Thursday, June 2

Transposições, sinestesias, histeria e poesia

Existem situações nas quais todas as variáveis percebidas são polarizadas para um alvo, um objetivo. Na dramaticidade do perigo, a expectativa de ser atacado por um animal feroz, uma cobra venenosa, por exemplo, cria impeditivos imobilizantes. Nestes momentos, o que se enxerga, o que se sente, cheira ou ouve, além do gosto de travo na boca, é referenciado na situação que imobiliza; tudo é polarizado em um ponto que permite transposições e unificações das várias percepções - é a  sinestesia. Voltagens rápidas, tubilhões de acontecimentos, medos, alegrias desenfreadas criam estas percepções unidirecionadas, unilateralizadas, sinestésicas.

No pânico, o que se vê, o que se cheira, o que se sente, o gosto amargo na boca, tudo é unilateralizado em função do desbordante, da ultrapassagem dos limites. As vivências são tão intensas que não são suportadas pelos limites e configurações relacionais do que está acontecendo. Certas visões de cemitério, de câmaras de tortura, celas de confinamento, relembram situações tão vividamente vivenciadas que se sente cheiros, ouve-se gritos, choros, se tem enjôos e até desmaios. São situações que relembram histórias nas quais a vivência era caracterizada pelo embaralhamento, a não discriminação do que ocorria, pois partia-se de um ponto, partia-se de fragmentos e assim se reconstruía ou construía totalidades diferentes das que agora acontecem. Existem símiles na literatura, na poesia: do “avista-se o grito das araras” de Guimarães Rosa, chega-se ao todo misturado por não se identificar o que se mistura, chega-se às opressoras sensações, percepções do céu pesado, cinza chumbo que desaba.

Esta transposição de formas, transposição da percepção é resultante da polarização redutora de medos, vivências e expectativas. O medo antecipa as percepções e acidentes, tanto que materializa fantasmas. Os locais onde ocorreram torturas trazem gosto de sangue e cheiro de podridão, cheiro de sujeira, enfim, em alguns casos, o que às vezes se considera como sintoma histérico, pode também ser explicado como sinestesia gerada pela intensidade de vivências determinadas pelo que ocorre. Quanto mais o indivíduo é tomado pelos acontecimentos, mais condição tem de polarizar e totalizar vivências. Entrega como imersão geralmente é questionável devido a perda de limiares e limites que implica, entretanto, pode existir como resultante de impactos. Ser atingido por um acontecimento, sem reconhecer que ultrapassa e unifica referenciais, independe das condições individuais, tanto quanto ser absorvido, tragado pelo que ocorre sem reação, exige omissão - medo que imobiliza. Perigos, ameaças representadas por guerras, por cataclismos, às vezes até mesmo assaltos, são homogeneizadas, impedem discriminação do que está acontecendo. Isto explica o comportamento às cegas, tipo manada, das multidões comandadas por palavras de ordem (atualmente a hashtag tem esta função), agrupando situações dispersas sem explicá-las, sem possibilitar questionamentos, mas que funcionam como estímulo ou freio para imobilizar ou movimentar.

Transposições são possíveis e férteis quando se mantém a unidade a ser transposta. Quando as transposições são realizadas pela junção de unidades diversas surgem estruturas incoerentes, sem lógica unitária, responsáveis por criação de híbridos, verdadeiras quimeras fontes de ilusão e preconceito. Transposições de partes ocupando o lugar do todo geram preconceitos, erros e até mesmo delírios e alucinações.



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