Thursday, September 27

Novo

O novo não é o recente, contemporâneo, tampouco o inédito. Novo é o antagônico entre o que se vê e o que se espera ver. Neste sentido, novo é apenas o que pode surpreender. Arquitetos, estilistas, decoradores, publicitários, enfim, os que lidam com arte estão sempre trabalhando com o novo, mostrando como o démodé, o vintage é novidade total. Manter o novo é uma maneira de exilar o tédio, o previsível, o padronizado.

Seguir regras, etiquetas, sempre foi um fator de monotonia. Poetas rebeldes, a geração beat criaram o "épatér les bourgeois" como maneira de dinamizar, diversificar o dia-a-dia. Superar, quebrar o tédio também não significa bem-estar, tranquilidade. Um terremoto em uma zona não sísmica é uma tremenda novidade, desagregadora e destruidora. Organizar não é repetir, criar não é administrar situações para finalidades úteis, aceitáveis.

Este conceito de novo como surpreendente permite entender o clássico,  o estabelecido independente de circunstâncias (contingências), permitindo também contextuá-lo como novidade. Nossas vivências cotidianas sempre são tecidas como diálogos entre novo, clássico e démodé. É a nossa memória, sua atualização e transposição que realiza isto.

O familiar é um refúgio, existente pela estabilidade e constância que oferece. O estranho é um motivante, ativador pela novidade que oferece, pela não categorização apresentada.


- "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust

verafelicidade@gmail.com

6 comments:

  1. Vera,
    Novo é o que você faz, o que você escreve.
    Surpreendente a cada texto, a cada leitura.
    Bjs.

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  2. O novo pode ser o antigo que se descobriu no presente da vida.

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    1. Exatamente, Cleber, tudo vai depender dos contextos perceptivos relacionais, definidores do que é novo, do que é antigo.

      Abraço

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  3. Vera, os conceitos que você expõe esclarecem como se percebe o novo. Penso que o inédito também possa ser o novo. Segundo Jô Soares, o passado que incomoda é o recente, talvez por ser percebido como demodé, não o mais antigo, percebido como clássico, como filmes de época. O conhecido realmente pode dar uma sensação de conforto, segurança. Deve ser por isso que as rezas tem ladainhas, falas repetitivas, e a poesia popular tem o refrão que pontua e dá ritmo aos versos. Mas haja saco quando se para só nisso. Abraço.

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    1. Oi Augusto, como escrevi "o novo não é o recente, contemporâneo, tampouco o inédito. Novo é o antagônico entre o que se vê e o que se espera ver", relacione com contexto, é a única maneira de não cair em dualismos.

      Abraço

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