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Superação

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Atualmente, tanto nos contextos psicoterápicos quanto nos religiosos, enfatiza-se a idéia de superação, de desapego e psicoterapias e religiões são usadas como alavancas para promover mudanças consideradas desejáveis. Nestes contextos, superação e desapego tornam-se sinônimos quando entendidos como abandono e desistência. Abandonar os sonhos antigos após um acidente que gera imobilidade, desistir da família unida ao descobrir que a mesma era assentada em bases enganosas, são, então, exemplos de superação, desistência de sonhos agora impossíveis e dedicação a novos projetos. Problemas sempre surgem. Em contextos de aceitação, ultrapassar, transcender limites é espontâneo, dispensa alavancas; a superação e o desapego aparecem como abertura de possibilidades. A percepção dos processos abre condições, gera perspectivas para o aparecimento de um núcleo fundamental: o estar vivo. Enquanto tal não ocorre, a vivência é de perda, de morte, de incapacidade e neste contexto, superar, desape...

Confiança

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Confiar nos outros decorre de ser disponível, de aceitar o que se é, o que se tem, o que se vive. Quando se avalia lucros e perdas não há disponibilidade, não há confiança, o que existe são acertos, negociações e contratos. Discussões sobre a modernidade costumam enfatizar o aumento do individualismo e competitividade onde as relações são reguladas e controladas por contratos escritos em contraposição a uma época onde acertos eram baseados na palavra ou na confiança entre as partes. Estas afirmações podem levar a crer que a falta de confiança é resultado deste momento histórico. Em verdade, assistimos apenas uma mudança nos mecanismos coercitivos que regulam a confiabilidade ou os acertos entre as pessoas: antigamente a família e a comunidade exerciam esta controle; hoje em dia, instituições públicas regulam  os acertos. O homem é sempre o mesmo; confiar ou não confiar, ser uma pessoa de confiança depende de como ele se estrutura. Logo ao nascer, o rosto materno é uma...

Verdades e mentiras

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Quem nunca se perguntou sobre a veracidade ou falsidade de algum relato, de alguma notícia e até da própria visão sobre um determinado acontecimento? É comum surpreender-se enganado, ludibriado. Descobrir que está sendo enganado, por exemplo, é libertador se vivenciado sem as amarras do compromisso. Esta mesma descoberta - ser enganado - é também mortal, aniquiladora de todos os sonhos e confiança depositada (no outro). Acreditar e duvidar são polos de um mesmo eixo: a constatação de um acontecimento, de uma ocorrência.  Tudo que acontece pode ser percebido, embora nem sempre constatado. Diante de fatos, acontecimentos, percebemos e também inserimos esta percepção em redes de memórias e vivências. A inserção é a constatação, é a percepção da percepção, às vezes representação ou interpretação do acontecido. Destas vivências são estruturadas crenças ou dúvidas.  Saber o que é e o que não é, acreditar que tal fato ocorreu ou não, enfim, dúvidar é defrontar-se com o ...

Vingança

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A vingança é sempre planejada. Esta antecipação, expectativa é um deslocamento de frustração. Não podendo destruir ou infelicitar o que magoou e infelicitou, o indivíduo adia, guarda sua mágoa  e começa a planejar, a desejar se vingar, a desejar fazer com que o outro sofra como ele sofreu, sinta a mágoa que ele sentiu, tenha o mesmo prejuizo, o mesmo sofrimento. Nascido no contexto da rejeição não suportada, o desejo, o planejamento da vingança é o que resta como motivação de vida. Parar e colocar todos os propósitos relacionais em função de uma vingança, cria idéia fixa, obsessão, às vezes percebida como determinação. Isto passa a ser o filtro, o foco de toda a motivação. Reduzindo o mundo à expectativa de se vingar, de infringir ao outro o mal sofrido, o indivíduo se reduz a uma espera. Tudo significa à medida que se conecta com este desejo. O alvo da vingança é que determina o que se faz, o que se pensa, o que alegra, o que entristece. Constituido pelo outro perceb...

Sacrifício e restrição

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O ser é possibilidade de relacionamento, apenas isto e isto é tudo. Não existem seres bons, maus, mediocres ou superdotados como preexistências aos dados relacionais. Somos seres com possibilidades relacionais que, quando posicionados, mantemos arquivos de memória, estruturando o eu. O eu é o sistema de referências responsável pelas identificações. Confundir ou igualar o ser ao eu é reduzir as possibilidades a padrões e regras características do indivíduo. Somos seres relacionais limitados por referenciais posicionantes. Questionar e identificar esses posicionamentos cria dinâmica, faz mudar. Psicoterapia é onde esse processo se realiza ou é impedido a depender das metodologias e conceitos utilizados. Atualmente é frequente ouvir psicoterapeutas dizerem que toda criança precisa de uma relação estável: os pais não podem estar separados. Opiniões baseadas em juizos de valor são alienantes. Pensar assim é responsável pela manutenção das ordens constituidas, demonstram o medo da ...

Sentimentos e emoções

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Uma das implicações do conceito da Psicoterapia Gestaltista de que tudo é relação * - percepção é relação, o ser é possibilidade de relacionamento - é rever a noção elementarista, dualista, causalista, de afetividade humana.  A fundamentação dualista, a idéia de interno e externo, de sujeito e objeto como posições preexistentes, distorcem o conhecimento, o trabalho e o pensamento psicológicos, catalogando e esquematizando a vida psicológica em categorias como sensível versus insensível, bondoso versus maldoso, sentimental versus racional etc. Eles fazem também uma distinção entre "sentimento" e "emoção" onde o "sentimento" remete a "interioridade" e a "emoção" à "exterioridade", à expressão física (como lágrimas, aumento de batimentos cardíacos, calafrios etc). Alguns psicólogos pensam que sentimento é algo subjetivo, interno; acham que sentimentos são característicos de pessoas sensíveis. E quando perguntamos qua...

Sistemas e robôs

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Fundamentados no lucro, mais valia, exploração, habilidades e direitos, os sistemas sociais - desde a família às regras educacionais e legais - se esmeram na produção de robôs bem acabados ou com avarias de fabricação. Não há lugar para o humano. Doença, neurose, drogas, não aceitação, desespero e maldades surgem. As psicoterapias, são as ilhas onde as paradas e pausas deste processo desumanizador podem existir. Entretanto, para que aconteça transformação é necessário questionamento a todo processo de adaptação em função dos valores desumanizadores. Geralmente isto não ocorre. O que se vê nas terapias é o chamado "recarregamento de baterias" para enfrentar e manter as raivas, invejas, desejos e justificativas. Situações extremas, excruciantes geram sempre a pergunta: sobreviver para quê? Viver para quê? Muitas psicoterapias, pelo compromisso que têm com o sistema, conseguem transformar estas perguntas em meros sinais, em símbolos, dizem: "perguntas são interrog...

Cordas e amarras

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Esforço é desumanizador para o homem. Máquinas são programadas, homens o são apenas quando mecanizados em função de ritmos a serem mantidos. O ser humano ao se relacionar com o outro, com o mundo e consigo mesmo, enfrenta situações, caindo e levantando consegue, falha; é um processo que ele  inicia e participa, não é um espetáculo, uma situação que ele avalia, considera, aposta ou torce. Não aceitar limites leva a romper certos coeficientes reguladores. O coeficiente de elasticidade no mundo físico e os limites de tolerância no dia-a-dia relacional nos mostram isto. Para estas pessoas que não aceitam a realidade, que não se aceitam,  estimulos, incentivos permitem geralmente realização de desejos e metas. Tudo que impulsiona, que possibilita algo pode ser utilizado e adequado. Por outro lado, sem muletas, sem amuletos, não chegam onde querem. Possibilidades de relacionamento, processos, são transformados em necessidades; surgem funcionalidades valorizadas e n...

Ícaros

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As pessoas estruturadas na não aceitação da não aceitação, geralmente se propõem ao impossível. São inúmeros os exemplos deste processo, como: perceber a própria estatura mediana como fator responsável pelo não sucesso, criando propósitos de mudança comprometidos com finalidades e objetivos impossíveis. Disfarces e próteses reparadoras não mudam a estrutura, não mudam a estatura básica individual; fazer de conta que não dá importância, comparar a questão com o que é considerado sucesso, passa a ser uma solução, como expressam frases do tipo: "sou baixinho mas tenho muito dinheiro". Comparar as dificuldades, comparar os problemas é uma maneira de escondê-los. Processo e realidade são inexoráveis, independem dos desejos e diferenças individuais, embora sejam por eles estruturados. Tudo é feito para superar e esconder o problema, consegue-se disfarçá-lo, consequentemente ele deixa de existir pregnantemente para o problemático, mas fica estabelecido como estrutura, contex...

Interrupção e continuidade

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Os processos são infinitos, o movimento é eterno. Ao nos relacionarmos, estabelecemos limites, posições, espaços. Descontinuamos, interrompemos para continuar. Isto cria tensão, cria motivação. Bluma Zeigarnik, uma pesquisadora dos fenômenos da memória, descobriu no início do século passado, que as tarefas interrompidas eram frequentemente mais memorizadas, mais lembradas que as completadas. Esta experiência é muito fértil; podemos entender a  motivação, o estar interessado em algo ou alguém em função desta descontinuidade, desta interrupção. O que eu chamo de " efeito Zeigarnik " explica a tensão criada pelo que não é concluido. As sequências relacionais vivenciadas em contexto de não aceitação, de autorreferenciamento são ilustrativas de como o interesse ou desinteresse, o ânimo ou desânimo variam em função de metas realizadas, completadas ou situações instigantes sempre insinuadas e nunca definidas. As técnicas de manipulação política, a propaganda, a demagogia s...

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