Thursday, April 5

Molduras que ocultam

O conceito corrente de que se tem neurose, de que a mesma é uma parte, um aspecto da pessoa engendra regras, normas e pseudo soluções.

Sentindo-se com uma mancha - a problemática - que gera não aceitação, busca-se limpá-la, escondê-la atrás de uma marca, uma presença notável, afirmativa e de sucesso, poderosa e responsável.

Uma série de ferramentas, de instrumentos se tornam necessários para esta afirmação social. Uns utilizam como senha a beleza, outros a inteligência, outros o dinheiro, outros o poder, e outros a tradição familiar; existem ainda as molduras institucionais, perfeitos salvaguardas do que se quer apresentar ou esconder. A moldura institucional, do emprego ao casamento, passando pelas sociedades beneficentes e recreativas, são fundamentais para a criação de imagens, de marca aceitável, de logotipo vitorioso.

Ter dinheiro, ter poder é a varinha de condão, o instrumento mágico para abrir portas, para conseguir o que se deseja.

É comum usar armaduras, fantasias que confundem; equivale a não acreditar em deus e entrar para um convento, militar contra a alienação e viver alienado, enfim, é o esconder, o fingir; nesses casos, um arsenal de ferramentas e molduras sempre despistam e podem construir imagens favoráveis.

É muito frequente encontrar pessoas preconceituosas em público, que realizarm entre quatro paredes tudo que elas discriminam. Quando percebem que são neuróticas, que sua problemática não é um acessório, começam a mudar; ou, se sentindo desmascaradas, destróem o que está em volta, até mesmo elas próprias, pois, se percebendo divididas, acreditam que um ato final de destruição (suicídio por exemplo) as salvará da vergonha da desmoralização.

Ter poder, ter pessoas, ter sucesso; ter é a ferramenta o instrumento necessário para manutenção da desumanização, da ansiedade e da não aceitação. Quem tem uma mancha quer uma marca, mas, como não se tem neurose, se é a neurose, a busca desta marca apenas camufla, aumentando o problema.





"Mentiras fatais, os casos de Liebermann" - Frank Tallis
"O Leitor" - Bernhard Schlink

verafelicidade@gmail.com

3 comments:

  1. Interessante essa colocação, Vera! Aquilo que deveria acentuar algo, destacar e tornar mais visível (essa é a verdadeira função da moldura na arte), sendo usado para ocultar, para desviar a atenção - uma aberração, verdadeira farsa, engano. Todos se vendo a partir do que têm, essa homogeneização de hoje em dia, como "tijolos na parede" já diziam os visionários Pink Floyd. É fantástica essa sua frase: "quem tem uma mancha quer uma marca". E obviamente, as molduras são todas iguais.

    Abraço

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    1. Obrigada Ana, interessante sua lembranca do uso da moldura na arte; em certo sentido ao querer a marca se destaca a mancha.

      Abraco

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  2. Obrigada por sua resposta, Vera. Ontem esbocei um comentário sobre um caso que vi em uma galeria daqui de São Paulo, que seria um eloquente exemplo de seu artigo, mas desisti porque seria facilmente identificável... fiquei muito empolgada com sua frase sobre manchas e marcas rsrsrs.

    Abraço

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