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Empréstimo e insatisfação

Querer ser considerado, querer significar faz com que as pessoas ultrapassem os próprios limites de sua condição social e econômica. Este desejo, sempre realizado à custa de limites ampliados, prefigura o conhecido “ jeitinho ”, a improvisação que se espera que dê certo. Casa de penhores, casa de aluguéis (roupas necessárias às festas que se quer ir, mas não tem as peças exigidas ou pretendidas), empréstimos, pedidos de ajuda a amigos, tudo vale para que se consiga realizar os objetivos de não faltar, não falhar diante de compromissos e oportunidades que se oferecem. Agir fora da própria realidade, dos próprios limites, para marcar presença, para ajudar o outro, é sempre indicativo de metas, culpas ou medos. Os gastos além das próprias condições financeiras, que são feitos pelas famílias para formatura e casamentos dos filhos, por exemplo, são sempre denunciadores de frustrações e compromissos com aparência, considerados vitais. São também investimento, um marco para nova vida do f...

Deslocamentos da não aceitação

Durante os deslocamentos da não aceitação podem acontecer situações aparentemente paradoxais, difíceis de serem pensadas como deslocamento graças ao caráter contraditório que apresentam, mas que funcionam como drenos de tensão, de alívio, sendo, portanto, consequentes deslocamentos de conflitos e dificuldades geradas pela não aceitação de problemas. Nas vivências extremas destes deslocamentos, destas não aceitações, a psicoterapia pode ser também configurada como situação de não aceitação. O cliente não aceita ter medos, ter conflitos e dificuldades, fala de seus problemas, mas não aceita ser questionado, não aceita não ser aceito pelo terapeuta. Ao perceber que o terapeuta, através de questionamentos e constatação dos deslocamentos de problemas, mostra que ele cliente não se aceita, enuncia que ele embaralha narrativas e desloca, ele, então, se sente aceito ao ser flagrado, ao ser descoberto nos próprios relatos. Esta vivência de constatação funciona como apoio, ela é também o enc...

Injustiça - rigidez na interpretação de regras

Sempre que se resolve aplicar regras sem questionar a propriedade e implicação das mesmas, se comete injustiças. O uso genérico do que é específico causa inadequação: sobra ou falta. Vemos isto em larga e pequena escala, como em situações cotidianas em bibliotecas, por exemplo, onde a regra de não falar alto para manter a tranquilidade do ambiente de estudo pode criar situações conflitivas quando alguém chora ou grita de dor e é apenas em relação ao silêncio perturbado, ao barulho feito, que surge reclamação e até punição da pessoa que, tentando ajudar, grita e faz barulho. É preciso, antes de aplicar as regras, saber o que ocorre e como ocorre. A rigidez penaliza ao unilateralizar configurações. Muitas vezes nem se entende o que aconteceu, não estava previsto nas regras, mas assemelhava-se e decide-se pela punição. Quando isto ocorre, assistimos também injustiça, pois as situações são avaliadas com o objetivo - que já é um comprometimento - de manter regras estabelecidas, sem aval...

Frustração

Frustração é o desconcerto vivenciado ao perceber que não conseguiu, ao perceber que perdeu, que falhou na realização de propósitos e desejos. As vivências de frustração são variadas. Frequentemente a frustração resulta de uma expectativa, uma meta, um desejo não realizado, não atendido. Neste sentido ela está sempre estabelecida em um tempo futuro e é causada pelos outros e pelas circunstâncias. Voltada para expectativas, a frustração é muito próxima da decepção, de não ter sido considerado, não ter seus propósitos atendidos e resolvidos.   Às vezes as frustrações aparecem quando se descobre, através de impasses, as impossibilidades de resolver os próprios problemas. Descobrir-se incapaz, impotente e sem condição de resolver os próprios conflitos e dificuldades, causa frustração. Quando as mesmas são percebidas e aceitas, quando são enfrentadas, surgem questionamentos responsáveis por recriar, por mapear todas as trajetórias causadoras do impasse. Estas situações são antítes...

Volta por cima

Ultrapassar situações infelicitadoras - das separações afetivas não desejadas às doenças e prejuízos financeiros - só é possível quando se transforma os modelos e padrões relacionais. Ter a percepção de si mesmo, do outro e do mundo transformada e destruída por evidências, nas quais não se reconhece mais a si mesmo e onde as familiaridades são transformadas em estranhas dificuldades a palmilhar cria mundos inóspitos, mas que são, apesar de tudo, novos. Dedicar-se a este novo traz descobertas e novos situacionamentos e é exatamente aí, neste processo, que a superação se instala e muita criatividade e inovações surgem. Recursos foram perdidos, impossibilidades decretadas e nada mais fica como era antes. Isto pode ser percebido como aridez, deserto, situação sem saída ou como novos horizontes que pedem novas atitudes e outras motivações. Nada mais desesperador que reconstruir, tanto quanto nada é mais promissor quando este processo é vivido como construção, como renovação: faltam mo...

Imediatismo

Toda vez que se reduz realidade, circunstância e motivação ao foco dos interesses imediatos, pontualiza-se as ocorrências. Este autorreferenciamento implica em comportamento manipulador que resulta em coisificação de todos à volta de si. Transformado em botão propiciador, em interruptor, o outro é apenas o que vai permitir ou impedir realização de vontades e necessidades. Manipular o outro equivale a acessar botões, acessar alavancas que liberam entraves e realizam propósitos. Este comportamento caracteriza o imediatismo, onde tudo deve convergir para o que se quer. Quando desejos não são realizados, surgem desespero, frustração e irritação desencadeadores de agressividade. Comportamento agressivo é a tentativa de contornar o obstáculo para atingir o alvo, não importa como. Esta agressividade, quando não consegue fragmentar obstáculos, frequentemente se torna uma arma que atinge  qualquer familiar amado ou o melhor amigo, por exemplo. Destruir o que impede a realização dos pr...

Dissimular

Uma das estratégias frequentes de sobrevivência é a dissimulação. Negar os próprios desejos, fazer de conta que não tem necessidades, tampar carências, medos ou dificuldades é uma atitude valorizada. Nas esferas economicamente menos privilegiadas, quanto mais se sente discriminado, mais se mantém no faz de conta, mais aparenta ser o que não é, mais valoriza o fingimento. Dizer o que pensa, expressar fraquezas, discutir é considerado “ feio ”, “ é grosseria ”. Não vivenciar faltas e problemas, tanto quanto negar as experiências desagradáveis, se constitui em comportamento desejável. Estas atitudes omissas privilegiam crimes e desrespeitos à individualidade. Apanhar do marido e esconder é uma maneira de continuar a ser uma família respeitável; ocultar os abusos sexuais presenciados é um sacrifício valorizado para manutenção da ordem familiar. É a submissão às agências públicas, ao que pode ser considerado bom, o equivalente do “ arrumar para dominar ”. Criar e manter aparências, nela...

Consistência

Consistência é a firmeza resultante de ser inteiro, sem divisão. Aceitando-se, o indivíduo realiza suas possibilidades e necessidades como resultantes de contextos intrínsecos às suas motivações. Nada é colado, nada é mantido por aderências circunstanciais. Ao se relacionar com o outro, com o que está diante dele, com ele próprio, ele integra os acontecimentos, e percebe congruência ou incongruência, propósitos ou despropósitos. Os valores e significados são resultantes, não são prévios ao comportamento e mesmo quando os valores são prévios, a continuidade relacional é que vai determinar as motivações. A falta de regras e escalas prévias impede vivências de culpa e de medo. Sempre participando, não se omitindo, as situações são definidas pela totalidade que as caracteriza e não pelos resultados e anseios. Detendo-se em aspectos que são favoráveis ou evitando os desfavoráveis, o indivíduo dramatiza a configuração do que ocorre: “o preciso destruir para me salvar” é um lema que quan...

Artefatos

Transformado em objeto, em coisa alienada em função de demandas, medos e desejos de terceiros (principalmente os estruturantes relacionais, via de regra os pais) o indivíduo é transformado em receptáculo de valores, regras e ensinamentos de como bem sobreviver. Esta caixa (de ressonância) recebe muitas coletas e depósitos, mas, a necessidade de matéria prima para compor representatividade e não fazer com que os outros fujam diante dos massacres sobre si estampados, obriga a buscar máscaras, véus, coberturas que disfarcem. Apesar de massacrados pelo processo de coisificação, desumanizados e alienados de si mesmos (não há questionamento), onde só a necessidade satisfeita significa prazer e tranquilidade, o ser humano permanece uma possibilidade, uma abertura para transformar. Sua estrutura humana enseja isto, mas, sem dados relacionais, seu posicionamento situacional sobrevivente cria limite sinalizador do que vai permitir ganhos, do que vai permitir se dar bem ou não, ser aceito ou ...

Quando a gratidão é avidez

Não querer abrir mão do que conseguiu, seja no âmbito profissional, seja no afetivo é sempre explicitado por esforço e dedicação, frequentemente traduzido por gratidão, por agradecimento pelo que conseguiu e ou por ser amado, por ser considerado e querido. Esta aparente submissão, entrega e disponibilidade, nada mais é que a expectativa de alívio diante do que não se quer perder. Neste contexto, ser grato é saber que tudo está mantido, nada se perdeu; a paz, a segurança e conforto continuam. A família que reconhece, os deuses que ajudam, as instituições que possibilitam, todos estes apoios submetem e suscitam atitudes gratas, geram agradecimento. Sentir-se grato é, assim, sempre um depois, resulta de empenhos, atitudes e desempenhos reconhecidos e gratificados. Estes processos em tempos diferentes mostram interseções que precisam ser consideradas. Buscar sucesso profissional, querer manter satisfação afetiva pela continuidade de situações já ultrapassadas e inseridas em outros cont...

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