Thursday, March 20

Comunidade Virtual - Reversibilidade


O homem continua o mesmo e quando age pela necessidade de ser aceito transforma as mudanças tecnológicas em mais uma plataforma, mais um palco de alegorias. Neste palco, neste contexto, a vivência de transitoriedade se impõe: os relacionamentos são imediatistas. Neste sentido, os relacionamentos, sejam no ambiente físico (offline) ou no virtual (online), são vinculados apenas ao instante de interação.

O que é identidade na comunidade virtual?

Identidade é um tema clássico em psicologia, filosofia, antropologia; as questões levantadas em relação à identidade virtual não são novas ou específicas do mundo virtual, apesar de que no ambiente virtual estas questões sejam urgentes, práticas, não partem de preocupações teóricas: homens criam perfis femininos e vice-versa; adolescentes se passam por profissionais maduros; portadores de doenças buscam informações médicas, acreditando que sejam de fonte fidedigna, por exemplo; além de questões de reputação de perfis “autênticos” (correspondentes tanto a individuos que se colocam no ambiente virtual com sua identidade legal, quanto a indivíduos famosos ou conhecidos publicamente em uma dada sociedade). Sinais para confiabilidade de identidade são poucos e insuficientes no mundo virtual mas eles existem (emails, fotos, estilo de expressão, cruzamento de dados, referência de terceiros etc). Neste ambiente, reputações virtuais são estabelecidas e questionadas.

Ainda hoje, muitas pessoas entram no ambiente virtual com a atitude básica de que seus interlocutores sejam quem pretendem ser e aqui temos um problema crescente e atual: a natureza controversa da identidade virtual, gerando enganos e posições que variam do simples abandono da interlocução à desestruturação psicológica do enganado, muitas vezes com consequências graves como foi o famoso caso Megan Meier nos EUA, adolescente de 13 anos que cometeu suicídio a partir de interação com um interlocutor, digamos, “falso”. As consequências psicológicas nefastas da interação com identidades enganosas na internet não se limitam a adolescentes (talvez as vítimas mais vulneráveis), mas atingem indivíduos de várias idades e formação. Este tema vem ocupando psicólogos em muitos países.

Encontramos inúmeras variedades de identidade enganosa nas redes sociais; algumas são muito disfarçadas e danosas para indivíduos e comunidades; outras se referem apenas ao dono do perfil sem prejudicar ninguém; outras ainda são claramente desafiadoras, criadas para provocar uma impressão ruim, como os Trolls, muito encontradiços em discussões políticas, mas não só aí. No caso de um criador de várias identidades virtuais, ou seja, um indivíduo com vários perfis virtuais, enfrentamos questões de gênero, comum quando sexo é o tema predominante da interlocução (um homem que cria um perfil de mulher ou vice versa - a interlocução pode envolver sedução com consequências psicológicas quando ocorre o desmascaramento, a constatação do engano); enfrentamos também, questões ideológicas (perfis criados para promoção ou difamação de pontos de vista políticos, pontos de vista religiosos, por exemplo); questões criminais (perfis criados para seduzir, atraindo para encontros que envolvem perversões sexuais, roubo, sequestro, chantagem etc além do dano psicológico, temos aqui, danos físicos, materiais) e também a questão do prazer mórbido da manipulação do outro, que pode ser o único objetivo do perfil ou apenas mais um elemento nos perfis citados acima.

Principalmente nas interações virtuais interpessoais e não públicas (emails, por exemplo), a identificação e confiança na identidade é fundamental na motivação para interação. Acontece que, como dissemos, um indivíduo pode ter tantos perfis virtuais quanto queira, e como afirma Judith Donath - conceituada estudiosa deste tema - “quando dizemos ‘o indivíduo pode ter…’, quem é o indivíduo? Naturalmente é o corpo diante do teclado”. Para um psicólogo é tão importante entender o que acontece com quem se descobre enganado na interlocução com alguém de identidade forjada, quanto entender o que acontece com o indivíduo físico que cria varias identidades virtuais: no mundo físico a norma é um corpo, uma identidade; no mundo virtual não existe esta correspondência.

O perfil virtual é tanto voluntário quanto involuntário. É notório que na internet existimos como dados de informação e não como corpos. Um perfil ou uma identidade virtual é composta pelo que deliberadamente decidimos expor: design (com ou sem fotos e web-câmeras) e descrições contidas em um site pessoal ou em um perfil de rede social, mas também por dados involuntários, rastros que deixamos no ambiente virtual, como: históricos de buscas em catálogos como Google, por exemplo, escritos, comentários em blogs e interações em redes sociais, padrões de viagens, padrões de consumo, processos judiciais disponibilizados pelos poderes públicos, arquivos médicos etc são, portanto, dados acumulados de exposição voluntária e rastros involutários buscados a partir do interesse da audiência; em outras palavras, a identidade virtual foge ao controle do perfilado, é também composta pelo interesse de terceiros. Como bem afirmam antropólogos e outros pesquisadores do ambiente virtual, isto não é radicalmente diferente do que sempre ocorreu no ambiente físico: qualquer retrato transmite mais do que uma imagem; quem olha um retrato vê, alí representado, status social através de vestimentas, ambiente em volta, infere época histórica e conotações de personalidade a partir de expressões faciais etc.

O ambiente virtual amplifica enormemente a interpretação dos perfis pela insinuação estruturante do campo perceptivo - Lei da Closura -, as fragmentações, os espaços vazios, insinuam complementações, sendo estas geradas por desejos, frustrações e necessidades. Existe, também, um elemento invasivo que desafia as questões de privacidade como a entendíamos no passado. Os rastros de nossas ações estão sempre à mão de quem quiser consultá-los, são enorme fonte de dados utilizados na composição de interlocuções pessoais, além de serem também, produtos comercializados entre redes (Google, Facebook, Twitter etc) e empresas interessadas em padrões de consumo e finalmente, dados sujeitos a monitoramento político.

Os estudos de identidade no ambiente virtual, os temas a ela relacionados, tendem a uma visão de especificidade que não se sustenta: nem o fato destas identidades serem formadas por dados e não por corpos, tampouco a facilidade em criar imagens ou perfis falsos, levam a uma radicalização de diferenciação na definição de identidade online e identidade offline; os dois ambientes não passam de esferas onde transitamos, agindo de maneira semelhante em um e outro, concordante com nossas estruturas psicológicas; em ambos estamos sujeitos a controle de terceiros, em ambos é possível construir imagens, em ambos exercemos comunicação, corremos riscos, interagimos descuidadamente ou não com nossos interlocutores. Por exemplo, na interação entre um perfil enganoso e um perfil legítimo, apesar da ação deliberadamente manipuladora do “enganoso”, existe a recepção do “honesto”; nas palavras de um famoso Troll americano em entrevista no New York Times: o interlocutor do enganoso é “cumplice” na interação enganosa porque “se deixa enganar, alimenta o engano, expõe carências, parte de uma atitude ingênua de crença”. É certo que o ambiente virtual facilita a atuação de enganadores e aproveitadores; mas esta é uma atuação maldosa semelhante à que sempre existiu no ambiente físico; o ambiente virtual a facilita pela falta de sinalizadores de confiabilidade, no entanto, ele é apenas mais um contexto onde se desenrolam relacionamentos estruturados em necessidades ou possibilidades relacionais, em não-aceitações ou aceitações.

















- “O Filtro invisível - O que a internet está escondendo de você” de Eli Pariser
- “Matrix, bem-vindo ao deserto do real” - coletânea de William Irwin


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