Humanidade




Uma de nossas características mais marcantes é a possibilidade de perceber e categorizar e assim entender quem somos e como agimos, entender os acontecimentos e organizar nossa convivência, nossas vidas em comum. Criamos as regras, nos adaptamos aos valores e enfrentamos disputas, conflitos diversos, desvios, ameaças às definições que assumimos como definidoras de nossa humanidade. A capacidade de se sensibilizar com o outro é um desses pilares definidores. Ser afetado pelo outro não só demonstra que o percebemos, mas também que nos envolvemos com ele, nos dirigimos a ele, o cercamos, implicamos nossas vidas mutuamente, enfim. Que outro fundamento poderia definir melhor “humanidade”? Afinal não é ao conjunto, à vivência em comum, que esta palavra se refere? Mas conjuntos são abstrações conceituais e a humanidade é, supostamente, formada por seres humanos, por indivíduos. O indivíduo, para ser reconhecido como humano, precisa exercer, atualizar os valores que definem sua humanidade, seu pertencimento a este grupo de seres que convivem, e que só se reconhecem nessa convivência definidora que se pretende contínua e direcionada à abundância, ao crescimento. Por mais que os valores edificantes pareçam preponderantes, esse convívio é balizado por tensões e conflitos dos mais variados.

Muito se valoriza a solidariedade ou a caridade para com os seres humanos desprovidos, por exemplo, principalmente porque são atitudes que atualizam, reafirmam nossa humanidade. E quando o desprovido, o machucado, o sofredor é um animal? Por que, na maioria das vezes nessa situação prevalece a indiferença, a separação, as razões que reivindicam segurança própria? As raízes estão na subjugação do animal, ao longo da história, como o diferente que utilizamos na construção, manutenção e conforto do ambiente humano. O animal não é o semelhante. Nesse ponto um desafio nos aflige como humanidade: é mesmo possível desenvolver empatia - ou sensibilidade para com o outro - se a restringimos, se a reconhecemos apenas em função do que ela se direciona? Se, em diversas situações “temos permissão” de perder nossa humanidade? Como definirmos o semelhante e o diferente? Na história não faltam exemplos de humanos indiferentes a humanos, assim como a animais.

O olhar voltado para o outro, envolvido com o outro, seja o semelhante ou o diferente, é um resgate definidor de nossa humanidade que para ser exercida e mantida requer não discriminar, não separar o existente como ameaça, qualificando-o como perigoso por ser diferente de si - outra etnia, outra cultura, outra espécie - pois o que nos define como humanos são nossas atitudes, tanto faz por exemplo, se nos solidarizamos com um homem que sofre, com um animal abatido, com um gato de rua faminto e machucado ou com uma criança de rua faminta e machucada.




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