Thursday, June 7

Cordas e amarras

Esforço é desumanizador para o homem. Máquinas são programadas, homens o são apenas quando mecanizados em função de ritmos a serem mantidos. O ser humano ao se relacionar com o outro, com o mundo e consigo mesmo, enfrenta situações, caindo e levantando consegue, falha; é um processo que ele  inicia e participa, não é um espetáculo, uma situação que ele avalia, considera, aposta ou torce.

Não aceitar limites leva a romper certos coeficientes reguladores. O coeficiente de elasticidade no mundo físico e os limites de tolerância no dia-a-dia relacional nos mostram isto. Para estas pessoas que não aceitam a realidade, que não se aceitam,  estimulos, incentivos permitem geralmente realização de desejos e metas. Tudo que impulsiona, que possibilita algo pode ser utilizado e adequado. Por outro lado, sem muletas, sem amuletos, não chegam onde querem. Possibilidades de relacionamento, processos, são transformados em necessidades; surgem funcionalidades valorizadas e na sequência dos relacionamentos suas estruturas precisam ser escoradas. Atinge-se estabilidade por meio de escoras, cordas e amarras. Comprometem-se. Instrumentalizam e transformam possibilidades em necessidades aplacadas e realizadas. Muitas uniões afetivas exibem este processo, por exemplo. A educação bem planejada para que os filhos vençam na vida são também um típico exemplo desta estagnação. Conseguir vencer, estar apto, são propósitos esvaziadores gerados por sonhos e desejos.

Estar comprometido é estar assegurado por um acerto, por uma obrigação sempre defasada em relação ao que se vive, sempre gerando angustia. Obrigar-se a algo estrutura angustia, medo e pânico; escorar-se, amarrar-se permite viver, permite transformar os problemas em justificativas, mas desumaniza, mecaniza e estereotipa o modus vivendi do ser humano. Mesmo pequenas alavancas ou cordas se transformam em impedimentos que podem nos deixar sem oxigênio.




- "Occupy", de David Harvey ...et al. (Carta Maior e Boitempo Editorial)
- "A arte de ter razão", de Arthur Schopenhauer
- "O elogio da loucura", de Erasmo de Rotterdam

verafelicidade@gmail.com 

2 comments:

  1. O contexto desse artigo muito bom me lembrou o filme político italiano A Classe Operária Vai ao Paraíso, dos anos 70.

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  2. Oi Augusto, boa lembrança.

    Abraço

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