Wednesday, July 20

Raiva

Sempre me espantei com a raiva. Esta forma de deslocamento da impotência, da frustração, da omissão é destruidora, congestionante, pontualizante. Quanto mais se extravasa a raiva, mais se aumenta o autorreferenciamento.

O outro destruido, agredido, significa vitória alcançada. A raiva é o vetor transmissor de desejo. Quando se consegue satisfazer a raiva, se consegue realizar o desejo de destruir.

A raiva, este contorcionismo - transformação de necessidades em possibilidades* - é frequentemente gerado em situações de falta, de carência, de nunca ser considerado, de estar sempre pisado, ofendido, humilhado e oprimido. Ao trucidar, ao matar ou destruir, seja um carro, um animal, um ser humano ou a festa comemorativa de promoção do colega de trabalho, por exemplo, o raivoso se sente vitorioso.

Não existem pequenas ou grandes raivas, raiva não é quantificável; o seu efeito é que vai depender do seu contexto estruturante, responsável desde envenenamento de cachorros a planos de genocídio.

A raiva aplacada, satisfeita, às vezes conduz à culpa.

A culpa não é fator de reparação como pensam os freudianos, principalmente Melanie Klein com o conceito de culpa reparadora, fator necessário ao crescimento psíquico. Lembram da descrição do split (divisão), feita por Klein, quando o bebê percebe que o 'seio bom' e o 'seio mal' fazem parte do mesmo corpo, que são os seios da mãe?

Os psicodramaticistas (Moreno) valorizam muito a expressão da raiva no contexto terapêutico, usam almofadas para que a violência, a raiva sejam expressas.

Os sistemas políticos  utilizam 'bodes expiatórios' como captadores da 'raiva coletiva' em função de seus próprios interesses (os judeus foram bodes expiatórios no período nazista por exemplo). Assim, o deslocamento, o disfarce, o 'faz de conta' são bem vindos desde que sejam úteis.

Culpa é a maneira, psicologicamente viável, de camuflar seja a impotência, seja a maldade. É melhor, mais útil, mais bonito se sentir culpado do que se sentir impotente, incapaz, alheio ou responsável pelo drama do outro.

A culpa de existir, tão ouvida nas sessões psicoterápicas, remete sempre a questionamentos da impotência de estar no mundo com o outro.

Culpas antigas, usadas para esconder impotência, as vezes geram raiva entre outras coisas. Cuidar do outro, estar com o outro, é impossível para o autorreferenciado. É necessário transformar o outro em objeto, espelho refletor de imagens. A transformação do outro em objeto é um processo violento e raivoso. Pais e mães através de 'faz de conta' conseguem isto, quando o cuidado não é legítimo.

A raiva é uma resultante de processo falhado. Oprimidos, revoltados, quando conseguem ser "alguém na vida, no sistema" extravasam diariamente sua raiva, vivem tensionados, porque têm que manter o conseguido. A intriga, o estar alerta são seus combustíveis para garantir suas posições arduamente conquistadas, onde sinceridade, solidariedade, harmonia e paz não existem.

É espantoso, na raiva, ver o isolamento criado pelo autorreferenciamento, que deixa o indivíduo cego, surdo e inatingível.

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* Conceitos desenvolvidos no meu livro: Psicoterapia Gestaltista, Conceituações 



- O Bode Expiatório - René Girard

verafelicidade@gmail.com

10 comments:

  1. Oi Vera é isso mesmo, Rosélia.

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  2. A raiva é o pior dos sentimentos que uma pessoa pode experimentar, ele acaba, massacra, entretanto ela oferece um prazer imenso que muitas pessoas não revelam e dar uma sensação de satisfação e de poder que muitas pessoas acham que é tudo, mais não é nem um pouco verdadeiro, porque as pessoas não entendem que ser verdadeiro é mais pleno?

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  3. A raiva dá sensação de vitória! Prazer imenso. Esta vitória, este prazer é vivenciado pontualizadamente, sem continuidade, por isso não possibilita contrastes, reflexões, questionamentos. De satisfações em satisfações estrutura-se o vazio. A satisfação equivale ao bem-estar propiciado pela droga, não aponta para nenhuma outra coisa a não ser para a sedação imediata. Consegui responder sua pergunta?

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  4. Vera,

    Só voce para explicar a raiva que tomou conta da "minha cidade".
    "Há algo de podre no reino..."
    So sad.
    Milena

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  5. Imagino, Milena, quão espantada e triste você ficou com os últimos acontecimentos. Bem lembrado o Hamlet, dá para pensar também no "ser ou não ser"; é possível ser oprimido e não ser revoltado? Revolta sempre é uma contribuição deslocada, raivosa do individuo? De qualquer forma, para mim fica claro o oportunismo e a violência da população responsável pelos saques.

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  6. Espantada sim, muito.

    Sobretudo com três fatos:
    1- a inércia e ineficiência da polícia
    2-a rapidez com que a tsunami de violência se alastrou
    3- a reação de alguns amigos ingleses, quase tão violentas- ainda que só com palavras- e raivosas quanto os jovens vândalos.

    Que havia uma camada marginal da sociedade a ponto de rebelar-se estava claro para quem quisesse ver, e as razões, em minha opinião, transcendem a situação sócio-econômica atual, como insistem alguns.

    Não quero ignorar a descendência desses jovens- mas não posso deixar de me lembrar dos bem ingleses e brancos hooligans.

    Quanto a sua pergunta- se é possível ser oprimido sem ser revoltado- penso nos indianos, cubanos, e até mesmo- por que não- os brasileiros...

    São muitas perguntas e poucas respostas.

    O que fica claro para mim é o perigo do coletivo, dos grupos, quando não se respeita o Indivíduo.

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  7. Qualquer controle ultrapassado gera mudança. Quando isso esbarra em determinados nichos sempre surge explosão. Socialmente um sintoma pode ser a violência. Individualmente são os conflitos. Antigamente a estrutura de todas estas manifestações de protesto era sempre baseada em ideologias, tinha uma ordem, tinha um sentido. Atualmente, os protestos surgem de estruturas amassadas geralmente pela droga, pelo consumismo e aí vem o desvario, o sem limite como diziam os gregos: hybris total.

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  8. Straight to the point, as always... ;)

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