Saturday, July 2

Círculo vicioso abismal


A reviravolta, ontem, no caso Dominique Strauss-Kahn, me lembrou a história contada por Albert Camus em seu livro "O Estrangeiro". Na história, Marsault é condenado, principalmente por sua história de vida e pelo seu comportamento durante o enterro de sua mãe: não chorava e se mostrava indiferente. Estas atitudes, para os jurados, indicavam frieza e falta de envolvimento filial, ele era insensível, frio… já estava condenado!

No caso Dominique Strauss-Kahn descobriu-se que a camareira que o acusava de estupro mentiu no preenchimento do formulário de imigração para os EUA e que, além disso, era amiga de um traficante e recebia depósitos bancários do mesmo. Concluiu-se que era mentirosa, que era envolvida com criminosos e poderia estar praticando extorsão. Dominique Strauss-Kahn teve suspensa a sua prisão domicialiar, apesar do processo continuar em função das dúvidas envolvidas. O perfil da camareira foi o indutor da suspensão da prisão domiciliar.

Normalmente, os padrões, as regras, os índices comportamentais determinam tudo. Todos sabemos como as grifes, os selos e certificados são importantes e fundamentais para os que querem construir imagens socialmente aceitas e manter aparências dentro de determinados padrões.

Pensei: por se mentir uma vez, vai se mentir sempre? Como escreveu Kurt Lewin quando comentava o pensamento aristotélico: "por um fato acontecer mil vezes, nada garante, nem significa que ele vai acontecer a milésima primeira vez, que ele vai acontecer novamente" e ele conclui e acrescenta: "regularidade e frequência não fundamentam o determinado. O passado não explica o presente, o passado não interfere no presente, o presente é que modifica o passado".  Sei que os psicanalistas e os deterministas não aceitam isso, pois acreditam que o antes explica o depois.

Aristóteles novamente e agora temperado com Platão: "a justiça é uma taça que pegamos ora com a mão esquerda, ora com a mão direita". Chegaremos a Kant? Para ele a ética é o cumprimento do dever acima de tudo. Temos, assim, mais padrões, problemas e parcializações. O grande carrasco nazista Adolf Eichmann, por exemplo, dizia que cumpria ordens, para ele só isso tinha importância, ele não fazia nenhum questionamento, obedecia*, cumpria o dever e  milhões de pessoas foram cruelmente assassinadas pelo bem da ordem. E a nossa Lei de Segurança Nacional nos tempos da ditadura militar? E todas as arbitrariedades das ditaduras comunistas, de alguns regimes islâmicos e outros?

É muito perigoso, muito alienante e desumanizador, viver em um sistema cujas agências sociais, legais, governamentais, a grande imprensa e a opinião pública são pautadas por conclusões parcializadas e padronizadas. Junte-se a isso o politicamente correto e temos, assim, arremedos de democracia e de liberdade, além de trabalhos e pensamentos psicológicos comprometidos em ajustar o indivíduo aos padrões reinantes. Tautologia, círculo vicioso abismal (de tanto girar no mesmo lugar, afunda).

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* Sobre a obediência e suas implicações desumanizadoras, ver comentário a um clássico experimento realizado pelo Dr. Milgram "Behavioral Study of Obedience", em meu livro "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", página 25.


  
- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos    
- "O Estrangeiro", A. Camus  
- "Eishmann em Jerusalem", Hannah Arendt

verafelicidade@gmail.com 


2 comments:

  1. Muito bom Vera !!! Seu texto é uma delícia.

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  2. Obrigada, Patricia, volte sempre. bjs. Vera

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