Thursday, June 16

Enigmas e encaixes

O resultado, a vantagem, o uso, tudo definem, validam e significam, esmagando a vida, a felicidade, a descoberta, a perplexidade da inocência que sempre possibilita transcendência, possibilita ampliação de limites, preservação da curiosidade e maravilhamento de estar no mundo com o outro.

Lembrei da historieta sobre alguém que diz a Dante Gabriel Rosseti - que estava escrevendo sobre o Santo Graal - “mas, Senhor Rosseti, quando encontrar o Santo Graal, o que vai fazer com ele?”

Para a maioria das pessoas a vida se constitui em unir pontos, descobrir trilhas de erros e de acertos, quase o equivalente de um jogo de 7 erros. Descobrir os encaixes, o adequado, o inadequado se constitui em objetivo de suas vidas. Neste propósito sempre encontram ajudas: cartilhas, programas, prospectos e mandamentos de como agir, de como não errar. No afã de sempre acertar, conseguir resultados é a tabela máxima que tudo supervisiona e determina.

Resultados diferentes do esperado ou que explicitamente demonstrem o ser desconsiderado, o ser rejeitado, são vivenciados no contexto do resultado, como tranquilidade quebrada, desarmonia estabelecida. A própria meta de ser aceito, considerado, polariza o que acontece, transformando-o em indicativo da paz quebrada, causando tristeza e mal-estar, quando na realidade o que aconteceu foi uma explicitação do quanto não é aceito e considerado apesar de toda a luta mantida para conseguir isto.

Mães e pais se desesperam pela toxicomania, pelos vícios dos filhos. Isto os desagrada, os questiona, não admitindo que se trata de um processo relacional, que se trata da não aceitação e da transformação do filho em um robô, em um emblema, que, por fim, atingiu este ponto. Tristeza, frustração e decepção passam a encobrir as responsabilidades falhadas, os acordos não estabelecidos e adiados, a vida negociada e renegociada, que caracteriza suas vivências afetivas.

Não existe enigma, não existe encaixe, existe apenas a constante descoberta do estar agora no mundo com o outro, no infinito movimento que nos cerca.



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