Wednesday, July 13

Querer não é poder

A instrumentalização do que há de mais legítimo, autêntico e imanente no humano, gera seres contingentes, nos quais a vontade, a motivação, o querer passam a ser vistos e utilizados como alavanca para se alcançar uma meta. O que era próprio, característico é então modificado, processado e destruído, principalmente de duas maneiras: a primeira, quebrando a gestalt, a totalidade ser no mundo, através de divisões criadoras do interno e externo; e a segunda, criando a falta, que surge pelo pedaço arrancado para a instrumentalização, falta essa responsável pelo desejo, vetor de mercado ultra necessário ao homem que se realiza através do consumo.

O que era natural, resultante de um diálogo, resultante da vivência do presente, vivência essa geradora de perspectivas (neste caso, futuro é o que continua o presente) passa a ser artificialismo construido, ponte para realização de metas, ambições que nos impulsionam e alavancam (neste caso, futuro é situação ou coisas a serem atingidas, negação dos limites criadores de opressões e insatisfações). Neste contexto surge o "se propor a", o "lutar para conseguir".

Querer não é poder. Querer é exercer, é fazer, é tão natural quanto andar e respirar. Acentuar a naturalidade do querer não significa reduzi-lo às estruturas biológica e fisiológica. Apenas mostra a continuidade do estar no mundo.

Viver é perceber, é querer, é realizar. Sempre que se quer, se consegue, desde que tudo o que se quer esteja em um contexto, em um raio de ação dentro das próprias possibilidades. Quando se quer o que não se pode, mas sim o que se precisa, o contorcionismo passa a imperar: tem que se transformar necessidades em possibilidades. Isso é esvaziante, desumanizante.

O querer da necessidade é instantâneo, deixa de sê-lo quando algum comprometimento nos agrava, nos adoece: o estar com dificuldade de respirar cria necessidade de sondas, por exemplo; a insônia, a incapacidade de exercer esta coisa tão natural que é o sono, cria demandas, cria vazio, cria desejo. É uma quebra de continuidade fisiológica que necessita de artifícios: máquinas para respirar, drenos, sondas etc. Nessa quebra, nesta imobilização surge o desejo.

Reduzindo o mundo ao próprio corpo, ao organismo, sem o outro diante de si com motivações diferentes, o indivíduo se transforma em uma fábrica de desejos, de quereres e poderes falhados, mas sempre buscados.

A transformação do presente em obstáculo a ser transposto por tudo que nele existe de desagradável e denunciador (problemas de origem, medos, dificuldades - não aceitação) faz com que se queira construir o que é valorizado dentro dos sistemas, começando assim o relacionamento com o próprio corpo, o próprio organismo como se fosse um outro. Essa divisão obriga a mais construções para realização do que se quer. Cria-se o lema, a meta de "querer é poder". Busca-se o corpo construido, bonito, aceitável, por exemplo;  a sexualidade aplacada, os vínculos relacionais ancorados: a família, a comunidade.

Tudo que se quer se consegue, se realiza, não existe descontinuidade, tampouco dificuldade para o ser humano quando ele integra seus limites. As dificuldades, os problemas surgem quando não se aceita limites, quando não se aceita a realidade, isto é, quando o presente é transformado em obstáculo. Isso é possível através de avaliações causadas por divisões. O que ocorre é percebido em outros referenciais não existentes - passados ou futuros - onde são estabelecidos novas percepções criadoras de metas e desejos, por exemplo. O esforço, a dita "força de vontade", o "querer é poder" são estupefacientes, entorpecedores que mantém os sistemas massificadores, desumanizadores.



- "Humano demasiado humano", Friedrich Nietzsche
 
verafelicidade@gmail.com

8 comments:

  1. Não é mesmo, mais a massificação e despersonalização atuais fizeram e fazem os seres humanos a praticamente acharem isto como uma total verdade, de maneira que ser é é simplesmente querer, desejar, obter e só.

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  2. É, Rosélia, isso acontece quando as pessoas não se aceitam. Massificadas e despersonalizadas, resultado do processo de não aceitação, elas se transformam em caixas de ressonância dos sistema, dos padrões alienantes, que tragam, que comem o humano. Por tudo isto, é fundamental o questionamento, a mudança, a psicoterapia. Beijos. Vera

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  3. Além disso Vera quando uma pessoa não se aceita ela também tem resistência a entender este fato e aceitar que não se aceita; como que eu não me aceito? Porque isto ocorre ? Queria comentar que infelizmente o sistema conseguiu tragar um talento, Emmy Whinehouse morreu de provável overdose de drogas, ela só queria cantar, como uma coisa tão linda consegue ser um peso enorme a ponta da artista não suportar, é talvez triste mais poético, Love is a loosing game.

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  4. Rosélia, vários motivos e contextos estruturam a não aceitação. Meu primeiro livro explica isso (Psicoterapia Gestaltista - Conceituações). Você tem o livro? A Amy Winehouse não foi tragada pelo sistema, a rigor, ninguém é tragado pelo sistema ou todos são submetidos pelos sistemas quando se estruturam fundamentalmente como sobreviventes. O sistema valoriza, dá guarida, apoia quem se dedica a servi-lo, a contrapartida disso é a perda de autonomia, perda de motivação geradora de medo, pânicos e depressões. A Amy, vivendo à margem do sistema, sendo um grande representate da contra-cultura, também, como todo marginal a qualquer coisa, existia em função do centro. Querer provar qualquer coisa é uma maneira de ser aceito ainda. Para dizer "não", para contestar, tem que ter autonomia, aceitação de limites, perspectivas próprias de vida, resultantes das integrações de tudo que divide, pontualiza, segmenta. De qualquer forma, a gente sempre lamenta quando vê até onde o desespero pode levar um ser humano. É como Brecht dizia, triste do pais que precisa de heróis, ou como pensamos: triste do ser humano que precisa das drogas (remédio, alcool, cocaina, religião...) como ponte, como trampolim para a vida. Beijos. Vera

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  5. Prezada Vera, Nietzsche no aforismo 39 do livro Humano, demasiado humano, refuta a tese da liberdade inteligível de Schopenhauer. Nietzsche nos fala da inexistência de um bem ou um mal em si e de que ninguém é responsável por suas ações, que julgar é ser injusto. Compreendo isso como aceitar o mundo e os outros como são, aceitar os limites - Na real Nietzsche fala nisso o tempo todo. Mas quero conceituar melhor a questão de assumir a responsabilidade por si mesmo, ou seja, autonomia enquanto ser no mundo.

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  6. Obrigada por seu comentario Augusto, como sempre pertinentes e inteligentes. Faltou a Nietzsche vizualizar o questionamento. Este eh o unico caminho para autonomia e tambem para transformar aceitacao em uma dinamica que possibilita transcender limites e atingir novas dimensoes. Acho Nietzsche perfeito enquanto descricao, percepcao, fenomenologia do humano, se eh que podemos assim falar, mas ele eh elementarista, reducionista pois nao via homem e mundo como uma gestalt, imaginava as polaridades como independentes, dai a prevalencia da vontade, do poder. Gostou do artigo a certeza como engano?

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  7. Entendi Vera, realmente falta essa unidade mundo-homem. Ainda não li o artigo a Certeza como Engano, só o vi postado, mas lerei em breve.

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  8. Deste modo, Augusto, no que falta isto, muda tudo. Abs. Vera

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