Insinuação de presença


A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt, outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa*, faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo.

A reconstrução do todo por meio de suas partes é frequente, é característica do processo perceptivo, é assim que se configura a Lei do Fechamento ou Closura - da Gestalt -, entretanto esses constantes processos perceptivos atingem novas dimensões quando tornam visível o invisível, quando mostram, quando trazem de volta o perdido. São esses fragmentos da realidade (totalidade) que, de forma densa, configuram acontecimentos ou fatos. A prancha de skate estraçalhada conta uma história, o lugar à mesa, vazio, também conta uma história, a lápide profanada - os ossos que não estão mais ali - é a morte repetida, é tudo de novo, pois o resíduo, os ossos que ancoravam e suportavam a presença, sumiram.

Reencontrar o próximo na distância ou ver distâncias e situações passadas e configurar esses esvaziadores é um forte e denso real, apesar de sua presença ser a marca do ausente, do insinuado, do fragmentado. Vivenciar o abandono pela presença da traição, às vezes impressa em uma fatura de cartão de crédito, ou marcada por vermelhos que tingem pedaços de camisa, é a mensagem que explicita e esclarece dúvidas. Constatar é, no mínimo, armar pedaços de figuras, descobrir o insinuado e, assim, dar corpo ao sutil ou recuperar o perdido, o desaparecido.

Arqueologia, paleontologia, psicologia reconstituindo realidades, monumentos, cidades descobrem e iniciam o desenvolvimento de histórias, fazem mágica ao vivificar o desaparecido. Luto, melancolia, desespero, angústia, amor e encontros são recriados e mostrados pelas presenças insinuadas. Dar consistência aos mesmos ou descrevê-los é o que se realiza quando se abraça e encontra essas insinuações, esses arremedos, fantasmas ou consistências evidenciadas do que está aqui e agora, do que é, do que foi.

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* O Destino da Africa, de Martin Meredith, Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2017

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