Antropomorfizações, manipulações e deslocamentos



Dar nome aos bois, colocar cara nos fatos para sinalizar positividade ou negatividade é uma forma de antropomorfização. Cria signos, histórias, poderes e fraquezas. Quando antropomorfizamos colecionamos figuras, trazendo a motivação de completar o álbum de figurinhas, de fazer o dever de casa a fim de ter senhas para entender o que acontece. Nesse ponto abdicamos de inúmeras possibilidades de conhecimento e ficamos à mercê das informações dos supostos entendidos, comentadores, redes de TV, internet e, infelizmente, de cair nas mãos das fake news.

Só perceber o denso e por meio dele estabelecer significados é uma atitude que exila a possibilidade de perceber implicações, continuidades e contradições. O que aparece, e é, ocupa lugares e tem significados. Pensar assim é uma maneira de simplificar e negar os dados relacionais, transformando-os em posições que tudo explicam. Atingir tais posições permite condições de destaque às coisas e situações, em outras palavras estabelece perfis e, desta forma, características são agregadas. Antropomorfizar situações facilita ordenação e comandos, mas obscurece entendimento.

Dar forma humana a situações, a problemas e a animais é uma constante. Os pets, por exemplo, são entes queridos que têm nome, história, fotos/Instagram, jóias, patrimônio, além de afetos como se fossem filhos, amigos, namorados. Bolsas de valores, Mercados Financeiros “ficam nervosos”: “o mercado entrou em pânico com a alta do dolar” ouvimos frequentemente. “A Saúde Pública no Brasil está doente” é manchete usual nos jornais. Outro exemplo simples, mas oportuno, está no noticiário e nos discursos oficiais sobre a pandemia desses últimos dias, nos quais se diz que “o COVID-19 ameaça, temos que lutar contra ele!". São palavras de ordem que organizam a sociedade e o desenrolar dessa organização ganha corpo e cara, é a antropomorfização: “evite o luto, ‘a morte’, lute contra ele”, “o COVID-19 será por nós destruído”, “estamos em uma guerra contra o Coronavirus”. Tem cara, vira meme, arrebanha multidões. Nesse processo de antropomorfização o vírus pode até ser entendido como mensageiro de mudanças necessárias, de novas posturas e avisos saneadores e educativos, tanto quanto de castigos, da chegada do justiceiro apocalíptico.

O sutil, o relacional não é percebido desde que não se acompanhe a sequência, a continuidade dos processos. Nesse contexto, se obedece ou se desobedece, se caminha às cegas. A antropomorfização estabelece um elo rápido de identificação que facilita palavras de ordem, comandos e adesões momentâneas. 

Nenhuma transformação comportamental é conseguida via obediência cega, é necessário apreensão das contradições e das situações que se deseja transformar.

Radicalizar as contradições por meio de questionamentos é a forma de dinamizar posicionamentos, quebrar antropomorfizações e assim individualizar vivências e relacionamentos. Às vezes assumir e aceitar a impotência é a única forma de enfrentar o cotidiano fragmentado e invadido pelos blocos de informações comprometidas.

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