Thursday, November 27

Submissão

Submissão é desumanização, processo paulatinamente criado ao longo de vivências familiares e sociais. Não sendo questionada, a submissão cria máquinas pensantes, máquinas que agem, que preparam a vida insatisfatória e violenta, é a alienação consentida.

Cuidadas e mantidas por outros, em função dos objetivos destes, as pessoas são endereçadas, são transformadas em vale-realização, vale-promessa dos desejos e interesses de seus mantenedores. De uma maneira geral, as famílias, pais e mães, cuidam e mantêm seus filhos, em função de objetivos próprios, desde os mais amorosos, como “assistir ao seu sucesso e felicidade”, até os mais utilitários, como “alguém que acompanhe e nos assista na velhice”.

A submissão a regras, desejos, vontades e interesses do outro, sejam indivíduos, sistemas ou empresas é impeditiva, pois metrifica, avalia, decide e corta, sempre a partir de critérios que não os da pessoa que está à mercê, à margem dos processos.

O que apoia, oprime, consequentemente, estar submetido é estar dividido. Não se sentir aceito, não ter direitos, salvo quando determinados deveres são cumpridos, cria um processo de submissão despersonalizador. O indivíduo percebe que vale pelo que faz, pelo que não faz, adquirindo também um instrumental que permite avaliação, regulação e decisão. Aprende a ter lucro ao exercer as ações corretas, desejadas pelo sistema que o submete, que o apoia, que o incentiva.

Em situações-limite, submissão às regras e autoridades, sempre gera crueldade: deixar morrer um filho para salvar outro; ter mais um dia de vida em Treblinka; o cotidiano despistar de traições, para não atrapalhar a festa de formatura do filho; a omissão que se transforma em cumplicidade ao fazer de conta que não presenciou violências, indevidos e ilícitos; a submissão cria seres-autômatos que apenas seguem e obedecem o que lhes é imposto.

Virar a mesa, buscar a chave e abrir a porta, são pequenos atos, geralmente percebidos como impossíveis: não se tem a mesa, perdeu-se a chave, mas, quando a submissão é percebida e considerada em sua dinâmica, propicia imenso insight responsável por mudança, enfrentamento e soerguimento, início do processo de questionamento à submissão avassaladora, destruidora da identidade.




- “A escolha de Sofia” de William Styron


verafelicidade@gmail.com

1 comment:

  1. Isto é da série "ai como dói..." colocada na norma técnica da psicoterapia. Fazer, fazer, fazer para ser recompensada por algo que só faz agravar a dor moral.

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