Thursday, November 20

Ampliar e restringir

Quando regras e limites são estabelecidos, temos ampliação e restrição. O desenvolvimento motor e psicológico do ser humano exemplifica este processo paradoxal.

Saindo do restrito espaço familiar, alcançando outros ambientes, outros contextos, a percepção de si, do outro, do próprio espaço é ampliada, tanto quanto se estrutura a percepção de impotência, de medos e inadequações. Este cruzamento de vivências, esta interseção, pontualiza e fragmenta, causando restrições rapidamente qualificadas como familiar, meu e estranho, seu, outro. Este filtro é o referencial que cada vez mais amplia domínios e interesses, tanto quanto padroniza, setoriza vivências.

Os contextos relacionais motivantes podem extrapolar, superar regras e limites. O outro já não é visto como semelhante ou diferente, mas sim, como presença, atualidade, independente de comparação. Estes encontros desencadeiam novos processos: é apredizagem, é transcendência onde realmente as vivências são ampliadoras, não são restritas aos próprios referenciais de desejos e necessidades.

Todo processo relacional é ampliador quando ultrapassa seus estruturantes e é limitador quando os situa, quando os posiciona. Adaptação requer estabelecimentos posicionantes, desde que, por definição, adaptação é dependência, é repetir, é aprender o “caminho das coisas”, é gravar e criar kits de sobrevivência e resolução. Estas salvações, à mão, facilitam, tanto quanto dificultam as mudanças, a criatividade. É importante saber que toda repetição obriga a encaixes e este aparar de arestas é sempre desvitalizador, seja dos porcessos motivacionais, seja do encontrado, do descoberto.

O consumo desenfreado, o tédio, a insatisfação resultam dessas transposições uma vez adequadas e depois repetidas até tornarem-se obsoletas. Inovar, percebendo o outro e a si mesmo, vai depender de disponibilidade, de não estar amarrado, posicionado em situações de poder, de frustração, de conforto, de ajuste, de satisfação ou insatisfação ou quaisquer outros posicionantes condutores de vivências de memória em substituição a vivências presentificadas.

















- “Minhas viagens com Heródoto” de Ryszard Kapuscinski
- “Sobre os espelhos” de Umberto Eco

verafelicidade@gmail.com

2 comments:

  1. Parabéns. Muito bom. Matéria muito interessante.

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    1. Obrigada pelo comentário, Cassiano.
      Abs.
      Vera

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