Wednesday, September 7

Despersonalização

Despersonalização é o que acontece quando se vive para ser ou não ser o que os outros (pai, mãe e mais tarde os amantes e amigos etc) desejam que seja.

As imagens construidas existem para compor os diversos personagens. Rebelando-se ou atendendo as expectativas ou imposições, sendo ou não, o que se espera que seja, o indivíduo se circunstancializa, começa apenas a concordar ou a discordar com o que lhe é proposto; surgem os enquadrados, ajustados e os revoltados, enfim os marginais. Ambos estão cooptados pelos sistemas, ambos sem autonomia. Não questionam, não fazem perguntas apenas respondem, reagem ao proposto. 

Este processo não cria individualidades, entretanto, estabelece espaços, posições, direitos e deveres que demarcam e estabelecem seus caminhos e motivações. 

A permanência destas aderências, destas "externalidades" inicia o processo de despersonalização. Vive-se para conseguir realizar propósitos, atingir situações à partir das quais pode ser alguem socialmente considerado. Valer pelo que representa e pelo que consegue é o sonho de todo despersonalizado. Ao realizar seus sonhos, resta mantê-los. Passa a viver em função do conseguido, tendo que cuidar da imagem, da aparência. O que se mostra, o que se expressa tem também a função de esconder e calar.  Esse jogo impõe malabarismos geralmente aliviados através da criação de personagens, receptáculos dos fragmentos causados pelas constantes e sucessivas divisões. Exemplos extremos e encontradiços dessas divisões aparecem, por exemplo, nas atitudes de padres que abusam sexualmente de seus discípulos, nos ginecologistas que, sob a máscara de atendimento profissional, abusam sexualmente de suas clientes etc. Freud fala na sublimação de desejos instintivos, exemplifica com o sádico que se transforma em cirurgião. 

Para nós, não é o que se faz, mas sim o como se faz que vai determinar a aceitação ou a não aceitação, a sanidade ou a doença. Não existe um sádico, existe o indivíduo autorreferenciado, que não se aceita e que precisa exercer função socialmente aceitável para sobreviver e deslocar seu desejo de matar e destruir sem pagar o preço disto, por exemplo. 

As situações aderentes, as vivências circunstancializadas, situações vivenciadas em função de necessidades a serem satisfeitas, são responsáveis pela despersonalização, pela não individualização. O despersonalizado procura expressar bom gosto através da escolha de objetos, da roupa que impressiona os amigos, procura ser amigo de poderosos, dos admirados, dos vencedores. É uma maneira de se identificar com o poder, sucesso e vitória. Para ele, fazer parte, pertencer é definidor do que ele é, de onde está, de que mundo domina. A vida psicológica vai depender do que consegue, do resultado dos empreendimentos. Quando não consegue, quando falha, vem a frustração. A continuidade de frustrações leva a insegurança, dúvida sobre o próprio valor, revolta, inveja de quem consegue bons resultados e vitórias.

A insegurança aumenta a necessidade de se manter, aumenta o autorreferenciamento. Percebendo à pratir dos próprios referenciais e nele se esgotando, o indivíduo se esvazia. Este processo é cada vez mais desumanizante. É como se fosse uma caixa de ressonância, apenas ecoando o que está em volta, é a despersonalização.

verafelicidade@gmail.com

10 comments:

  1. Vera, esse texto é muito esclarecedor! Fiquei refletindo...
    Então, por meio das situações aderentes, temos a frágil sensação de apaziguar nosso sentimento de inadequação? Tenho visto como esse sentimento de inadequação está presente em quase todo mundo. Quando bem mais jovem, eu achava ser algo só meu. De fato, não é. Entendo que o sentimento de inadequação decorre da não aceitação de si somada às frustrações por não conseguir atender aos requisitos que farão com que os outros nos aceitem (ou às frustrações por conseguir atender a esses requisitos e vivenciar o vazio que isso traz).
    Pois me questiono: de onde vem essa necessidade de aceitação de si por si mesmo? Isso é natural ao homem? Faz parte do que nos faz humanos? Fazendo um paralelo com os animais (suspendendo as diferenças biológicas e evolutivas que nos separam), vemos ausência dessa necessidade neles e, como conseqüência, a capacidade de vivenciar o presente.
    Seria, então, a aceitação de si por si a chave-mestra de nossa plena realização, bem como a não aceitação seria a chave de todos os nossos conflitos?

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  2. Pensando sobre a analogia que você fez com a caixa de ressonância, lembrei da questão do insigth. Assim como a ressonância é uma resposta que reproduz vibrações iguais às emitidas por outra fonte, nós, quando somos como caixas de ressonância, não temos a possibilidade de ter insights, de crescer. Como você diz em outro post...

    ..."Quando copiamos, quando imitamos, apenas utilizamos, não temos insight, não apreendemos a relação configuradora dos fenômenos, não transformamos; seguimos mantendo as adaptações. Nos massificamos no processo de conseguir, de parecer. Tudo passa a significar enquanto resultado, vitória ou fracasso."

    Abraço.

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  3. Clarissa,
    Exatamente o apaziguamento decorre do que você pensou- escreveu. A não aceitação é tudo que exila o outro de nossa vida, dado que ele foi sempre uma metáfora, um ícone. Não existe não aceitação e frustração, não existe não aceitação em si etc. Este contexto dualista, elementarista cria divisões, implica em causa e efeito, é muito típico do pensar psicanalítico. Você está usando palavras gestaltistas com pensamento psicanalista: dualista, elementarista rs. Se você continuar, aos poucos as antíteses se realizarão e essas suas divisões
    serão mudadas. Bjs. Vera

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  4. Fiquei achando graça da minha mistura, rss. Vou continuar lendo!

    "não existe não aceitação em si" Isso eu não entendi bem. Deve ser pela minha visão dualista muito arraigada, aí não consigo ver. Mas daqui a um tempo, quem sabe.

    Obrigada pelas respostas, Vera. Abraço.

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  5. Bem, eu novamente. É que fico pensando e aí me ocorrem umas analogias. Tem um conto da Clarice de que gosto muito muito mesmo, chama-se "Um amor conquistado". Acho que ele cai como uma luva nessa questão da despersonalização. Deixo aqui o link para quem quiser ler: http://itsmaybe.blogspot.com/2006/01/um-amor-conquistado-clarice-lispector.html

    Acho importante fazer essas analogias para agregar significados às coisas, aos textos. Penso que, com essas articulações de ideias, temos mais possibilidade de enxergar os movimentos que fazemos no dia a dia e assim nos modificarmos.

    Abraços.

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  6. Clarissa, possibilitar novos insihgts, novas compreensões é muito bom, vale a pena o que você está fazendo. Esperar que isto agregue, acrescente e modifique é ilusório; enquanto o cerne das questões não for apreendido, tudo será um mero acrescimo, novas camadas, mais distorções, mais deslocamentos. As vezes quanto mais se amplia, mais se reduz as possibilidades de mudança... Clarice Lispector é sempre bem vinda, mesmo quando seus textos sāo exemplos notáveis de nāo aceitaçāo. Bjs. Vera

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  7. Ok, Vera! Suas respostas sempre me fazem refletir MUITO. Obrigada =) Abraço.

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  8. Que bom Clarissa, a intenção é esta. Bjs. Vera

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  9. Prezada Vera , os psiquiatras por vezes usam o termo despersonalização para se referir a um distúrbio grave quando uma pessoa surta e percebe as coisas de forma extremamente desordenada e fragmentada, perdendo o referencial de sua individualidade. Acho que você descreveu uma compreensão fiel do fenômeno relacional.
    Os conceitos incutidos na mente (religiosos e culturais) sem espaço para dúvida ou questionamento geram um entendimento da realidade inautêntico – a pessoa não o construiu por seu próprio discernimento, foi implantado. Clarice Lispector descreve de forma muito perfeita essas relações inautênticas, sem concessões, entra no íntimo dos personagens.
    Acho que conheci bem esse processo que querer que o outro atendesse minhas expectativas e o reverso, ser cobrado a ser como o outro queria que eu fosse. Com o tempo as cobranças e expectativas tornaram-se insuportáveis e geraram ruptura, separação, que ao mesmo tempo foi uma libertação. Compreendi aos poucos que não são as diferenças que tornam um relacionamento insustentável, mas não aceitar as diferenças, por rigidez ou por mesmo por escolha – pode ser saudável não querer conviver com certas pessoas.
    Fiquei refletindo na diferença entre a satisfação pessoal de simplesmente ser o que se é e o jogo de aparentar ser o que se pensa que vai causar certa impressão nos outros. Entendi essa caixa de ressonância como alguém que somente reage, parado, sem criatividade.

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  10. Perfeito, Augusto. A mudança é sempre uma antítese que abre para infinitos ou por implicações abismais, gera posicionamentos imobilizadores.
    Abraços,
    Vera

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