Thursday, January 12

Ideologia

É um sistema de crenças e explicações que orientam o viver cotidiano.

O século XX foi o século da "guerra fria"; ser de "direita" ou ser de "esquerda" era o polarizante principal dos movimentos políticos, sociais e até mesmo artísticos, culturais.

Em 1917, com o triunfo da revolução soviética, uma nova ordem é inaugurada. A visão religiosa, os conceitos de divino, deixam de ser a explicação dominante dos processos sociais e econômicos. Não é a vontade de deus que estabelece as diferenças socio-econômicas, não é por pecado que se é pobre, mas sim por ser explorado. Esta nova percepção liberta: de vítima ou castigado, o homem  passa a se perceber oprimido. Luta ou se acomoda, se organiza ou é organizado. Manter o sistema, explorar ou mudar é a nova ordem inscrita diante dele.

Guerra civil espanhola, libertação das colônias ainda existentes, declaração dos direitos humanos, divisões arbitrárias do mundo pós-guerra, tudo isto vai constituir um novo palco para o desenrolar das opressões e aspirações humanas. Quanto mais o homem se adapta e mantém, mais de direita; quanto mais se revolta e transgride, mais de esquerda. Estas divisões são acentuadas, fanatizadas e assim reduzidas a direções que não definem o processo. Atrás e controlando a direita está o grupo dominante com a retrógrada manutenção da palavra divina (escrituras sagradas) conservadora nos costumes e geradora de preconceitos que atingem até a anatomia humana, de diretrizes sobre opções sexuais à "boa" pigmentação da pele. As fileiras da esquerda também escondem seus ditadores interessados em realizar o que eles acreditam ser o poder total; são deuses: Mao Tsé-Tung, Stalin e outros tantos.

Hoje, no século XXI, já percebemos que falar de social, de governo, de economia é falar de poder. O discurso democrático contemporâneo talvez seja um dos maiores geradores de distorções, de feudos, guetos e mini ditaduras. É a pulverização, é o dividir para governar, o impressionar para cooptar. Luta e discussão em torno do que é certo e errado, para si ou para os outros, é sempre espoliadora. É a pedra fundamental colocada para o estabelecimento de mercados, para as diretrizes educacionais responsáveis pela ordenação e manutenção das ideias que sustentam os donos do poder.

Por que ser poderoso? Para que estar ao lado do que representa o poder? Este é o questionamento necessário para evitar a desumanização, a alienação e o posicionamento.

















- "Era dos Extremos - O Breve Século XX: 1914 - 1991", Eric Hobsbawm
- "No Mesmo Barco, Ensaio Sobre a Hiperpolítica", Peter Sloterdijk


verafelicidade@gmail.com

10 comments:

  1. Oi, Vera.
    Por que o poder em geral é tão atraente? Há uma crença comum de que o poder embriaga ("sobe à cabeça"), atropela ideologias, mas por quê? Não aceitação de limites, impotência/onipotência? Necessidade de ser aceito (respeitado, temido, admirado) a qualquer custo?
    Realmente, não dá pra acreditar em democracia, igualdade social ou em relacionamentos autênticos quando o que impera é a sede de poder, as metas, o autorreferenciamento.
    Esse é mesmo um questionamento fundamental.

    Bjs.

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  2. Oi Iona,o poder é desejado como cobertura, blindagem e compensação da não aceitação. É o toque de Midas!
    Bjs, Vera

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  3. Por conta de uma demanda pessoal, li esse artigo, o comentário da Ioná e sua resposta, Vera, e fiquei pensando sobre o ciúme nas relações familiares, amorosas, de amizade etc.

    Me ocorreu que, movidos pela insegurança que nos acomete quando não nos aceitamos, buscamos conquistar pequenos poderes nos microambientes do nosso cotidiano, nas relações que estabelecemos e tentamos manter ao longo da vida. O medo de perder gera a necessidade de significar para o outro, de dominar de alguma forma – seja dando conforto, "amor", suprindo uma necessidade dele que ele próprio (supostamente) não pode suprir. Assim vamos achando os caminhos que nos levam a conquistar esses pequenos poderes sobre as pessoas, os ambientes, as experiências que temos. Nesse caminho, atropelamos a liberdade do outro, invadimos espaços, agimos com preconteito – tudo isso travestido de maneira que nos acreditemos democráticos e justos.

    Aí a ilusão de que não vamos perder está criada. Então precisamos manter esses poderes que achamos ter conquistado. E começa a corrida atrás do próprio rabo... sem fim e cheia de angústias. Nessa trajetória, ficam claros os posicionamentos, os movimentos para compensar a não aceitação etc, como vc colocou no comentário.

    Como pode, né? O simples fato de não se aceitar faz a gente agir de forma a tentar suprir os buracos que acha que tem, os defeitos que vão fazer com o o outro não nos aceite. Nós espelhamos no outro nossa não aceitação... no outro, no mundo, em tudo. Daí achamos que engolir tudo é a solução e cometemos grandes e pequenos crimes para atingir essa meta.

    Obrigada, Vera. Li e fiquei pensando alto (escrevendo).

    Beijos.

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  4. Mais uma vez obrigada pelo artigo, Vera, encontrei nele um desenvolvimento de idéias legítimas (no sentido de legitimidade de quem fala com conhecimento e autonomia e não discussões ideológicas comprometidas e incoerentes...) para uma questão angustiante que nos persegue desde os anos 90: como digerir o fracasso do mundo comunista e os escândalos ditatoriais e criminosos de seus personagens mais influentes? Para mim não é só uma questão de abrir mão de um sonho de igualdade que não deu certo na prática, mas de entender como aquele mundo de igualdade abrigava monstros como Pol Pot, Stalin, Mao, Kim Jong-li etc. Não dá para pensar que são apenas casos isolados, aberrações: por tras de cada um destes nomes tem centenas de auxiliares mafiosos e aí temos "que engolir em seco"... Já o espetáculo democrático, como você bem descreve, é uma sucessão de hipocrisias e igual mafia, não vale a pena perder tempo falando disto... Fica aquele friozinho na espinha, o medo do retrocesso, da perda das difíceis conquistas liberais, perda de espaço para as vanguardas artísticas, enfim, já estamos assistindo isso na Europa de hoje.

    Sua colocação sobre a busca do poder como denominador comum e como tema central a ser questionado é ótima. Você nos dá um rumo.

    Abraço

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  5. Clarissa, obrigada pelas reflexões sobre a não aceitação e seus deslocamentos.

    Beijos

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  6. É Ana, às vezes se pensa que não aceitação não é nada, é normal (frequente) e contornável. Das configurações diversas da não aceitação surgem desenhos monstruosos como os lembrados por você. O pessoal de "direita" ainda é pior porque tudo neles é lícito e divinamente controlado por lideranças construídas nas legítimas aspirações das pacatas famílias, não é? Suas reflexões ampliaram significativamente o que escrevi.

    Abraço

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  7. Com certeza Vera e é assustador o conservadorismo das "pacatas famílias", normalmente amedrontadas com qualquer sinal de diversidade (nos valores, na estética e obviamente nas finanças) e empenhadas na manutenção de seus status quo; para isso, claro, precisam estar "ao lado do poder" como você bem explica. Um desavisado pode achar o questionamento "por que ser poderoso?" muito simples, mas se for honesto terá que ir ao fundo do poço e questionar não só suas intenções sociais, mas também e principalmente suas atitudes e valores.

    Sempre fui muito ingênua achando que processos educacionais e certas filosofias de vida gerariam sociedades mais justas e homens melhores (ideologias de esquerda, ideologias espiritualistas como no Tibet - para mim sociedades opostas mas com resultados semelhantes), mas, ledo engano... valoração e mais valoração... rsrsrs... Obrigada pelo questionamento. O que mais aprecio na sua teoria é exatamente o conceito de não aceitação e suas implicações.

    Abraço

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  8. Ana, muito interessante você salientar que o apego aos valores institucionalizados é a bóia de sobrevivência necessária para manutenção das aprências e imagens socialmente consagradas. Obrigada

    Abraços

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  9. Vera, seu artigo nos oferece um panorama geral histórico das relações humanas. Toca no aspecto político, hoje subjugado ao econômico e no do indivíduo em termos de sua desumanização e humanização. Dois dos livros que estão no seu blog li e achei interessantíssimos nesses aspecto, o ‘Preço de Nada’ e ‘Primeiro como tragédia, depois como farsa’. Pondo em minhas palavras o que você disse no comentário para Iona, penso que ser poderoso seja resultado do desejo e a ilusão de segurança, como se o poder e o dinheiro pudesse comprar tudo, inclusive as pessoas, como se alguma coisa pudesse ser a garantia de permanência, como se isso trouxesse o nirvana. Claro que em algum momento a depressão, o câncer, a velhice, a doença degenerativa manda a conta para o sujeito, que possivelmente em sua alienação não a decifrará, nem quererá. Se este esteve no poder econômico e político poderá já ter feito um estrago grande, por assim dizer – por isso o mundo está essa desarmonia. A tentação de categorizar as relações em certo ou errado é grande quando se depara com os lacaios do poder (para usar a velha expressão de esquerda), os que querem levar vantagem sem qualquer escrúpulo. No trabalho enfrento com frequência esse questionamento quando a outra parte nas negociações assume a posição de que os fins justificam os meios. Contudo essa dualidade não existe. Penso que a saída desse brete não seja meramente uma oposição ao status quo e cair em uma outra ideologia contrária a do ‘homus economicus’, que poderia escravizar o ser humano de outras maneiras. Mas o entendimento da possibilidade de reinventar tudo: nosso sistema social, politico e econômico, produtivo, com relações humanas no lugar dessa mercantilização da vida e de todo ‘o capital’ natural e humano que observa-se hoje. “Por que ser poderoso? Para que estar ao lado do que representa o poder? O questionamento que você propõe é chave que abre possibilidades de libertação.

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  10. Augusto, seus comentários delineiam a crise dos que vivem em função das aprências e escondidos pelas instituições, enfim, aqueles que por não aceitação precisam do "poder de fogo", do poder do dinheiro e da negociação. Obrigada pela participação.

    Abraço

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