O herói




O desespero resultante de suportar, de viver e escorregar na mesmice do indiferenciado, homogeneíza pela neutralização de contradições que são vivenciadas como necessidade de sedativos, de amortecedores ou criadores de bem-estar.

Quanto maior o apaziguamento - a negação do que infelicita - por meio de crenças e esperança de melhoria, maior o desespero, maior a imobilização no que esmaga e tritura. No aclamado filme Coringa as sequências vivenciadas pelo personagem central são bons exemplos dessa situação. Na fragmentação, vivendo de sobras, resíduos de afetos mentirosos, o Coringa é comprimido e esmagado; entretanto algum alento, algo humano sobra. Tecendo impossíveis cordas para evadir-se, o personagem enlouquece e nesse processo descobre outros alienados também esmagados por submissão às máquinas trituradoras representadas pelos sistemas sócio-econômicos vigentes. Seus gritos e passos de revolta o transformam em herói. É o predestinado, quase o Messias, o milagroso que todos esperavam e necessitavam. Seus atos descontrolados, e até criminosos, são redimidos e entendidos como heroísmo.

Ser herói atualmente é quase sinônimo de ser enlouquecido, de ser aquele que quebra, destrói, mata e assim consegue abrir caminhos. Os moinhos de vento foram substituídos por viaturas policiais, carros e barreiras a destruir. O Coringa é o herói sem bandeira, sem lema. É o desorganizado, o enlouquecido que polariza fragmentação e submissão. Ele tem um ímã polarizador de vazio, conseguindo assim, por meio de heterogeneização, marcar e estabelecer novos critérios que podem ser antíteses aos existentes. E é por isso que é festejado como libertador.

Brecht dizia: “triste do país que precisa de heróis" pois sabia que só o caos, a miséria e as explorações os engendram. Hoje podemos dizer que o herói que nos resta é o que dá colorido em torno do previsível branco/negro, da monotonia e mesmice de ter tudo controlado, submetido e administrado. O louco, antes bode expiatório dos sistemas, se transforma em herói dos mesmos pela ousadia e liberdade ao negá-los, pela forma tosca, louca e heróica de enfrentá-los, e assim o Coringa é o herói dos nossos dias.

Comentários

  1. Impressionante as reflexões que vão chegando com tanta informação. O louco, aquele que se deixa cair no abismo da inconsciência para encontrar alguma razão de existir. Vou reler várias vezes e refletir. Obrigada.

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