Thursday, April 19

Mundo infantil - características relacionais

Não existe um mundo infantil, não existe um mundo adolescente ou um mundo adulto, enfim, não existem tipos nem categorias para os processos relacionais.

Influenciados pela psicologia do século XIX e pelos conceitos freudianos de desenvolvimento da sexualidade, desenvolvimento da libido (fase oral, anal, fálica e genital) extrapolou-se para pensar o que seria próprio e característico das idades, fases da vida, começando assim os padrões, as regras: mundo infantil, mundo feminino etc.

Todo conhecimento é processo perceptivo. Quando percebemos que percebemos, categorizamos, sabemos que sabemos.

Geralmente o chamado mundo infantil é descrito como cheio de brinquedos, cores e situações descomprometidas. Mas existem também crianças que trabalham, que dormem na rua, que não têm brinquedos. São crianças em um mundo não infantil, diriam.

Não existe mundo infantil ou mundo adulto, o que existe são contextos onde as categorizações são estabelecidas a partir da realidade que se vivencia. A criança bem alimentada, não precisa mendigar pela comida; para ela comida não é um referencial para categorização, por exemplo.

Uma criança filha de traficante, tem o referencial do dinheiro, do crime e da morte, como dia-a-dia, como contexto cotidiano; estas situações são percebidas dentro de seus referenciais, onde o ganhar ou perder se impõem. A aglutinação de categorizações, o referenciamento das percepções nos poucos contextos existentes, fazem com que se misturem, confundam as vivências. A criança, neste contexto, repete, exerce maldades. É a crueldade da ingenuidade, a bestialidade do inocente, resultado de achar que tudo pode e deve morrer, pois vê seu pai bandido matar e comemorar.

Crianças repetem o que veem, vivenciam o que lhes é permitido; crianças filhas de bordel agem como sedutoras, imitam o percebido, onde se submeter ao outro e fazer o que ele pede é o considerado bom, é o que lhe dá dinheiro, comida.

Poucos anos atrás, vimos na TV um bandido ensinando seu filho pequeno a assaltar: colocava o revolver na cabeça de uma boneca e gritava "passa o dinheiro!". O filho sorria e aprendia o que o pai-bandido lhe ensinava; em seu referencial era um comportamento novo que estava aprendendo, não era um crime ou maldade. Mais tarde as coisas ensinadas e praticadas pelos pais ou mais velhos são identificadas com seus nomes e estruturas constituintes. É o choque, é o drama, é o abuso sexual identificado, por exemplo.

Não há mundo infantil ou adulto ou feminino etc; há um mundo relacional onde são transmitidas vivências que humanizam ou que desumanizam.



- "Festa no covil" - Juan Pablo Villalobos

verafelicidade@gmail.com

4 comments:

  1. Vera, este texto tinha que ser enviado para todas as escolas, igrejas, comunidades de base, ONGs, Vara da Infância, cursos para pais etc :-) acho que não é muito seu jeito, mas não resisto a pensar isto; este é um excelente texto de utilidade pública. Todo mundo pensa que a criança repete, imita os adultos, é moldada pelo ambiente onde cresce, essas coisas, mas todos desculpam a criança por pensarem que existe um mundo infantil, ingênuo e instintivo; é comum ouvirmos "a criança não tem consciência do que faz" para explicar maldades e inconsequências como se a criança fosse um robozinho, uma maquinazinha desprovida de iniciativa ou um animalzinho determinado por instintos. Nesta visão, esse "mundo infantil" tanto desculpa quanto protege a criança. Lendo seu texto entendi que a criança tem poucos referenciais para avaliar o que vivencia e a extensão das consequências de seus atos, mas é tão capaz quanto qualquer outro de apreender relações em seu contexto de vida. Neste sentido está no mesmo mundo dos adolescentes e dos adultos. Nas "melhores famílias" encontramos crianças espertas, maliciosas, estratégicas, competitivas, agressivas, distraidas etc. A criança não é um "outro diferente", é um "outro igual", acho que pensar assim é muito importante para a educação nas familias, escolas etc. Entendi certo?

    Abraço

    ReplyDelete
    Replies
    1. Oi Ana, nao eh bem assim, seu comentario eh correto mas voce partiu de uma premissa dualista onde a finalidade sob forma de bem e mal se impoe; o problema eh anterior, eh unitario, sao os dados relacionais que vao configurar nao importa se o bem ou o mal. Em resumo, criancas nao sao em essencia nem inocentes nem maliciosas, em essencia elas sao possibilidades de relacionamento.

      Abraco

      Delete
  2. OK Vera. Fui surpreendida pelo meu pensamento valorativo! Obrigada pela resposta.

    Abraço

    ReplyDelete
  3. O artigo é muito bom. As crianças não tem como se defender, nem conhecimento nem estrutura, e são o lado fraco que arrebenta da corda. No Reino Unido, uma sociedade ainda muito rígida e hipócrita, liderava (e talvez ainda lidere) as estatísticas de violencia contra crianças na Europa. Abraço Vera.

    ReplyDelete