Thursday, November 6

Vitimização e reivindicações

A manutenção de qualquer sistema - orgânico ou inorgânico - necessita de entrada e saída, input-output. Sistemas necessitam de um escoadouro, de uma porta onde colocar o resíduo, o lixo. Tanto alimentação, quanto descarte de resíduos, são uma imposição. Sistemas de poder, por exemplo, para se manterem, necessitam de antítese ao esvaziamento resultante de suas atuações: desenvolvem arremedos de ações comunitárias, que aliciam grupos, populações inteiras como massa de manobra e assim evitam a estagnação. A idéia de justiça, que na Inquisição foi abalada pela Igreja, foi também salva através do sacrifício das bruxas; nas ditaduras, os mesmos que redigem lemas para a segurança nacional são os que torturam, aprisionando, excluindo, e nestes contextos, vítimas são bode expiatórios, senhas para manter a ordem imposta. Da mesma forma, na dinâmica dos relacionamentos individuais, com infinitas situações e demandas, com níveis de sobrevivência e de existência, os sistemas mediadores são pregnantes (família, escola, trabalho, status, desejos e propósitos): indivíduos precisam de respiradouros e a fragmentação, o deslocamento passa a ser o canal de acesso a estas estruturas. Automatizando-se pelas demandas de sobrevivência, apoiam-se em conveniências necessárias à manutenção de suas vidas e propósitos.

Ser um ponto de confluência de abusos, de usos e desconsiderações, cria as vítimas, os sacrificados, os humilhados. Vitimizar-se é também assinar embaixo e concordar com a própria incapacidade de continuar o movimento de contradições relacionais. Neste sentido, a vítima é o ponto de fuga, é o tentar qualquer coisa para negar a sua impotência e incapacidade. Perdendo-se em generalizações, o indivíduo continua a coisificação despersonalizante do sobreviver. Sem questionamento, vem a alienação, o desejo de ser cuidado e protegido, vêm os enganos, consequentemente, a infinita criação de bodes expiatórios, saídas residuais dos sistemas.

Vitimizar-se é aguardar, esperar melhoria ou redenção dos próprios atos. Submeter-se aos processos alienantes transforma o indivíduo em um receptáculo de expectativas, deixando-o posicionado, apto a receber todo o resíduo, tudo que sobra ou é demais.

Posicionar-se como ponto final de processos é alcançar - recebendo sobras - um sentido de vida, mesmo que seja o de vítima. Esta submissão, esta passividade é negar-se como ser no mundo, é transformar-se no que recebe, tanto quanto, no que sofre, é a vitimização. Vitimização essa, necessária à sobrevivência dos sistemas de poder, criadores de seres coisificados, objetos à disposição de configurações alienantes e massacrantes, que os alimentam e suportam. Neste contexto, engrossam as fileiras dos que se vitimizam, os delatores, os torturadores os empenhados em buscar melhores condições para sobreviver, enfim, os que contribuem para manutenção de sistemas despersonalizantes. Reivindicar é tentar transformar submissão em atividade, consequentemente é uma maneira de amplificar os contextos apassivadores, os arremedos de ações sociais e afetivas.

















- “Anti-Dühring” de Friedrich Engels
- “Um passo em frente, dois passos atrás” de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin

verafelicidade@gmail.com

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