Esclarecimento




Muitas vezes a tentativa de esclarecer gera o efeito oposto do que se busca: confunde. Essa contradição pode ser explicada pela superposição de contextos. Quando se busca esclarecer uma situação X ou um contexto X, utiliza-se contextos e situações A, B, C etc. Essas superposições fracionam e fragmentam. Recentemente, nas diversas explicações geradas pela situação do COVID-19 somos bombardeados por esclarecimentos que buscam determinados objetivos e assim misturam situações e não expressam o que se passa. Por exemplo: fique em casa (para não contagiar), se cuide (para não adoecer) e não entre em pânico (não se preocupe em saber que não há suficientes recursos e leitos para os inúmeros casos). São informações díspares. Esclarecimento atordoante, obscuro.

Esclarecer é colocar luz, tornar claro, isto é, já se parte de algo escuro, obscuro. A luz no fim do túnel não é o esclarecimento, geralmente é vista como saída. O facho da luz é o caminho. Farol é indicação, orienta ações. Esclarecer, no caso, seria outra coisa, seria dizer que estamos em uma situação na qual a impotência é determinante - estamos em uma pandemia de uma doença relativamente desconhecida para a qual ainda não temos remédios. Aceitar a impotência, os limites que a situação coloca, pode ser esclarecedor. Admitir o escuro é a única maneira de perceber o claro. O esclarecimento é um jogar de luz que, para se manter, necessita continuidade e isso só é conseguido quando se apreende a impotência frente ao limite. No caso do COVID-19, admiti-lo, evitar contatos e consequentemente contaminação, sabendo que essa é uma forma de convivência que marca nossa impotência diante do mesmo, é a única maneira válida de estar esclarecido.

Esclarecimentos, quando contextualizados no não observado, no não percebido, no que não se sabe, no escuro geram enganos, decepções e traições. Psicologicamente, a crença no outro enquanto confiança de ser amado, quando vivenciada como esclarecimento de tudo que ocorre - a priori que tudo abrange - gera certeza que encobre o obscuro, o mundo do engano e da decepção. Apenas quando existe a crença no outro sem sombras nem escuros, é que existe certeza dada pela convivência e participação, únicas formas de esclarecimento, pois não cobrem obscuros. É clássico o “confie em mim” quando se quer enganar e usar a boa fé e boa vontade do outro. O que se diz nem sempre retrata o que acontece. A palavra, os textos - a comunicação - englobam tantos contextos, posicionamentos e interesses que a explicação de A obscurece a percepção de B, que por sua vez ilumina o que está acontecendo em C. Enfim, diante de esclarecimentos constantes é necessária a atitude fundamental da admissão da impotência: seguir o sugerido apenas como única ação possível que se esgota em si mesma.

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