Thursday, March 13

Destituições

Certas sociedades tribais - a antiga sociedade iorubá por exemplo - conseguiam amenizar contradições entre governados e governos. O princípio da autoridade absolutista não se cristalizava, não criava déspotas eternos, pois mecanismos de pressão ajudavam a esvair o poder. Entre os iorubás, era tradição, costume e saída de emergência, o envio de ovos de papagaio para o rei quando este se transformava em déspota. Receber uma cabaça com ovos de papagaio era equivalente a ler a mensagem: “se mate”.

O sistema judiciário iorubá, antes da colonização, não era estritamente formal e o que poderíamos chamar de instâncias informais sempre possibilitaram, ao povo, a regulação dos casos criminais ou de abuso de poder: se constituiam em uma espécie de dispositivo, monitorando a sociedade na forma de sanções, tabus, costumes, moral etc. Era um sistema sem paralelo com nossos sistemas ocidentais. Nas sociedades onde o judiciário é uma instituição formal, as regulações ocorrem na forma de leis, direito de propriedade e constituição, com julgamentos formais em locais apropriados para isto. Entre os iorubás, tanto o pai de família quanto o chefe de aldeia, tinham autoridade para julgar e punir. A sociedade compunha-se basicamente do rei (Oba), dos chefes de aldeias, dos chefes de famílias extensas e dos chefes (o pai) de famílias individuais que eram as unidades básicas da sociedade, também consideradas unidades jurídicas fundamentais. Em outras palavras, o controle político e jurídico era exercido principalmente via família, unidade familiar.

Se o rei fosse considerado culpado de um crime ou se sua liderança se tornasse tirânica ou impopular, ele deveria ser julgado sem oportunidade de defesa: os chefes das aldeias se reuniam do lado de fora do palácio, dirigiam-se ao rei dizendo que ele não era mais desejado e lhe entregavam uma cabaça com ovos de papagaio, uma maneira eufêmica de dizer-lhe que deveria cometer suicídio - ovos de papagaio eram tabu (ewò) para os reis iorubás.

Esta possibilidade de diálogo com o poder absoluto permitia renovação, coerção e regulação de excessos. Com o passar do tempo as mensagens se desgastaram, balas de canhão e ingerências outras se tornaram responsáveis pela mudança de poder.

Obviamente sociedades complexas e populosas não podem se organizar como sociedades tribais, mas não deveriam prescindir do diálogo entre seus membros e governantes. Controle da rua, do quarteirão, do bairro, das cidades, tudo se soma conseguindo uma máscara democrática; mas o todo não é a soma das partes e o que se consegue, assim, é diluir os espaços do poder para mais tarde configurá-los em função de objetivos absolutistas. Instalada a meta e o objetivo de tudo conseguir, tudo controlar, perde-se o diálogo, não há reflexão, autocrítica e decisões modificadoras. Nesta indução de atitude e de poder, as partes transformadas em todo - grupos, escolas, sindicatos, agremiações partidárias, grandes corporações etc - são também manipuladoras e detentoras de poder, consequentemente as críticas que levariam à transformação são pulverizadas.

Não há quem receba os ovos de papagaio ou se todos precisassem recebê-los não haveria quem os entregasse.




 











- “Ethics” de Henry Odera Oruka
- "A Sociedade contra o Estado" de Pierre Clastres

verafelicidade@gmail.com

5 comments:

  1. O que você descreve na sociedade Iorubá tinha algo como a capilaridade que conecta a célula menor ao órgão e ao corpo todo. No corpo a capilaridade leva e traz os elementos essenciais à vida a cada célula, e a ramificação nervosa faz a integração do conhecimento de cada célula ao corpo inteiro. Não há algo análogo nas sociedades complexas e populosas, totalitaristas ou ditas democráticas, onde a prevalência do capital financeiro e tecnológico dá estrutura o poder. Pode ser que nossas sociedades estejam auto-referentes, autistas, como se o cérebro estivesse desconectado do corpo, comendo muito açúcar, gordura e promovendo alienação. Ou o corpo talvez tenha alguma outra doença. Penso que pode ser possível a saúde. Que a dialética evolutiva possa um dia restabelecer a saúde desse corpo, dessa sociedade complexa e populosa.

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    1. Augusto,
      Sociedade, problemas sociais não podem ser pensados valorativamente. O dever ou querer mudar pouco significam nesta estrutura. Abraço, Vera

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  2. Você descreve, mas pode me parecer que valora quando fala em destituição e desmascara, mostrando a impossibilidade de renovação. Eu valoro referenciado nos princípios e valores que assumo como éticos e humanos, que a mudança seja possível. É bom repensar essa questão, grato pelo comentário. Abraço

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    1. Augusto,

      Achei que eu tinha sido clara na minha resposta, mas vejo que é necessário ser mais explícita: Sociologia evolucionista, organicista, sociedade como organismo, analisada através da integração funcional das suas partes, esta analogia orgânica que considera a ordem social como fruto de integração entre atores sociais, expectativas e valores é um modelo do final do sec.XIX, início do sec.XX, já por demais criticado e superado pelos próprios sociólogos nos últimos 100 anos da disciplina. Organicismo como modelo de análise sociológica é valorativo. Sociedade não é uma “entidade natural” como o é um organismo.

      Quando falo de alguns aspectos das estuturas sociais (iorubá do sec.XIX e sociedades complexas atuais) como diálogo e falta de diálogo entre governados e governos, não estou sendo valorativa (exemplifiquei estruturas sociais diferentes uma da outra): mudanças sociais resultam das lutas interinas (infraestrutura) e não de “valores éticos e humanos” (superestrutura). Além do mais, mudança é apenas mudança, não tem sentido “evolucionista”, “de melhora”. O que você chama minha descrição, em nenhum momento nega a mudança. Destituição de governos só ocorre em decorrência de atuação de forças estruturadas na sociedade e não por vontades e valores.

      Abraço, Vera

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  3. Clareou. Abraço, Augusto

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