Thursday, January 5

Simples e complexo

Perceber o simples decorre da neutralização de acréscimos e atalhos geradores de distorções, de dificuldades. Perceber a simplicidade é quase impossível; é muito difícil pois o contexto, as diversas variáveis, as inúmeras circunstâncias camuflam e obscurecem. Não é uma questão de significado, é uma questão de aposições e justaposições.

O Princípio de Ockham* diz que tudo sempre tende para o mais simples, cientistas afirmam que a natureza é parcimoniosa; essas são diretrizes apropriadas quando constatamos processos contínuos. Tudo que é aderente é agregado. Estes agregados são também suportes, as vezes ocultadores, do que está acontecendo. Ao se deter no que ocorre, sem objetivos nem explicações, consegue-se perceber o que está acontecendo. Ao querer incluir o que está acontecendo em alguma função ou propósito, atribui-se valores, novos agregados, situações extras. Tudo fica muito complexo. Precisa-se de mais informação, verificação e garantias para saber se o que se percebe é o que se percebe. Complexidades passam a existir e fica difícil desenrolar o fio da meada; assim nada é simples e os efeitos têm que ser explicados pelas suas causas. Cortes abruptos, separações, arrebentam e reduzem as situações a sua simplicidade. É a Navalha de Ockham, mal usada. Mutilações, fragmentações, chega-se ao simples decepando.

O simples é o inteiro que só é percebido quando se trilha suas decorrências, quando se percebe que o complexo não é o diferente dele: é outro simples a ele agregado.

No dia a dia da clínica psicológica vemos que tudo é re-estruturado quando se percebe o que é problema, o que é desejo, o que é solução, quais os valores que estão atrapalhando a percepção da boa forma (Gute Gestalt).

Infelizmente a complexidade ainda é percebida como antagônica à simplicidade. Conseguimos utilizar a Navalha de Ockham quando nos detemos no presente, quando vivenciamos os problemas enquanto problemas, sem os desvios criados pela busca da solução dos mesmos.


* "A Navalha de Ockham" ou "O Princípio de Ockham" são expressões que resumem a idéia básica do filósofo medieval e frade inglês William of Ockham, século XIV  (Guilherme de Occam) que criticava a metafísica medieval; ele pretendia uma separação entre filosofia e metafísica onde ficava clara a abordagem "direta e econômica" da filosofia e a abordagem "dos excessos" da metafísica, sobretudo no campo do conhecimento. "Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" - "não se multiplica os entes se não for necessário", essa é a máxima que fundamenta sua separação entre filosofia (e ciência) X metafísica (e teologia). Esse princípio lógico é também associado a Lei da Parcimônia (Lex Parsimoniae) que recomenda a explicação mais simples ou a teoria que implique em menor número de premissas. Obviamente essa não é uma regra a ser seguida cegamente, mas sim um alerta aos excessos, à dispersão no supérfluo.


 "A Filosofia na Idade Média", Etienne Gilson

Cubo mágico ou Rubik's Cube



verafelicidade@gmail.com

11 comments:

  1. Olá Vera. Maravilhosa leitura para iniciar minhas leituras de 2012 :-)

    Como você constuma afirmar: "o todo não é a soma das partes" e neste artigo isto fica não um lema a ser gravado, mas sim compreensão: "O simples é o inteiro que só é percebido quando se trilha suas decorrências, quando se percebe que o complexo não é o diferente dele: é outro simples a ele agregado" ou como você escreve em "Terra e Ouro são Iguais", citando os indianos: "... Do todo, o todo retirado, o todo sozinho permanece". É fantástico como você transita de afirmações abstratas como estas para o "dia a dia da clínica psicológica"! É uma mágica o que acontece em nós a partir do contato com seu pensamento! Obrigada.

    Abraço

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  2. Vera, bom dia.
    Incrível como esse texto me levou a várias questões. Sempre achei sua teoria muito simples e ao mesmo tempo muito complexa, mas entendia isso de uma forma confusa. Você conhece o “princípio da mínima ação” em física? Ele decorre justamente da noção de “natureza parcimoniosa” que você coloca. Porém, a noção inicial era muito “simples”, pensava-se que, na natureza os corpos se movimentavam sempre procurando os caminhos mais curtos; séculos depois, perceberam que, na verdade, os corpos procuram o caminho mais rápido (com menor tempo), até que no sec. XVIII chegamos ao conceito de "ação", que, aparentemente é muito mais complexo, no entanto, globaliza tudo, pois dá conta da física clássica e moderna. Ou seja, como você diz, “Não é uma questão de significado, é uma questão de aposições e justaposições”. A natureza tende ao simples, mas para descrevê-la precisamos perceber o simples como o inteiro, sem fragmentações, não é isso?
    O mesmo vale para como encaramos nossos problemas. Pela não aceitação, ora complicamos tudo com conexões forçadas, distorcidas, ora fragmentamos o problema, encaixando-o e rotulando-o, numa pseudo simplificação, assim nunca globalizamos. Se queremos mudar, não tem outro jeito a não ser encarar os problemas tal como eles se mostram, ou seja, "sem os desvios criados pela busca da solução dos mesmos".
    Adorei!
    Bjs

    Ioná.

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  3. É Ana, tudo está integrado e em relação. Seus comentários são expressão disto. Obrigada.

    Abraço

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  4. Oi Ioná, obrigada pelos seus comentários, ilustram muito do tema que desenvolvi. As coisas não "tendem ao simples", as coisas são simples.

    Beijos

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  5. Simples e Complexo
    Vera, seus textos pra mim foram difíceis de entender inicialmente dada a simplicidade, diziam bem mais com menos palavras. O simples também pra mim não é o fácil. Talvez por que a gente cresce em uma cultura que exige metas, padrões, que avalia. A neurociência verificou que quanto mais alto o QI de um indivíduo, menos ele pensa – por que somente os circuitos neuronais necessários entram em ação, sem interferência e ruídos de fundo desnecessários, por assim dizer. O conceito da justaposição me lembrou imagens sobrepostas que tonam o contorno das formas cada vez mais difícil de discernir.
    A economia diz que os recursos são escassos, mas o sistema econômico funciona sobre a premissa de crescimento constante para se manter. Em geral não se vê, nem questiona, essa contradição. Abraço.

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  6. Augusto, só se pode entender quando se globaliza, quando tal não ocorre, surge uma porção de conclusões fragmentadas, estruturadas em outros contextos. Seu comentário exemplifica isto.

    Abraço

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  7. Vera, eu adorei este texto. É realmente fantástico como o complexo pode realmente se mostrar bem simples quando as aderências são retiradas.

    Entendo isso que você diz do complexo não ser antagônico ao simples e toda vez que acontece comigo essa mudança de ponto de vista, toda vez que eu consigo sair da confusão das ideias com todas as suas variantes impostas pelos preconceitos e metas e passo para um pensamento linear e limpo, percebo que ainda se trata da mesma coisa, só que a simplicidade aflora e sempre mostra aquilo que é a raiz de tudo: a minha não aceitação. Falando assim, parece genérico, problemas decorrem de não aceitação, mas cada vez que nessa simplicidade eu me encontro com a a minha não aceitação, mais dela me dou conta e de imediato algo muda, como num movimento só. Ver o simples, sem aderências, sempre transforma de algum modo.
    Não sei se está muito claro o que escrevi... rsrs...
    Beijos.

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  8. Oi Natasha, tem todo o sentido o que você fala: "É realmente fantástico como o complexo pode realmente se mostrar bem simples quando as aderências são retiradas."

    As coisas só são nebulosas, confusas quando se tem a priori ou meta a atingir.

    Beijos

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  9. Obrigada pela resposta, Vera. Eu adorei o vídeo também. Já tinha visto algumas pessoas dando dicas de como resolver o cubo, mas sempre me pareceu difícil demais. Fiquei espantada com a simplicidade. Adorei! Beijos.

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  10. Oi Natasha, a resolução do cubo com dois movimentos, neste video, só é possível porque ele já tem parte do cubo na posição correta (peças azuis e verdes). O Cubo de Kubik pode ter milhões de posições de embaralhamento que não são solucionadas com estes dois movimentos. O vídeo é um exemplo da Navalha de Ockham mal usada, malandragem da navalha... rsrsrs. O importante é entender que todo complexo vira simples quando se encontra o fio da meada. Coloquei este vídeo para dar margem a entender as distorções, às vezes faço isto com livros quando coloco fotos de livros de Jung, Freud, Nietzsche etc.

    Beijos

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  11. Hããã... Entendi. Quanto aos livros, já tinha notado, mas o cubo me pegou! rsrs...
    Beijos.

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