquecer os vizinhos e amigos, todos são vistos como reservas para as horas difíceis. Os estoques do que pode ser utilizado acarretam ...

Desacertos e regras

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Quando existe não aceitação de si e dos problemas resultantes dos compromissos e obrigações cotidianas, surgem desespero e frustração, e nesse contexto é comum o deslocamento de problemas, chegando mesmo a ocorrer imobilização por doenças que inviabilizam o dia-a-dia e criam novas rotinas. Assim, após esse descanso, essa descontinuidade ocorrida pelos deslocamentos, pelas doenças, o indivíduo retoma suas atividades, suas funções muitas vezes execradas em relação à família por exemplo, ao trabalho e até mesmo aos filhos. Na retomada dos afazeres e relacionamentos é necessário apoio, uma base que permita ação, desde que a motivação é impossível diante do que aborrece, do que não se gosta. Neste momento a culpa aparece e é uma varinha de condão eficiente para organizar o cotidiano, para criar regras, determinar o que se pode e o que não se pode fazer, e então, pelas regras adotadas e cumpridas, atinge-se paz e tranquilidade.  As regras também exigem preocupação, cuidad...

Nó Górdio

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Nó Górdio - Mosaico Antigo No centro da atual Turquia, próximo a Ankara, ficava a antiga cidade mais importante da Frígia: Gordion. Pouco se sabe da história da Frígia além dos mitos que envolvem seus reis Górdio e Midas. Em um desses mitos a linhagem dos dois reis é contada a partir de Górdio, o camponês que virou rei. O antigo rei da Frígia não tinha herdeiros e quando morreu o Oráculo disse que o rei sucessor chegaria em um carro de bois. Quando um camponês, chamado Górdio, chegou à cidade em seu carro de bois, foi coroado rei, e em seguida colocou a sua carroça no templo de Zeus amarrada com um nó forte. Esse nó ficou famoso por ser muito difícil, até impossível de ser desatado, ficando conhecido como o nó górdio. Górdio teve apenas um filho, chamado Midas, que o sucedeu no trono, mas que, por sua vez, não teve filhos, não deixou sucessores. Consultando novamente o Oráculo ficou estabelecido que quem conseguisse desatar o nó de Górdio seria o próximo rei e dominaria...

Descobertas

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“Duas linhas são iguais se elas coincidem” é um dos enunciados da geometria de Euclides. Isso parece óbvio, mas não é quando tentamos entender o que significa igualdade. Parâmetros e instrumentos são necessários para essa verificação. Medir, comparar são formas de verificar. Caso não se lance mão de outro parâmetro além das linhas em questão, como compará-las? Considerando o enunciado do próprio Euclides: pela coincidência. Essa redução das duas linhas a elas próprias implica encontro, nada mais que isso. Assim, a igualdade surge, ou seja, é igual pela absorção, quando uma linha encontra a outra e nela se perde, se completa. O diferente é o mesmo, o duplo, agora, é a unidade. Essa possibilidade de integração é o que norteia e determina a trajetória do humano quando percebe o outro. Essa integração decorrente do encontro, essa coincidência, não é muito frequente, pois a fragmentação dos processos quebra a continuidade e estabelece óbices, os pontos de dificuldade e ...

Insinuação de presença

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A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt , outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa * , faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo. A reconstrução do todo por meio de suas partes é ...

Voltar e sair

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Fênix - Mosaico Romano na antiga cidade Aquileia, Itália   Às vezes a única saída é voltar. Quando se está preso ao percebido como irremovível é difícil sair, é difícil se movimentar. A constatação desse limite permite soluções, perceber, por exemplo, que a única maneira de sair do impedimento é a ele voltar. O deslocamento realizado pelas saídas prováveis ou não existentes é uma forma de se afastar a fim de conseguir realizar a quebra dos impedimentos. O medo imobilizador, a omissão que impede movimentos é resolvida quando se configura a realização do que é necessário fazer para cumprir as obrigações e eliminar os limites impeditivos. Voltar, consertar falhas, suprir dificuldades é o que permite sair das mesmas. Recuperar os indivíduos dos fracassos admitidos permite ações liberadoras. Admitir os problemas é uma maneira de aceitá-los e, assim, começar a transformá-los. Voltar ao que se quer largar, entendido como responsabilidades não aceitas, permite saída. É a constata...

“É milagre ou ciência?”

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fonte: Royal Thai Navy “We are not sure if this is a miracle, a science, or what. All the thirteen Wild Boars are now out of the cave” - Royal Thai Navy ( “Não temos certeza se isso é um milagre, se é ciência ou o quê. Todos os treze Javalis Selvagens estão agora fora da caverna” ) Foi assim que o Comandante da Royal Thai Navy anunciou o fim do resgate bem sucedido do time de futebol juvenil tailandês, 12 crianças e seu técnico, que passaram 18 dias presos em uma caverna, em condições extremamente adversas, sem alimentação, sem água potável, sem luz solar, sem saída. Esse espanto é a consideração significativa, a constatação do surpreendente e inesperado, da alegria diante das vidas salvas, tanto quanto é o deslumbramento pela resistência das crianças e admiração pela tecnologia, a engenharia utilizada para salvá-las. Abrir caminho na caverna inundada e vedada por lama e água, transportar oxigênio em completa escuridão por aberturas tão estreitas que mal permit...

Orar, acreditar e esperar

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Quando se sente impotente ou acuado e quer uma saída, amplia o desejo de solução rezando e esperando. É tão intenso o deslocamento das impossibilidades que os cascalhos ou resíduos da tensão construirão caminhos para solução dos impasses. Assim, rezar, fazer promessas para conseguir o emprego, dá a certeza que o emprego virá.  É instalado o universo mágico no qual a espera é solidificadora, pois tudo virá a seu tempo. Não há ansiedade, ela é substituída pela fé e os rituais (compulsões) que a entronizam. A transformação do desejo, sustentada pela impotência, cria, por meio do deslocamento, a esperança e o otimismo. A fé é o pilar que tudo sustenta e este outro mundo criado, aos poucos é corroído pelas areias e pedras da realidade. Os suportes dessa crença, dessa fé decorrente do deslocamento da impotência, é sustentado pela alienação e medo, portanto, quanto mais se humilha, mais vitimização e necessidades nutrem seus sonhos e desejos. Jogar os desejos na infinitude da e...

Mistério e obviedade

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Outro dia li no Brihadaranyaka Upanishad 4.2.2 : “The Gods, it seems, love mistery and hates the obvious” (“Os Deuses, aparentemente, amam o mistério e detestam o óbvio”). Não se pode, não se deve amar o óbvio? O explícito é desprezível? O simples deve ser descartado? O raso, o superficial é bobo? Só é dignificado o trabalhoso? O misterioso? O que não se dá e não se oferece? Sempre surgem planos diferentes do que está aí. O aqui-agora fracionado é um ângulo para manter dualidades. O misterioso, o incrível, o indecifrável, o instigante caracterizam o suposto mundo dos deuses. Mistério é o que envolve essa realidade. Não há outro mundo salvo o que percebemos e vivenciamos aqui e agora. O que se apresenta na evidência do encontro é o outro. Perceber é conhecer, conhecer é aproximar, constatar, integrar - amar. Mistério é o suposto, o desconhecido ou imaginado como deslocamento do existente insatisfatório, incompleto e incongruente. Como amar o inexistente? Como amar o n...

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