Thursday, September 15

Monotonia

Quando o aderente é o fundamental o ser humano se escraviza ao que o aliena.

O vício (não conseguir desempenhar suas funções, não conseguir viver sem estar alcoolizado; a droga como sedativo constante do sofrimento, da dificuldade de estar no mundo com os outros), o viver em função dos outros, ou em função das aparências, ou das instituições que dignificam, que conferem status são formas de aderência.

Intrínseco, imanente é o constituinte, o legítimo. Imanente ao humano é sua possibilidade de relacionamento com os outros, consigo mesmo e com o mundo. Transformar esta possibilidade em necessidade de relacionamento, em carência* faz surgir aderência explicitada gradualmente em satisfação e insatisfação.

Possibilidades exercidas não são quantificáveis ou "quando se trata de direito não há legitimidade", como dizia Luypen, fenomenólogo holandês. Não se discute a legitimidade de caminhar, embora se discuta para onde se pode ir.

Dirigir as possibilidades para alvos específicos cria esgotamento e transbordamento. Este processo pressupõe manutenção, cuidados, aderências. Assim, para continuar é necessário manter "como um caminho no outono: mal se acaba de varrer, logo se torna a cobrir de folhas mortas…" (Franz Kafka).

Manutenção é o que dá continuidade e também o que destrói o dia a dia das pessoas. Quando ela não é realizada cria resíduos que aumentam, crescem, se tornando obstáculos no dia a dia. Quando realizada pela persistência e continuidade, exila o novo, pois o que se repete, o que continua, já é o esperado. No exemplo de Kafka, as aderências sazonais, em relação ao caminho, exigem que o mesmo tenha sua existência preservada através da limpeza (varredura) ou da drenagem (gelo e água) para que continue sendo caminho - possibilidade.

Neutralizar aderências implica em explicitar imanências. Mudar uma visão preconceituosa acerca do outro, do semelhante percebido como diferente, realiza o milagre do encontro, do reconhecimento, da descoberta do novo, por exemplo.

Abrir mão de apoio, mesmo arriscando cair, é libertador. Saber que tudo acontece na exata dimensão das possibilidades realizadas, das possibilidades atualizadas, dá consistência, confiança para mudar, para permitir o novo, para se surpreender, para quebrar a monotonia da alienação.


* Ver: Psicoterapia Gestaltista - Conceituações - Vera Felicidade A. Campos


verafelicidade@gmail.com

45 comments:

  1. This comment has been removed by the author.

    ReplyDelete
  2. Vera,
    Entendi algumas coisas do seu excelente texto. O que nos faz referenciar na experiência passada é necessário para a nossa sobrevivência. O exagero disso nos prende e limita com relação a novas possibilidades existenciais. Ou seja, o que nos constitui também pode potencialmente nos limitar, o que nos estrutura pode também nos aprisionar. Habitamos um espaço, mas somos habitados por uma memória, escreveu José Saramago. Pensei nessa memória que nos dá o sentido de individualidade, que nos permite interpretar as coisas que percebemos e referencia nossa compreensão de realidade. Que a memória serve para nos dar sentido de eu, de vivência, de nossas relações. Mas que não deve servir-nos de prisão no conhecido (ou no pensamento obcecados com o futuro). Nós, gente, por natureza, temos a tendência de repetir o conhecido, mais para ficar o tédio do conhecido do que deixar fluir o novo. Mas nós, seres humanos, temos também a capacidade potencial de superação, de ver o novo, de compreender novas possibilidades e de mudar, transformar, sem o que a vida seria mesmice. Assim, Galileu viu que a terra se move e que os astros não se movem ao redor dela estática, como se pensava. Os gregos notaram que a terra é curva e mediram seu raio, diâmetro e curvatura por volta do ano 240 AC com muita precisão. Foram insights do novo, desligados do conhecido.

    ReplyDelete
  3. Engraçado este texto se chamar Monotonia, pois no dia em que me dei conta de todas essas cosias que você escreveu neste artigo (não da forma organizada como você expõe, mas em forma de insight mesmo) a primeira coisa que me veio à cabeça, e acho que cheguei a dizer foi: então não há monotonia na vida, tudo é dinâmico.... Lembro disso e acho que o nome do texto está perfeito. beijos

    ReplyDelete
  4. Oi Augusto, seus comentários ampliaram tudo que desenvolvi no texto 'Monotonia', são adequados e pertinentes. Você já leu "A Questão do Ser do Si Mesmo e do Eu"? Nele trato da questão da memória e do eu: "O eu como sistema de referência é mantido pela memória, atualizado pela percepção e mudado pela interação estabelecida nos diversos contextos estruturantes." Abs. Vera

    ReplyDelete
  5. Oi Natasha, seu comentário é muito bom, relembra que para o ser humano as possibilidades são infinitas, basta não descansar nos posicionamentos do eu. A dinâmica do processo relacional se caracteriza pela constante motivação. Não ancorando em posições, se mantem o movimento indispensável ao ser. Bjs. Vera

    ReplyDelete
  6. Olá Vera,
    Eu li A Questão do Ser do Si Mesmo e do Eu. Quando o li, ainda tinha um pensamento de buscar respostas como que completes. O livro não definiu respostas, nem podia, por que como você explica, a relação não é estruturada, sujeito e objeto o são. Abriu mais, ampliou meu entendimento. Achei o livro muito interessante por que desde criança, em alguns momentos de abstração e observação, ficava pensando como era possível eu ser eu e não alguém outro, com os outros eram outros, como acontecia o existir uns e outros, como a pessoa se torna ela mesma. Claro que ao conversar sobre isso me achavam meio doido ‘por que as coisas eram como eram e pronto’. A conceituação da memória e do pensamento como extensões da percepção simplifica e clareia todas essas questões. Mas essa compreensão veio aos poucos, o simples não é o fácil. Em termos cognitivos, pesquisas mostram que quanto mais alto é o QI de uma pessoa, menos ela pensa, o que sugere a validade da hipótese da simplicidade (de atitude) como forma de apreender diretamente a complexidade. Por exemplo, a compreensão/explicação direta de relações complexas e aparentemente muito complicadas pode ser conseguido pelo estudo e entendimento das leis da percepção, como você mostra em seus livros (bem diferente de explicações reducionistas, meros chutes, ou explicações que complicam mais as coisas do que esclarecem).

    ReplyDelete
  7. Oi Augusto, você era uma criança questionante e consequentemente criativa. Isto deve ter sido interessante para toda a sua trajetória. Eram afirmações negadas que possibilitavam perguntas (dúvidas) ou antíteses a certezas como engano?...rsrsrs. Abraço. Vera

    ReplyDelete
  8. Oi, Vera,

    fiquei pensando na mono-tonia, na invariabilidade do tom – uma nota só, repetitiva e constante, de mesma duração e intensidade. Assim sinto o ser humano escravizado pelo que o aliena. Repetitivo, vivendo para manter seu espaço passado e garantir seu espaço futuro, preso ao mesmo tom. E uma nota só não faz sinfonia – relação.

    A possibilidade só existe na disponibilidade; a disponibilidade só existe agora. A necessidade exige ser satisfeita; na busca para satisfazer, perde-se de vista tudo o que não é objeto da satisfação. Perde-se o agora, a disponibilidade, a possibilidade. Sem possibilidades, somos repetição – mono-tom.

    Pensei também na rotina. Quando falamos da rotina como algo ruim, estamos falamos desse exílio do novo. A "rotina ruim" não tem espaço para o novo; está estruturada em vivências voltadas para a manutenção (de pessoas em nossas vidas, da imagem que os outros têm de nós, de posições sociais e profissionais, do "amor" de alguém etc). Dessa forma não vivemos, sobrevivemos; não há música, há ruído. Abraço.

    ReplyDelete
  9. Augusto, eu tinha uma "viagem" parecida com a sua quando era criança. Na verdade, o que me ocorria era certa angústia porque eu só podia ver o mundo sendo eu, pela minha perspectiva. Nunca poderia ver pelos olhos de alguém – objetiva e subjetivamente. Me angustiava me dar conta de que era impossível saber se o verde que eu via era o mesmo verde que o outro via,se a comida que eu comia tinha o mesmo gosto na boca do outro. Assim como, não podendo ser o outro, nunca saber como ele sente o mundo. Ficava doida pensando nisso.

    ReplyDelete
  10. *como ele sente o mundo assim em termos de sentimento, não só de cor ou gosto.

    ReplyDelete
  11. Oi Clarissa, boa analogia que você fez com a música. Relação sempre existe; no autorreferenciamento a relação é consigo mesmo, o que vai implicar em divisões. A "sua viagem" era diferente da de Augusto, o fixo na "sua viagem" era o seu referencial, mesmo fazendo variações a base era esta. Abraço. Vera

    ReplyDelete
  12. Clarissa, como você, alguns filósofos fizeram esse questionamento, se o verde que percebo é o mesmo que o outro percebe, mas é uma questão sem sentido, por que temos estruturas neurofisiológicas semelhantes e percebemos coisas semelhantes. Como a Vera disse, minha viagem era diferente , mas algum ponto também tive esse questão que você falou, como que não aceitando só perceber a partir da minha própria perspectiva – acho que era não aceitação manifesta em se sentir limitado – auto-referência, percepção muito parcializada. Tem um pensamento maia que a Vera cita, acho que é no livro Terra e Ouro São Iguais, que diz “eu sou um outro você”, que é interessante por que é o espelho de “você é um outro eu”, mas integra a perspectiva do outro e não a do eu.

    ReplyDelete
  13. Vejamos o que eu confundi dessa vez, rs.

    Quando falei da sinfonia como relação, pensei no relacionamento humano gerador de uma Gestalt nova AB, que seria a sinfonia. Nesse sentido, o “relacionamento humano só existe enquanto total vivência participadora, integrativa, transcendência, portanto. Quando isso não se dá (...), não há relação, existindo apenas constituições aderentes, de apoio, coisificadas, alienantes.” [Psicoterapia Gestaltista – Conceituações, p. 56]

    O que você me diz é que, no contexto em que falei da ausência de relação (“E uma nota só não faz sinfonia – relação”), a relação na verdade existe e é estabelecida com o próprio indivíduo que se coloca como figura, autorreferenciado?

    Sobre minha viagem, realmente... querendo EU saber como o outro vê ou sente, estou tirando ele da jogada e me colocando sempre como referência.

    Obrigada, Vera. Bjs.

    ReplyDelete
  14. Pois é, considerando as estruturas neurofisiológicas, meu questionamento se esvai. O que sobra é o que você colocou, Augusto...

    "...como que não aceitando só perceber a partir da minha própria perspectiva – acho que era não aceitação manifesta em se sentir limitado – auto-referência, percepção muito parcializada."

    Isso que você escreveu traduz direitinho minha angústia! Foi como Vera disse, o fixo na minha viagem era meu referencial.

    Abraços.

    ReplyDelete
  15. Clarissa, você confunde toda vez que desconsidera contextos e utiliza os conceitos da gestalt como uma regra desvinculada de suas estruturas. A citação que você faz pag. 56 do Psicoterapia Conceituações, por exemplo, é no contexto da vivência integrativa, transcendência portanto. O próprio indivíduo não se coloca como figura, ele se percebe como figura; à depender dos contextos estruturantes desta percepção, isto pode ser autorreferenciamento. No Terra e Ouro são Iguais eu escrevo: "a essência humana é uma unidade que se polariza enquanto sujeito e objeto". Para globalizar o conceito de autorreferenciamento, considerar os conceitos de aceitação e não aceitação é fundamental - como Augusto citou acima. Abraço. Vera

    ReplyDelete
  16. Olhe, só não desisto porque tenho a eternidade para entender...rs. E não vou deixar para depois porque seria muita burrice. Vamos em frente. Vou ficar mais quieta e observar mais a conversa de vocês. Obrigada, Vera. Bjs.

    ReplyDelete
  17. OI Vera, Augusto, Clarissa o que pude concluir é que querer manter é tão estagnante quanto querer poder, de fato é uma meta. A sensação muitas vezes é de querer manter seja um "caminho" menos exaustivo, sofrido, ledo engano, nele a gente não se espoem, neste bloco estaria "O silêncio da maioria", fazendo uma referência ao seu texto anterior Vera, estou certa?

    ReplyDelete
  18. Clarissa, que conversa interessante. Acho bom não desistir de entender. A visão dualista está realmente muito impregnada na nossa cultura, em nós. Um dia há tempos atrás a Vera me escreveu por e-mail algo como “uma hora dessas você vai ter um insight e compreender” por que eu confundia os conceitos. E realmente levou um tempo para que esse insight se desse (e acho que ainda vem outros pela frente), estou me referindo a entender a percepção como unidade (ser-no-mundo-com-os outros). Eu não fiquei quieto, até questionei bastante (rsrsrs) por que essas duvidas fazem parte. Me auxiliaram os esquemas gráficos e conceituações nos livros da Vera com conceitos proximidade e semelhança de campo para categorização, os que mostram que percebemos as relações e não elementos isolados, figura e fundo com respeito a reversibilidade perceptiva, etc. para começar a ver tudo como uma coisa só. Eu já tinha lido algumas vezes sobre Gestalt mas não tinha realmente entendido. Essa compreensão de como a percepção funciona é um grande barato pois daí se podem fazer muitas inferências.

    ReplyDelete
  19. Oi Rosélia, qualquer meta gera ansiedade, exila do presente e deixa o indivíduo defasado, isolado, mesmo quando se sente participante. A meta quando realizada, esvazia e isto é imobilizante. A questão da manutenção é sempre um artifício, uma estratégia, quando se precisa preencher vazio. Isso cria despersonalizações, imagens aceitáveis dentro de certos padrões que podem estruturar compromissos e conivências como descritas no "Silêncio da Maioria". Você está certa sim ao se lembrar do "Silêncio da Maioria". Abraço. Vera

    ReplyDelete
  20. Augusto, seu depoimento é altamente esclarecedor, questionante e pode provocar mudanças; mas todo relacionamento gera posicionamentos responsáveis por novos relacionamentos... tudo vai depender das estruturas em jogo, por isso o gestaltismo não é um emergentismo, um holismo. Não sabia que minha teoria tinha lhe dado tanto trabalho... rsrsrs. Abraço. Vera

    ReplyDelete
  21. Augusto, desistir está fora de cogitação! Vou continuar lendo, sim, e questionando quando o questionamento for pertinente. Bom ler sobre o insight que te levou a entender a percepção como unidade. Bom saber que ele chegou, rs. Obrigada! abraço.

    ReplyDelete
  22. Vera,
    Com certeza, nada é garantido, somente a morte e os impostos como dizem os holandeses (rsrsrs). Não é que sua teoria me deu trabalho, acho que eu é que tinha uma percepção muito parcializada e passei trabalho para integrar essa percepção (globalizar como você diz). Foi meu processo na terapia, enfrentando com um olhar honesto os impasses, as inseguranças, os medos, a vaidade, ciúme, orgulho, inveja ... Os conceitos vieram se “integrando” e comecei a compreender. Bem, que a Gestalt não é holismo (como Fritz Pearls pareceu dizer que é) foi uma coisa que não entendi de imediato. O que me deu esse estalo foi estudar a lei da reversibilidade de figura e fundo, quando compreendi que na real a gente sempre percebe um todo (a figura), a interpretação do percebido como sendo uma parte já se dando em um segundo momento quando se relaciona o percebido com a memória e/ou o pensamento, criando/atribuindo um significado para isso. Daí ficou claro que não é holismo (que diz que o todo é maior que a soma das partes). Em emergentismo nunca tinha pensado (rsrsrs), mas parece que seria um entendimento que emerge do estudo de vários conceitos (blocos) básicos, que se encaixam, seria isso? Não entendi que foi isso que aconteceu. Faço um paralelo entre o estudo das leis da percepção e o estudo das propriedades fundamentais das operações matemáticas. Embora estas sejam bem simples, se aplicam a todos os níveis de cálculos e possibilitam sua compreensão, mesmo dos mais complexos. Daí isso não é um quebra cabeças que as partes vão se encaixando e emerge a figura final aos poucos, mas sim um nível de entendimento essencial ou fundamental que permite insights.

    ReplyDelete
  23. Augusto, muito interessante seu processo de mudança. O fundamental foi você aceitar que não se aceitava, isto mudou os posicionamentos, provavelmente criando novos. Qual a fundamentação teórica de sua terapia? Quando se fala em holismo, se fala em totalidade como algo diferente das partes (não é o mesmo que dizer que o todo não é a soma das partes), daí a ideia de emergentismo. O todo emerge, a "boa forma" surge, a gestalt se fecha como dizem os holistas, gestalt-terapy inclusive. Percepção é tudo para explicar o comportamento, mas sem visualizar as estruturas em jogo, se cai em metafisica. Abraços, Vera

    ReplyDelete
  24. Vera, na terapia, quando há um comprometimento genuíno tanto do terapeuta quanto do cliente, pode haver mudança, começando por gerar aceitação do que não se aceita e de que não se aceita, acho que idealmente independente da linha teórica. Como você diz, o cliente pode perceber que não tem problema, que ele é o problema (rsrsrs). Realmente aceitar que não me aceitava mudou tudo, mas a clareza plena disso veio com a leitura dos seus livros. A fundamentação teórica da minha terapia, é Psicologia da Gestalt. Porém percebi que em parte os conceitos ainda eram usados de forma dualista, um tanto na linha de Fritz Pearls, embora também houvesse uma conceituação mais unitária como de Kurt Koffka, Wolfgang Köhler, Kurt Lewin.
    Entendi o emergentismo. As explicações para o comportamento podem facilmente cair na metafisica, ideias teleológicas, ou hipóteses formuladas, coisas que a rigor não são conhecidas, só imaginadas. Daí meu interesse nas leis da percepção, essas podem ser conhecidas no sentido epistemológico da palavra.

    ReplyDelete
  25. Augusto, mudanças sempre existem, aceitação também. São contextos génericos de relacionamento humano. Aceitar que não se aceita é apenas um transitório, entendo que a leitura dos meus livros possibilitou muitos discernimentos, insights. Para você isso já pode ser um desenho completo. Você fala em "leis da percepção essas podem ser conhecidas no sentido epistemológico da palavra" não entendi o que é isso?

    ReplyDelete
  26. Vera, quanto a desenho completo não sei, o movimento continua. Como você disse mudanças sempre existem. Daí esses novos posicionamentos também são questionados e mudam em outros, acho que ficar parado é o tédio. Tem seu prazo de validade, por assim dizer.
    Bem, da forma que eu compreendo o conhecimento no sentido epistemológico é o conhecimento direto da realidade (muita gente acha isso impossível talvez por que as possibilidade de engano/distorção são grandes), 'empírico', não teorizado, não imaginado (o que não implica na inexistência de uma teoria fara sistematizar esse conhecimento). A linguistica é também uma ciência do meu interesse por estar na interface entre humanas e exatas, pode também ter os fatos/fenômenos observados e conhecidos diretamente.

    ReplyDelete
  27. Oi Augusto, quando falei "talvez para você isso seja um desenho completo" me referia aos insights, discernimentos advindos da leitura dos meus livros. As leituras de meus livros são insuficientes para gerar mudanças e reestruturações como as que acontecem nos que fazem psicoterapia gestaltista (psicoterapia gestaltista não gestalt therapy); essas mudanças que ocorrem no processo psicoterápico, advém de antíteses e questionamentos ('questionamento' é conceito específico da Psicoterapia Gestaltista). Nas leituras você apreendeu a dinâmica dos meus conceitos (posicionamento, questionamento, aceitação etc), mas o processo psicoterápico individual vai além.

    Reestruturações e aceitações também surgem quando se ama e é amado, realização de transcendências também levam a mudanças muito significativas, mas mesmo neste caso é necessário que haja uma transformação das estruturas, é necessário disponibilidade, que sempre é uma resultante final de processos ou um início muito raro.

    Quando você diz que 'conhecimento é direto' você cria um dualismo, fica suposto o indireto. É o que Freud pensou quando postulou o inconsciente ou Hume quando enfatizou a experiência ou Bergson quando falou da consciência como temporalidade, por exemplo. No livro "A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade" falo sobre realidade, conhecimento etc.

    ReplyDelete
  28. Vera e Augusto,
    tenho acompanhado os posts de vocês e gostado muito. Não li muito do trabalho de Vera, só artigos e um pouco dos livros, mas acho que é bem verdade o ela disse no último post sobre a necessidade de mais do que leitura para que mudanças/reestruturações aconteçam.
    O que é construído dentro da terapia não está escrito em lugar nenhum e chegar lá sozinho é impossível, pelo menos pra mim. Um outro que consiga globalizar e que esteja livre de autorreferenciamento e meta é fundamental pra que essa reestruturação aconteça.
    Vera, eu não entendi isso da disponibilidade ser uma resultante final de processos ou um início muito raro, como assim? rs...
    Bjs.

    ReplyDelete
  29. Sobre a pergunta de Natasha, seria, por acaso, uma condição rara em que a pessoa conseguisse estar disponível “naturalmente” sem vivenciar as antíteses e os questionamentos da forma como acontecem no processo psicoterapêutico? Ela os vivenciaria de outra forma, em outro nível?

    ReplyDelete
  30. Oi Vera,
    Ok quanto ao desenho completo. Fiz leituras de seus livros e terapia, além de encarar as antíteses questionamento da vida que exigiram mudanças 'questionamento' é conceito específico da Psicoterapia Gestaltista, mas ocorre na vida e podem causar transformação- se a pessoa não os nega, mas os aceita. Tenho certeza que processo psicoterápico individual vai muito além de leituras, estas podem agir como catalisador da síntese, pra usar uma analogia com química.
    O amor com certeza gera mudança, é o sentimento mais maravilhoso que se pode ter e pra mim me deixa em um estado de aceitação aberto a compreender. Transcendência leva a pessoa a compreender a realidade de forma bem diferente de antes, muito mais ampla e liberta. Disponibilidade para mim é uma atitude simples, despojada, que permite considerar coisas inteiramente novas, inclusive no amor.
    Por ‘conhecimento direto' não quis criar dualismo, nem supus o indireto, mas entendo que pode implicar nisso para quem lê. O inconsciente freudiano não é experimentado, percebido, somente o é como pensamento, tal como os conceitos metafísicos e religiosos, míticos, construtos mentais. Hume não li, nem Bergson. Li A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade, um dos seu melhores livros. Entendi que a percepção não tem significado, este é atribuído ao percebido (conhecido) em função da memória e pensamento. Esse significado pode ser confirmado ou negado. Enquanto se tem como verdadeiro é a realidade da pessoa.
    Abraço.

    ReplyDelete
  31. Oi Natasha, o que é construido na terapia está escrito nos livros sim, só que não basta lê-los; a leitura de qualquer assunto vai ser feita no contexto, estrutura de cada leitor. As necessidades, angustias, medos etc do leitor tornam pregnante o assunto A ou o assunto B, determinando reduções, confusões etc etc. Por isso que o terapeuta disponível e globalizador é fundamental para as antíteses e questionamentos e isto você tem razão sim, o livro não substitui. É verdade o que você falou sobre acontecer na terapia um processo individual de questionamento e diálogo e isso é o que propicia mudança.

    Disponibilidade é a resultante final que se consegue quando o processo de aceitação é realizado, quando se aceita e vivencia o presente. Disponibilidade como início é muito raro por implicar em começar a vida sendo aceito e se aceitando enquanto individualidade, diferente "do grande filho ou filha inteligente", por exemplo.

    ReplyDelete
  32. Oi Clarissa, que bom que você reapareceu! leia a resposta que dei para Natasha sobre disponibilidade e não esqueça que "disponível naturalmente" implica em "disponível artificialmente", isto é dualismo.
    Abraço

    ReplyDelete
  33. Oi, Vera, eu não desapareci, não. estou sempre aqui lendo e acompanhando. Vou reler. Bjo.

    ReplyDelete
  34. Pois é, Vera, fico pensando na minha leitura de seus livros – ela está tão limitada ao meu dualismo, a minha estrutura, ao meu contexto... Eu vou ler tudo, mas sei que só lendo não vou andar muito. Pensar não ajuda muito quando o pensamento é limitado. A teoria é estéril quando a prática não acompanha. Olha aí eu de novo com meu dualismo (teoria e prática). Quero dizer que, sem globalizar, tudo o que leio é nada. Às vezes sinto assim com relação ao que "entendo". Bjs.

    ReplyDelete
  35. Oi Augusto, vou sublinhar pontos que estão lhe atrapalhando e isso pode lhe ajudar: aceitar não é o contrário de negar. A analogia química do catalizador, não procede; questionamento psicoterápico é um processo único; não é um processo que acontece na vida de qualquer forma e a terapia apenas o acelera. Enfrentar as questões da vida não é a mesma coisa que passar por questionamentos terapêuticos. Não confundir sobreviver com existir (vide Terra e Ouro são Iguais). Estar disponível é continuamente vivenciar o presente, não tem nada com despojamento, senão teríamos que dizer que só vivemos o presente quando jogamos fora o passado e o futuro. O que sempre falo nos livros é que não vivemos o presente por estarmos comprometidos com o passado ou com o futuro, medos e metas por exemplo, isso não se despoja, isto muda quando a pessoa começa a se perceber de uma outra maneira, processo este que exige uma psicoterapia, no caso, como só a psicoterapia gestaltista tem esta visão da temporalidade e da aceitação, não dá para substitui-la com outros conceitos terapeuticos.

    Para finalizar, recorro ao que escrevi em meu site: (http://www.verafelicidade.com.br/page1a.html)

    "Nos anos 60, surge F. Perls como criador da gestalt therapy. Ele falava que o todo não é a soma das partes (conceito da gestalt psychology) mas, preso à idéia, à crença na existência do inconsciente não conseguia admitir o conhecimento como um dado relacional, perceptivo, continuava achando que o conhecimento era o resultado de um processo interno, subjetivo. Ele não entendia o comportamento como processo perceptivo, entendia comportamento como expressão das motivações inconscientes. Este dualismo conceptual o impediu de perceber o ser-no-mundo, esta gestalt; pensando ainda como Freud, em ser versus mundo, exilou-se de qualquer contexto gestáltico, onde a unidade é um conceito fundamental. Lutando por "perca sua mente, ganhe seus sentidos" escreveu seu manifesto dualista."

    Abraços

    ReplyDelete
  36. Grato vera. Não curto Fritz Pearls, achei bem chato. Entendo a questão de sobreviver e existir. Quando falei em despojamento quis dizer largar as aderências, ficar com o essencial. Acho que nada disso que você falou tem a ver com minha compreensão quando a essa parte. Quanto aos outros comentários ok.

    ReplyDelete
  37. Oi Clarissa, leia por ler, sem metas, sem finalidades. Minha teoria é diferente de tudo que você conhece, é uma nova visão acerca do comportamento humano. Partindo disto você vai perceber uma porção de coisas. Perceber a dualidade é um grande passo. Kurt Lewin, gestaltista alemão, dizia que não há nada mais prático do que a teoria. Abraço.

    ReplyDelete
  38. Augusto, "despojamento como largar as aderências e ficar com o essencial" decorre de avaliação; impossível se atingir disponibilidade com este processo iniciado por avaliação. Isto gera soluções pragmáticas, aparentemente sensatas, mas fruto de composições, de arranjos.

    Não existe Gestalt Therapy, nem nada a ela correlacionado, que não seja fundamentada em Fritz Perls, como não existe nenhuma psicoterapia que admita o inconsciente que não esteja fundamentada em Freud. As miscelânias existem, os ecletismos as vezes até muito valorizados, mas têm metodologia hibrida, consequentemente são frágeis.
    Abraço

    ReplyDelete
  39. Sem metas... Isso está em todas as páginas que li até agora, e eu na meta de entender o que leio, rs. Obrigada, Vera! Bjs.

    ReplyDelete
  40. É... antes de querer entender precisa ver porque não entende; é uma maneira de trocar o futuro pelo presente. Bem teórico, bem prático... rsrsrs.
    Abraço

    ReplyDelete
  41. Estimada Vera, eu achei que tinha entendido que que são aderências, mas pelo visto não. A gente faz o que pode e aceita os limites da existência. Como disse a você há alguns anos atrás, gostaria de fazer terapia com você. Mas, moro em Porto Alegre e você na Bahia, terapia via Internet não dá, e não encontrei nenhum terapeuta aqui da sua escola. Se tiver algum para me indicar estou aceitando. Beijo.

    ReplyDelete
  42. OK Augusto, entendi seu problema. Abraço, Vera

    ReplyDelete
  43. "Ninguém vai discutir se temos o direito de ter os nossos próprios olhos, as nossas próprias mãos; eles são intrínsecos, legitimamente nossos, mas pode se discutir sobre o como fazer com nossas aderências: deixar o carro em um local de estacionamento proibido, usar qualquer tipo de roupa, etc. Dentro da massificação e distorção perceptiva, as aderências se transformam em constituintes intrínsecos do ser humano; exemplo: eu sou o que eu represento - meu carro. meu status, minha profissão, minha conta bancária me definem e situam, autorizando-me a ser-com-os-outros. Esta distorção provoca a alienação, esvaziando o presente, substituindo o outro como constituinte de mim, ao figurá-lo através dos padrões, das regras, do sistema." (Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Vera Felicidade de Almeida Campos, Alhambra, Rio de Janeiro, 1983, livro esgotado).

    ReplyDelete
  44. Oi Augusto,

    Pois é, veja como você está confundindo!

    No meu texto acima citado por você, explico aderências.

    A questão que vimos discutindo nos últimos comentários se refere a você dizer que entende disponibilidade como despojamento, e eu discordo disso. "Aderência" surgiu em função da sua definição de despojamento. Meu texto que você citou agora não entra em nenhuma contradição com tudo o que vimos discutindo sobre disponibilidade. Não sei o que você queria demonstrar com a citação, a definição de aderência nela explicada está perfeita.

    Você escreveu:

    "Disponibilidade para mim é uma atitude simples, despojada, que permite considerar coisas inteiramente novas, inclusive no amor."

    Eu discordo disso, além de disponibilidade não ser "simples", eu lhe respondi que:

    "Estar disponível é continuamente vivenciar o presente, não tem nada com despojamento, senão teríamos que dizer que só vivenciamos o presente quando jogamos fora o passado e o futuro."

    Você respondeu a isso dizendo que entendia "despojamento como largar as aderências e ficar com o essencial".

    Continuei lhe dizendo que mesmo 'despojamento' definido assim não leva a disponibilidade, pois é um processo que decorre de avaliação.

    Respondi:

    "Augusto, "despojamento como largar as aderências e ficar com o essencial" decorre de avaliação; impossível se atingir disponibilidade com este processo iniciado por avaliação. Isto gera soluções pragmáticas, aparentemente sensatas, mas fruto de composições, de arranjos."

    Veja como faz falta o referencial teórico, como as coisas se misturam, o senso-comum distorce através de palavras sem considerar os conceitos e os contextos.

    Como já lhe disse:

    "Para mim, metodologia e epistemologia são fundamentais, daí o rigor de exatidão, a recusa as sinonímias "achistas", misturadas e consequentemente contingentes. Estou dedicada ao desenvolvimento conceitual da psicoterapia gestaltista, em desenvolvimento à Gestalt Psychology (Psicologia da Gestalt) que não tinha um arcabouço psicoterápico e para mim se fazia necessário uma antítese ao conceito do que havia em psicoterapia: o inconsciente. 

    Não criei escola e não estou preocupada com a divulgação da Psicoterapia Gestaltista. O fundamental para mim, é o desenvolvimento conceitual. Como não criei escola, não dei formação psicoterápica. Meus livros foram lidos e as menções à Gestalt Psychology (Koffka, Koehler, Wertheimer) e à Fenomenologia de Husserl começaram a ser citadas e incorporadas pelo pessoal Gestalt Therapy como se todos estivéssemos bebendo da mesma fonte, e cada um fazendo a variação temática, pessoal, sem nenhuma preocupação epistemológica, com critérios apenas pragmáticos. Sempre e quando aparecem pretensos seguidores  confusos, querendo profissionalização, legitimação, "somar", acrescentar, eu explico, eu mostro o que é jôio e o que é trigo. 

    O blog, agora, é para aplicação dos conceitos desenvolvidos nos livros, em outros contextos. "

    E ainda:

    "O quantitativo é apenas resultado de contagem, decorre de avaliação; ser único não é limitativo, só existir eu fazendo Psicoterapia Gestaltista é uma grande mudança qualitativa."

    Abraço

    ReplyDelete