Thursday, June 21

Sentimentos e emoções

Uma das implicações do conceito da Psicoterapia Gestaltista de que tudo é relação* - percepção é relação, o ser é possibilidade de relacionamento - é rever a noção elementarista, dualista, causalista, de afetividade humana. 

A fundamentação dualista, a idéia de interno e externo, de sujeito e objeto como posições preexistentes, distorcem o conhecimento, o trabalho e o pensamento psicológicos, catalogando e esquematizando a vida psicológica em categorias como sensível versus insensível, bondoso versus maldoso, sentimental versus racional etc. Eles fazem também uma distinção entre "sentimento" e "emoção" onde o "sentimento" remete a "interioridade" e a "emoção" à "exterioridade", à expressão física (como lágrimas, aumento de batimentos cardíacos, calafrios etc).

Alguns psicólogos pensam que sentimento é algo subjetivo, interno; acham que sentimentos são característicos de pessoas sensíveis. E quando perguntamos qual o significado de "sensível", respondem: é o que não é racionalizado. Sensibilidade, paixão, emoção, bondade fazem parte da mesma genealogia, que se origina na dicotomia entre afetividade e razão. Para eles, pessoas sensíveis seriam aquelas que não racionalizam suas emoções, seus sentimentos.

Não existem sentimentos ou emoções; esta idéia advém da psicologia do sec. XVIII, que vê o ser humano como tendo uma parte afetiva, uma motora e uma intelectiva. Freud renova esta abordagem com os conceitos de instinto, consciente e inconsciente. As pessoas, em geral, falam da questão de maneira dualista: emoção e razão; emoção, sentimento, sensibilidade associados à bondade e razão associada a frieza, insensibilidade. É lugar comum ouvirmos: "o criminoso, o serial killer por exemplo, não tem sentimento".

Existem as situações que são chamadas de sentimento e emoção? Sim, o ser humano é uma totalidade e o que é visto de forma partida e separada como sentimento e emoção, são posicionamentos de dados relacionais. Tudo é percepção, tudo é relação. Dado relacional, percepção são sinônimos. A partir da percepção a pessoa se sente com medo, raiva, desconfiança ou alegria e prazer, por exemplo. Quando o indivíduo posiciona o dado relacional, isto é contextualizado na rede geral das próprias vivências; é a constatação na qual o presente, o percebido é a percepção da percepção que estabelece o conhecimento de, o sentir que, com diversos significados (bom, ruim, agradável, desagradável, feio, bonito etc). Estes posicionamentos são os ditos "sentimentos" causados pelas situações a, b ou c. Estas percepções dilaceradas, posicionamentos mantidos, estabelecem o que é normalmente chamado de "sentimento" e "emoção" pelas abordagens elementaristas.

Portanto, "sentimento" é o posicionamento do dado relacional, do perceptível. Entender "sentimento" como resultante do dado relacional perceptivo transforma toda a maneira de abordar o psicológico,  de abordar o comportamento humano. Dizer que o "sentimento de amar" - o amor - é o responsável pela dependência e carência afetiva, não tem sentido, a não ser o de expressar a idéia causalista de que amar é se entregar, se vulnerabilizar, fixar-se em alguém.

Relações amorosas são estruturadas em disponibilidade, aceitação, não resultam de acertos, contratos e complementação. Comportamento resulta de processos relacionais vivenciados por pessoas que se aceitam ou não. Quanto mais presentificada a vivência, mais espontaneidade, menos posicionamento, menos rigidez, mais vivacidade. Pensar nisto como "sentimento de entrega", "energia que flui", é fragmentador do humano ao criar esquemas a partir dos quais se classificam os ditos "sentimentos bons e ruins".


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* entenda-se 'relação' como defino na Psicoterapia Gestaltista: percepção é relação, o ser é possibilidade de relacionamento - não se trata do substantivo que nomeia relações afetivas, trata-se de conceito do processo perceptivo.


















- "Sacher-Masoch - o frio e o cruel", Gilles Deleuze
- "A Partilha do Sensível", Jacques Rancière

verafelicidade@gmail.com

10 comments:

  1. Acho que existem sim os sentimentos. Quanto aos do serial killer, por exemplo, acho que são frios, alguns dizem que é por que a área responsável aos sentimentos não é muito ativada, a causa disso eu não sei, é um tema muito complicado. Mas, quanto aos sentimentos, existem os bons e os ruins, na minha opinião. Você disse que os criminosos não tem sentimentos, mas a raiva, o ódio, a vingança que motivam alguns crimes não são sentimentos? Desculpe-me a minha ignorância no assunto, não sou um profissional da área, mas me interesso muito por assuntos ligados ao comportamento humano.
    Apesar de discordar de você nessa questão, gostei muito do seu blog, não me leve a mal, mas, como sou uma pessoa emotiva, me senti no direito de me expressar.

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    1. Obrigada pelo seu comentário muito oportuno e necessário para neutralizar distorções.

      Não existem sentimentos e emoções como dados isolados, correspondentes ao que se chamaria interno, subjetivo. Quando se percebe, a própria percepção é total, traz agrado, desagrado, raiva, medo, neutralidade etc. Isto são dados relacionais perceptivos. Falar de sentimento e emoções como coisas isoladas é pelo comprometimento teórico com o causalismo e elementarismo.

      A necessidade de definir conceitos é exatamente para tornar os fenômenos mais inteligíveis. Veja que neste artigo escrevi:

      "Existem as situações que são chamadas de sentimento e emoção? Sim, o ser humano é uma totalidade e o que é visto de forma partida e separada como sentimento e emoção, são posicionamentos de dados relacionais."

      Portanto, existe isto que chamam de "sentimento e emoções" mas não como instâncias opostas a "racionalidade, frieza" etc. O ser humano é uma totalidade.

      O senso comum é que pensa que criminosos não têm sentimentos, no texto critico isto.

      Ficou claro?

      Abraço

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  2. Vera,
    É incrível como, quando se parte da percepção, da relação, para entender o comportamento humano, todos esses conceitos dualistas e maniqueistas perdem o sentido: razão e emoção, mente e corpo, interno e externo, bem e mal, etc. Mas para entender isso é necessário mergulhar no conceito de percepção como relação e entender o ser humano como "um organismo com possibilidades de relacionamentos", como você definiu em um dos seus livros. Isso é genial e limpa todos os apriori, não?
    Bjs.

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    1. Obrigada Ioná, seu esclarecimento está perfeito: estas questões teóricas sempre devem estar presentes para que não se caia em maniqueismos e não podemos esquecer que o ser humano é um organismo com necessidades e possibilidades de relacionamentos.

      Beijos

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  3. Vera, que artigo instigante e esclarecedor. Como explicar uma coisa tão intrínseca à própria existência de forma analítica? Lembrei de uma citação que gosto e reflete sobre sentimento de amizade: "Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é." João Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas.

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    1. Obrigada Augusto.

      Tudo que é humano, consequentemente relacional, é passível de explicação quando globalizado ou de distorção se parcializado.

      Sua lembrança do Guimarães Rosa é perfeita!

      Abraço

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  4. Um pouco de Antonio Damásio iria bem.

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    1. O reducionismo neuro-biológico de Damásio não açambarca as questões levantadas.

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