Neutralização das circunstâncias



É muito difícil neutralizar circunstâncias. Equivale, em certo sentido, a deter uma corrente de água, a deter multidões cegas ou manadas de touros ou búfalos, por exemplo. Para poder observar esses fenômenos é necessário estar em planos diferentes dos quais os mesmos ocorrem. Com isso não quero dizer que se deva estar em posições vantajosas, não se trata do conhecido “acima da carne seca” ou o “assistir de camarote” popularmente consagrados para referir-se a posições privilegiadas.

Só podemos neutralizar circunstâncias quando transcendemos necessidades pela realização de nossa possibilidade humana. A única forma de neutralizar circunstâncias é não ser circunstancializado. É o não viver em função da satisfação de desejos, da busca de realização de bem-estar, da realização de propósitos, sonhos e metas. Estar preso ao sonho, viver para realizar grandes ideais e propósitos transforma o ser humano em um barco, um objeto ao sabor de correntes - circunstancialização que o aliena e despersonaliza, negando inclusive o que ele mais acredita fazer, isto é: realizar seus propósitos, sua determinação de vida. É o bilhete de loteria já sorteado, mas guardado, pois ainda aposta que vai ser premiado, acha que tem um “tesouro de possibilidades” em mãos.

O primeiro passo para neutralizar as circunstâncias é nada segurar, nada desejar, viver apenas em função dos próprios limites, conflitos e problemas que assim enfocados trazem mudança e satisfação. Neutralizar circunstâncias é descobrir-se. É visualizar os próprios problemas como caminhos de transformação, de mudança, desde quando com eles são estabelecidos diálogos nos quais eles já não mais existem como gritos e sussurros ininteligíveis que nada explicam, nada falam.

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