Thursday, January 30

O ser que é não ser

Nas sociedades, famílias e grupos onde as diferenças não são acatadas e aceitas, são criadas uma série de graduações e maneiras de lidar com o díspar; são ferramentas próprias para aplainar diferenças, aparar farpas; são bitolas mais amplas ou mais estreitas. Estas atitudes ficam refletidas na linguagem cotidiana, das ruas às academias, das salas de jantar ao noticiário de TV, onde ouvimos: “o índio ideal é o índio um pouco civilizado, consequentemente o índio que não é índio mesmo”; “o pobre educado, gentil é perfeito, é o pobre que não é pobre mesmo”. Tudo isto nos lembra o antigo dito escravocrata “negro de alma branca” e a idéia do bom selvagem (visão colonialista e etnocêntrica).

Graduações são sempre baseadas em referências de completo/incompleto, inteiro/dividido, implicitamente bom, ruim, verdadeiro, falso. A pureza alegada, a construção “índio mesmo”, por exemplo, é uma rotulação que impede contato. Assim, tem que ter mistura de vivências para que haja invasão, mudança.

Quando se é, se é inteiro, igual a si mesmo, não há avaliação, comparação, graduação. Não respeitar o indivíduo é sempre necessário quando se quer colonizar e destruir. O inteiro que não quebra, que não se fragmenta, é insuportável, não pode ser cooptado e utilizado.

Do ponto de vista psicológico, aspectos étnicos, sociais e econômicos não configuram individualidades, apenas são condições, contingências do estar no mundo, significando enquanto valores admitidos e engendrados pelos sistemas para catalogar e desumanizar; por isso a separação entre fechado em si mesmo (índio mesmo) ou aberto às manipulações, acordos e negociações. As demagogias e políticas criam grupos coesos, apresentam pontualizações de resistência que apenas servem para diluir as próprias conformidades restritivas em parcializações.

É preciso evitar que se chegue ao “ser humano mesmo”, o que vai supor a existência de androides e humanoides.















- “Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica” de Edmund Husserl
- “O Que é Loucura? Delírio e sanidade na vida cotidiana” de Darian Leader



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