Wednesday, July 27

O Inconsciente

É o que não é consciente. Para Freud é a base da vida humana, é a esfera incognoscível de onde emergem os desejos, motivações, medos, criatividade, enfim, um campo misterioso e inacessível que não só compõe a psique humana, mas a fundamenta.

Nas explicações  deterministas, biológicas e causalistas o homem é o somatório de dinâmicas existentes no seu psiquismo.

Para os psicanalistas, através da projeção inconsciente expressamos nossos medos (fobias), resistências,  preferências e desejos, que são então 'percebidos' pela consciência. Percepção é entendida aqui de forma elementarista, ou seja, como elaboração de dados apreendidos pelos sentidos; da mesma maneira, a consciência elabora os dados advindos do inconsciente. O inconsciente é uma instância psíquica e como tal tem existência espacializada, tanto quanto é um constructo responsável pela explicação do comportamento instintivo sexual e afetivo social. É um conceito necessário à explicação psicanalítica sobre o psíquico e é também  um "objeto interior" responsável pelo equilíbrio e desequilíbrio psíquico, emocional. Nas palavras do próprio Freud podemos ver a dificuldade de lidar com este malabarismo de conceitos, a tentativa de objetivar algo que não passa de um constructo, terminando com a afirmação da impossibilidade de compreensão da psique ou de sua incognoscibilidade.

"A Psicanálise nos obriga pois, a afirmar que os processos psíquicos são inconscientes e a comparar sua percepção pela consciência com a percepção do mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Esta comparação nos ajudará ainda a ampliar nossos conhecimentos. A hipótese psicanalítica da atividade psíquica inconsciente constitui de certo modo uma continuacão do animismo, que nos mostrava sempre fiéis imagens de nossa consciência e por outro lado a da retificação feita por Kant da teoria da percepção externa. Do mesmo modo que Kant nos levou a considerar a condicionabilidade subjetiva de nossa percepção e, a não considerá-la idêntica ao percebido incognoscível, convida-nos a psicanálise a não confundir a percepção da consciência com o processo psíquico inconsciente objeto da mesma. Tampouco o psíquico precisa ser, em realidade, tal como o percebemos. Mas, temos que esperar que a retificação da percepção interna não ofereça tantas dificuldades como a da externa e que o objeto interior seja menos incognoscível que o mundo exterior."   Sigmund Freud, Metapsicologia, in Obras Completas, Volumen I. Madrid, Biblioteca Nueva, 1948, p.1045

A Psicanálise é uma teoria pontualizada, segmentada, trabalha com divisões e incoerências bastante fáceis de serem entendidas e reproduzidas. Não é por acaso que alguns de seus conceitos fundamentais cairam no uso popular, viraram senso-comum, como a própria noção de 'inconsciente' e frases como 'Freud explica'.

O inconsciente é um conceito chave da Psicanálise em torno do qual desenvolve-se todo seu corpo teórico e prática terapêutica, tem enorme influência nas várias abordagens psicológicas, mas não passa de um constructo. Inconsciente não é um existente, não é uma instância psíquica que tenha necessariamente que ser considerada por todas as teorias psicológicas.

Para mim, o inconsciente é um mito.*

Tudo o que é explicado pelo inconsciente, pelos instintos, pelos traumas é explicado na Psicoterapia Gestaltista pela percepção, pelas dinâmicas relacionais. Por exemplo: não perceber o próprio problema não é porque o problema seja inconsciente, mas sim porque ele é o fundo estruturante do comportamento e o fundo nunca é percebido enquanto fundo (lei da percepção).

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  * - Sobre a questão do inconsciente, ler neste Blog o artigo 'O Denso e o Sutil' e a entrevista publicada no Jornal 'A Tarde', 1988.


- "A Interpretação dos Sonhos" - Sigmund Freud


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