Thursday, September 22

Limites e transformações

Aceitar o limite é transformador. Quando a percepção muda, o que antes limitava passa a ser percebido como um contexto, como realidade na qual o limite está estruturado, ele já não é um obstáculo.

Esta evidência gera mudança podendo criar, entre outras coisas, liberdade, responsabilidade e autonomia. Exemplifiquemos com algumas situações: uma do herói, outra do cidadão comum, outra do sobrevivente oprimido.

Sísifo, apesar de mortal, desafiava os deuses gregos (era, ele próprio, filho de deuses e tido como muito inteligente e rebelde). Em uma das versões do mito, Sísifo é castigado por tentar salvar Prometeu, o titã condenado por Zeus por ter roubado o fogo para entregá-lo aos humanos. O castigo de Sísifo consistia em diariamente carregar uma enorme pedra até o cume da montanha, pedra essa que era empurrada de volta à base, obrigando-o a novamente carregá-la montanha acima dia após dia. Depois de muito esforço e desespero, Sísifo percebeu que seu castigo não era apenas levar a pedra ao cume da montanha, mas sim levá-la e vê-la rolar montanha abaixo, tendo consequentemente que carregá-la novamente em um repetir incessante.  Ao perceber isto, libertou-se, apreendeu a totalidade da situação e não mais esperou se livrar do castigo. Perceber o processo o deixou sem expectativas, o fez suplantar o castigo.

O mito de Sísifo deu margem a muitas páginas de literatura e filosofia. A analogia com o trabalho cotidiano e repetitivo, com os problemas a serem enfrentados do dia a dia, se impõe. A aparente falta de sentido da vida, ou o "absurdo da vida" como diria Camus, são aí expressos e resolvidos.

São inúmeras as situações onde se vivencia o limite: a morte, as doenças, as condições diversas de vida etc. Doenças, vivenciadas como limite, geralmente desencadeiam medo de morrer, raiva e impotência. A aceitação deste limite leva à busca de tratamentos, à mudança de atitude, transformando medo e raiva em cuidado e disciplina, em responsabilidade.

Frequentemente as pessoas se queixam de falta de tempo, de falta de dinheiro e de amores permanentes. Queixas e lamentos pelo trabalho subdimensionado, vocações não realizadas, sensibilidades poéticas sufocadas pelas rotinas do trabalho, tudo isso expressa a não aceitação do limite. Só se verifica falta ou excesso quando se avalia; só se avalia quando surge verificação sobre a realização de metas e desejos.

Perceber o limite depende da estrutura de aceitação ou não aceitação. Quando a pessoa não se aceita, ela desloca seus desejos, sonhos e fantasias para objetivos, para metas a realizar e consequentemente ela se divide, vivenciando parcialmente o presente. Nesta vivência parcializada do presente, quase tudo limita, quase tudo é obstáculo. Quando este processo é percebido, surge a mudança. Essa mudança perceptiva ocorre, via de regra, na psicoterapia através de  questionamentos e antíteses. Quanto maior a divisão, maior a vivência de situações limitadoras, até ao ponto em que a própria pessoa é um limite: síndrome de pânico, depressão, hipocondria. Estes deslocamentos  são vivenciados como naturais, orgânicos, como caindo sobre o indivíduo e nada se pode fazer, exceto suportá-los com ajuda de remédios, rezas ou amuletos.

Perceber o que está ocorrendo com o limite gerado pelo processo da não aceitação, criadora de metas esvaziadoras, faz desaparecer o robô programado para dar certo e não falhar, traz de volta a individualidade, humaniza.

A não aceitação do limite pode gerar onipotência responsável pela violência. Na sociedade, o "precisar e roubar" exemplifica este aspecto, tanto quanto deixa claro que quando se transforma o problema em justificativa, mais limitado se torna e outros deslocamentos surgem: agressividade, oportunismos etc.

Também as situações de opressão percebidas como "sem saída" (donas-de-casa sustentadas por maridos opressores, homens e mulheres que se percebem incapazes de ação autônoma) se transformam quando são questionadas a submissão e tolerância em função das próprias metas e desejos. Estes questionamentos mostram que manter a conveniência é a chave perdida da saída. Encontram-se caminhos, mudanças surgem.

Alguém que só pode viver sob efeito de drogas, ao perceber que a droga é a morte, não mais consegue usá-la para viver; se continua a usá-la é para morrer.

Aceitar o limite é decidir; única forma possível de eliminar os conflitos causados pela necessidade de escolher resultante de acumulação de limites não aceitos.

Aceitar o que limita implica em poder transformar o obstáculo, implica em mudar.




- "O Diário de Frida Kahlo - Um Auto-retrato" -  Frida Kahlo
- "Berlin Alexanderplatz" - Alfred Doblin
- "Os Miseráveis" - Victo Hugo

verafelicidade@gmail.com

15 comments:

  1. Este me tocou especialmente... Obrigada, Vera. Abraço.

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  2. Muito bom seu texto Vera. Li o livro O Mito de Sísifo de Albert Camus há mais de 30 anos atrás. Pelo que me lembro ele escreve sobe o que você disse, de que não há sentido na vida, e propões a noção de absurdo para a existência, em decorrência disso. Filosofia do existencialismo. Gostei muito na época e acho que vale reler. Seu texto liga com o anterior sobre a Monotonia, das tarefas repetitivas (Sísifo)- não as realizar cria obstáculos, se esgotar nelas destrói o dia-a-dia. Pelo que depreendi, aceitá-las como um limite da vida nos liberta delas ou como obstáculo ou como anulação. Realmente a grande maioria prioriza a conveniência, ou vive em função de se acontecer tal coisa serei feliz. Parece que a busca da felicidade pode ser uma das maiores fontes de infelicidade.

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  3. Oi Augusto, como você diz, "a busca da felicidade pode ser uma das maiores fontes de infelicidade", e eu relembro, qualquer meta gera isto. Eu não disse que não há sentido na vida, neste artigo minha frase é "A aparente falta de sentido da vida, ou o "absurdo da vida" como diria Camus, são aí expressos e resolvidos." Quando se tem metas, expectativas isso gera vazio responsável, a depender do contexto, pela vivência de falta de sentido da vida, frequentemente resumido como vivência depressiva. Abraço

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  4. Vera,

    Adorei Limite e Transformação.

    Achei graça por ter feito aquele comentário sobre você reconhecer os seus limites em relação ao blog, sem saber que o tema do artigo era este.

    Você fala da doença vivenciada como limite. Me lembrei, de Thomas Mann e A Montanha Mágica. Longe de ser meu livro favorito, Hanz Castorp e seus companheiros me fizeram refletir pela primeira vez sobre o tema.

    Recentemente assisti um documentário sobre Tiziano Terzani, jornalista italiano que foi correspondente na Ásia por 40 anos. No fim dos anos 90 ele foi diagnosticado com câncer no estômago. Depois de tentar todo tipo de tratamento, tanto na América como na Àsia ele disse que teve um insight ao reconhecer que o que ele buscava não era uma cura para o câncer, e sim uma cura para a morte. Claro, para a morte não há cura. Aceitar isso foi libertador e proporcionou grande serenidade. Ao aceitar a morte, ele aceitou a vida. E viveu plenamente, até morrer em 2004 ao lado da esposa e do filho numa casa na montanha, em Orsigna.

    A não aceitação dos limites sempre acarretará em atitudes sobreviventes. Enquanto aceitando limites, transcendemos.

    Beijos e bom fim-de-semana.
    Milena

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  5. Oi Milena, boa lembrança da Montanha Mágica, muito interessante. Beijos

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  6. Olá Vera, eu já li alguns de seus livros e gosto muito, agora descobri o blog e estou encantada com os temas e desenvolvimento dos artigos. Gostei especialmente do "Limites e transformações". Eu sempre pensei em limite como aquilo que dá forma, delineia, individualiza, enfim, o que existe, existe por ser limitado, senão seria o infinito, indiferenciado. Entendi o que você escreveu sobre "integração do limite" desta forma, o limite faz parte, define e individualiza. Estou certa?

    Lendo seu texto vi que pensar nos meus problemas como limites, e entender limite como obstáculo é não aceitação. Lembro do que você escreveu em algum lugar, algo como perceber que "não se TEM um problema, se É o problema" e a abertura que pode ocorrer quando se percebe isso, acho iluminador isso que você diz e complemento com este artigo (Limites e transformações), uma revelação!

    Abraço,

    Ana T. Blooman

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  7. Obrigada Ana, limite como forma é quase sinônimo de matéria, neste sentido tudo é matéria, tudo é limite; neste nível a integração do limite é a própria aceitação do que nos dá forma: corpo, matéria. A dinâmica relacional possibilitadora de novas configurações vai depender das categorizações específicas do processo da percepção do limite e isto é que vai determinar o autorreferenciamento ou não. Foi interessante a correlação que você fez com "não se tem um problema, se é o problema" que sempre acentuo. Abraço

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  8. Olá Vera, sempre muito esclaceredoras suas afirmações, você foi no ponto da minha questão (que eu receava não ter expresso bem) que era exatamente fazer a ligação entre uma abordagem mais abstrata, por que não dizer ontológica, que sempre me interessei e a abordagem psicológica... fico lutando contra o dualismo e uma das maiores contribuições que vejo em sua obra é como você o resolve a todo momento - 'resolve' para nós leitores... rs... por que para você ele não existe: "o ser como possibilidade de relacionamento" e seu inovador e original conceito de percepção atestam bem isso. Eu poderia dizer que o conceito de percepção em sua obra é a base de sua ontologia? Ou seria seu conceito de relação?

    Esta sua afirmação é genial: "A dinâmica relacional possibilitadora de novas configurações vai depender das categorizações específicas do processo de percepção..."

    Obrigada, Ana Blooman

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  9. Ana, o conhecimento do ser - ontologia - passou por tantos crivos: aristotélicos, tomistas, cartesianos, sartreanos etc que ficou quase como sinônimo de natureza do ser. A minha visão gestaltista acerca do ser humano é a de que ele é uma estrutura biológica, neurológica que tem necessidades e possibilidades de relacionamentos. Perceber é relacionar-se, tanto quanto relacionar-se é perceber. O conceito de relação, ao ser desvinculado do de percepção, é quase sinônimo da estrutura ser-no-mundo. Abraço

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  10. Vera, a mencionada aparente falta de sentido me lembrou um trecho do livro de Clarice Lispector intitulado A Paixão Segundo GH: "Eu estava vendo o que só teria sentido mais tarde - quero dizer, só mais tarde teria uma profunda falta de sentido. Só depois é que eu ia entender: o que parece falta de sentido é o sentido. Todo momento de 'falta de sentido' é exatamente a assustadora certeza de que ali há o sentido, e que somente eu não alcanço, como não quero porque não tenho garantias. A falta de sentido só iria me assaltar mais tarde. Tomar consciência da falta de sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido? fora a minha participação."

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  11. Augusto, quando se lê um texto, se lê o texto (vivência do presente), depois surgem outras recontextualizações (vivências de passado). O como se utiliza isto vai depender de objetivos outros além do texto. O que eu acabei de descrever vale para o texto e também para toda vivência psicológica. Constato que você continua detido no que falei sobre 'sentido da vida' que você leu mal: a idéia que você me atribuiu no seu comentário anterior não foi a que escrevi. Se você queria apenas dizer que concorda com Clarice Lispector, isso não ficou claro.

    Repito meu comentário anterior: "Eu não disse que não há sentido na vida, neste artigo minha frase é "A aparente falta de sentido da vida, ou o "absurdo da vida" como diria Camus, são aí expressos e resolvidos." Quando se tem metas, expectativas isso gera vazio responsável, a depender do contexto, pela vivência de falta de sentido da vida, frequentemente resumido como vivência depressiva."
    Abraço

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  12. Vera, quis come o texto de Clarice confirmar o que você tinha dito.

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