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Ser humano - IV

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      Ao longo dos séculos foi desesperador lidar com o que se entendia como a “horda humana”, desde os raptos tribais às matanças rituais, assim como às guerras fratricidas e de conquista territorial.   Estados, leis, regras foram criados para organizar e controlar os seres humanos reduzidos à sobrevivência. Entretanto, o espírito das leis, a criação de valores universais, os pilares religiosos aumentaram os níveis de sobrevivência, de despersonalização ao desenvolverem esses valores e normas, pois as medidas de avaliação do humano passaram a substituir o avaliado. A máscara, o invólucro tornaram-se definidores. Valores e regras são geradores de medo, raiva e apoio. Ter o que estabiliza, fazer parte do que brilha e apoia é o que se deseja. Quando a filiação às regras por outros ditadas é o básico vive-se em função de resultados, abrindo mão, atropelando o presente, o que existe. O Estado, a Igreja, a defesa do privado são constantes no espírito das leis, e, ...

Ser humano - III

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  No nível de sobrevivência os seres humanos são detidos na satisfação das próprias necessidades entendidas como propósitos, objetivos e contingências a realizar ou evitar. O outro, o semelhante é percebido como o que atrapalha ou como o que ajuda, o que tem que ser evitado ou cuidado. Sobreviver é sempre preponderante. A história das civilizações e culturas nos mostra isso, mas também mostra o ir além disso. Transcender esses limites é uma constante ao longo de nosso estar no mundo como seres humanos. Pontualizados na sobrevivência, passamos a ser manipulados pelos sistemas que nos permitem sobreviver. É o ciclo vicioso instalado. É a dialética do senhor-escravo de Hegel e as explicações do Estado e luta de classes de Marx, ou, ainda, é o que diariamente encontramos como desumanização, medo, insatisfação, angústias, raiva e violência. Gritos de socorro, guerras povoando nosso cotidiano. Perceber o outro é a solução e para isso é necessário deixar de olhar para o...

Ser humano - II

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      A vivência do presente, enquanto ocorrência, fato, realidade e consistência é o que nos possibilita diálogo, encontro. Quando se busca resultados, quando se utiliza o que acontece como matéria prima para realização de desejos, planos e metas, tudo que acontece é transformado em jogo, corrida de obstáculos ou varinha mágica facilitadora de propósitos.   Estar no mundo com o outro é um processo sempre cooptado por um viés utilitarista, isto é, a sobrevivência, pois a palavra de ordem, o objetivo básico do viver é sobreviver. Quando chegamos a essa evidência, viver para sobreviver, deixamos de ser os mais evoluídos animais da escala zoológica, ficamos iguais a todas as outras espécies e sobreviver é a regra, o objetivo. Nesse ponto, vêm as explicações deterministas do comportamento humano, assim como as explicações mágicas fundamentadas em Deus, seres supremos e superiores ou em reencarnações.   Transformado em sobrevivente, o outro existe para ser ...

Ser humano - I

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      O homem, antes de qualquer coisa, é um ser humano. Essa afirmação o classifica na escala dos seres vivos como humano. Seres vivos compreendem Homo sapiens , animais, vegetais e micro organismos tais como bactérias, algas e fungos. Na escala zoológica, o ser vivo mais desenvolvido é o humano. É a complexidade de suas células, agrupadas sob forma de tecidos e órgãos, que lhe possibilita estar nessa posição. Graças a sua estrutura biológica, ele dispõe de maiores condições de relacionamento, alcançando e realizando uma série de possibilidades.   Ele se configura e define por sua possibilidade de relacionamento, e essa abrangência lhe permite vivências amplas. Em uma analogia geométrica, pela verticalidade realiza vivências temporais, e pela horizontalidade exerce o estar no mundo constituído como ponto de encontro de inúmeras coordenadas, de infinitos dados relacionais. Estar no mundo se caracteriza por incontáveis aspectos que podem ser entendidos como iman...

Aletheia – verdade, revelação

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      Do ponto de vista da etimologia podemos lidar com a palavra aletheia não apenas como verdade, seu significado na filosofia pré-socrática, mas também como revelação do que existe. Nesse sentido, o prefixo a é a negação e lethe é o esquecimento. Portanto, aletheia , verdade, poder ser entendida como “não esquecido” ou “o que não está escondido”. Na filosofia grega era a resposta ao desvelamento da descoberta entre ser e realidade.   Freud e Heidegger muito exploraram essa ideia, transformando o significado de verdade em praticamente sinônimo da trajetória que consiste em sair do ocultamento: explicitado no inconsciente em Freud e entendido como o desvelamento do ser em Heidegger.   Saindo da polaridade descrita acima, da dualidade entre ser e parecer, realidade e ilusão ou objetividade e subjetividade, dizemos que verdade é o que se explicita. É o enunciado. Ela está sempre contextualizada no diálogo entre indivíduos, no que a...

Akrasia - é a incoerência

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    Há séculos a vontade como uma força propulsora do comportamento é discutida e problematizada na filosofia, principalmente em seu aspecto de contradição, quando, apesar da existência da vontade para agir de determinada maneira, age-se da maneira oposta. São vivências corriqueiras como ter vontade de ler todos os dias, julgar e decidir que se trata de uma atividade enriquecedora, mas, não exercê-la, não ler todos os dias. Ter vontade de parar de fumar, mas, continuar fumando. São inúmeras discussões que giram em torno da relação entre saber-conhecer, vontade e ação. Afinal, por que, mesmo sabendo que algo deve ser feito, não o fazemos e agimos de uma maneira que, nós próprios, consideramos imprópria? A resposta simplória de que se trata de vontade fraca não esgota a questão. Os gregos chamavam essa atitude de akrasia (falta de domínio).   Akrasia poderia ser definida como incoerência, agir contra o que se pensa e deseja. Essa incongruência, essa incoerência, ger...

Parrhesia – falar a verdade

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    Relembrando os gregos, mais especificamente Eurípedes, o poeta trágico autor de Medeia e Electra, falar a verdade, ter coragem de falar francamente é parrhesia . Palavra grega que significa essência, falar tudo ou falar livremente ( pan = tudo e rhesis = fala). Não é a simples liberdade de expressão, é a coragem de dizer a verdade, mesmo correndo riscos pessoais, é mostrar o que acontece, explicitar o implícito.  A noção de parrhesia foi muito divulgada na segunda metade do século XX por Foucault, principalmente quando ele falava do cuidado de si, enfocando a coragem de falar a verdade como uma das características básicas no comportamento social.   Considero que a primeira exigência ou condição para falar a verdade, para exercer integridade é não estar comprometido com resultados, não estar buscando objetivos que exerçam o ocultamento do que ocorre. Ao mostrar, ao falar a verdade, se abre o leque do que está ocorrendo, se apreende mot...

Autarquia é autossuficiência

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  Outro dia, relendo os estoicos, reencontrei a palavra autarquia. Autarquia é autossuficiência desenvolvida como autonomia, independentemente das circunstâncias. Assim como acontece com os objetos, as palavras também mudam, adquirem novos significados a depender dos contextos que as situam e reproduzem. A palavra autarquia, antes estruturada e referida na esfera individual, institucionalizou-se como instância coletiva, pública. Essa mudança começou com Aristóteles em seu livro A Política quando ele fala de autarkeia para caracterizar a autossuficiência da polis – da cidade – e do homem feliz. Ele afirma que autarkeia é necessária   para a constituição da polis. Trata-se do conjunto de cidadãos felizes e autônomos que podiam constituir a polis.   Acontece que o todo não é a soma das partes. Falar em cidadãos felizes, autônomos e autossuficientes como elementos formadores de uma cidade, que seria, assim, também autônoma, autossuficiente e feliz,...

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