Espontaneidade comprometida



Transformar vivências e relacionamentos em instrumento para realização de desejos e objetivos acaba com a espontaneidade do encontro, do estar com o outro. Instalado esse processo, artificialidade é o que passa a determinar a forma de se comportar e se relacionar. Os clichês, as regras de conduta, o “politicamente correto”, a sensatez e parâmetros legais (judiciais), o que se pode ou não fazer, o que é certo, o que é errado passam a ser os determinantes do comportamento. Impedida a espontaneidade, fica o convencional, o arbitrado em função da boa imagem e do que se julga ser o bom ou mal padrão comportamental. E assim, independente do que se utiliza, o que acontece é o esvaziamento dos relacionamentos: o outro passa a ser trash, um depósito de boas e más intenções - apenas um referencial que acumula e amealha atitudes. Não se sabe mais como agir, tudo tem que ser filtrado observado e julgado pelos filtros do que vale à pena ser feito. Esse processo de imagens e resultados é a solução que exila o outro, exila o vivo do contato, do relacionamento. Vivendo entre regras, barreiras, limites e padrões que atendem critérios de adequação/inadequação, adaptação/inadaptação, o ser humano se coisifica, se desumaniza. 

Vida é dinâmica, não é um encaixe, não é artifício, não tem regra. Vida é processo, seus referenciais situacionais pouco significam enquanto individualidade. Fabricar instrumentos é conseguir operar bem, mas é uma extensão artificial das próprias necessidades e possibilidades. Queda livre no espaço pode gerar campos gravitacionais que ordenam situações bastante artificiais. O dado bruto, o esboço, o rascunho, ainda são os que melhor configuram o humano. Aprisionar o indivíduo em malhas sociais, familiares e políticas é neutralizá-lo enquanto individualidade. As situações são apenas contextos, jamais expressam individualidade ou quando o fazem é por ter homogeneizado os indivíduos a seus padrões configurantes. É como se percebêssemos o corpo vestido como sinônimo da roupa vestida.

O artefato, o que é feito, pressupõe fazedores, tanto quanto objetivos do fazer. Se o propósito é operosidade e utilidade, qualquer robô ou inteligência artificial pode desempenhar funções. Aquilo que é feito e para o que é feito - o artefato - pressupõe criação que se não estiver ancorada em humanidade, é artificialidade, um engenho aniquilador do humano. Artifício é o engenho responsável pela aplicação e negação das possibilidades humanas. Essa dicotomia, quando apreendida, permite a ultrapassagem de limites e amplia possibilidades. Quando não percebida ela aprisiona os indivíduos em jaulas, entre poder e não poder, criando autômatos seguidores de ordens propostas.

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