Thursday, January 19

Vale o que se tem - Vitória de Pirro

É muito comum ouvir explicações acerca da marginalidade, do uso de drogas, da violência como sendo causadas pela pobreza, pelas condições econômicas e educacionais sub-humanas ou precárias. As implicações desta explicação, desta visão é que "ter" é o estruturante, o constituinte do humano. É verdade sim, se apenas considerarmos o homem como um organismo.

Melhorar condições econômicas virou lema. As pessoas querem ter; as que têm querem mostrar que têm. Tudo gira em torno do que se conseguiu: riqueza amealhada ou melhoria das condições de sobrevivência. As próprias reivindicações são contingentes, problemas geradores de novos problemas.

Valorizar o ter sem questionar a coisificação, a alienação que isto implica, leva ao hiperconsumo, à sociedade do descartável. Somos escravos do que consumimos e produzimos, não faz diferença vender ou comprar, o horizonte temático é o mesmo: ter, mostrar, aparentar. A educação também foi transformada em bem de consumo: os certificados de doutorado e as certificações técnicas são fundamentais para construir carreiras bem sucedidas financeiramente; apresentação de currículo ficou mais importante que avaliação direta de qualidade profissional.

Vale-se pelo que se tem e exibe: moradia, carro, roupas, cultura e até o próprio corpo. O corpo escondido existe pelas grifes usadas e tatuagens exibidas.

Empenho, esforço e expectativa. Querendo e tendo se é feliz; não tendo se é invisível, nulidade, infeliz. Nesta visão são vitoriosos os que conseguem ter. Triste vitória. Vitória de Pirro.





"Vida a Crédito", Zygmunt Bauman
"A Felicidade Paradoxal - Ensaio Sobre a Sociedade de Hiperconsumo", Gilles Lipovetsky

verafelicidade@gmail.com

3 comments:

  1. É Vera, e que vitória trágica! O grande Pirro pelo menos tinha consciência de sua tragédia; já os "vitoriosos" de hoje em dia, portam suas coroas plásticas ignorando as próprias feridas e a destruição que geram em volta... não sei onde vamos chegar, a atitude que você descreve é genérica, da periferia ao centro, dos manipulados e desprovidos aos manipuladores e poderosos.

    Tem que ter muito questionamento! Seu trabalho é o de um ourives.

    Abraço

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  2. Ana, coroa de plástico é um achado literário e psicológico, ótimo. Ourives, castelos, referências da Idade Média... gostei, tudo isso se opõe a atual sociedade de espetáculo, permitindo antíteses. Obrigada.

    Abraço

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  3. De uma certa maneira, vai de encontro com a mensagem que quero passar, nos posts "Sê Chique.." onde normalmente me refiro à elegância, dizendo que "Sê Chique...não é ter, é ser. Eu não conhecia a expressão "Vitória de Pirro". Abraços Raquel .superlinda.com

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