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Solidão

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Estar só, sem alguém para namorar, para conversar é problemático para muitas pessoas. Imediatamente é desencadeado o processo de procurar alguém ou de manter um relacionamento que se considera desagradável. Poucos se questionam sobre o que aconteceu ou acontece para que se fique só. Se o outro é percebido e usado como objeto, sobrevive-se, aliena-se, coisifica-se. A não aceitação estrutura deslocamentos, metas criadoras de vazio. Este vazio - carência afetiva como necessidade de relacionamento - gera demandas, faltas, fome que tem de ser saciada. Algumas avaliações são nítidas neste processo: tudo foi conseguido, a vida está estabilizada, falta apenas um relacionamento que gere prazer ou, falta a realização de desejos e demandas ou, precisa de ajuda, é necessário um relacionamento, alguém participando, ajudando ou ainda, sozinho o despropósito é completo, urge um relacionamento. Nestes casos o outro é sempre um objeto, é necessário ou é suporte. Esta visão coisificadora d...

Vale o que se tem - Vitória de Pirro

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É muito comum ouvir explicações acerca da marginalidade, do uso de drogas, da violência como sendo causadas pela pobreza, pelas condições econômicas e educacionais sub-humanas ou precárias. As implicações desta explicação, desta visão é que "ter" é o estruturante, o constituinte do humano. É verdade sim, se apenas considerarmos o homem como um organismo. Melhorar condições econômicas virou lema. As pessoas querem ter; as que têm querem mostrar que têm. Tudo gira em torno do que se conseguiu: riqueza amealhada ou melhoria das condições de sobrevivência. As próprias reivindicações são contingentes, problemas geradores de novos problemas. Valorizar o ter sem questionar a coisificação, a alienação que isto implica, leva ao hiperconsumo, à sociedade do descartável. Somos escravos do que consumimos e produzimos, não faz diferença vender ou comprar, o horizonte temático é o mesmo: ter, mostrar, aparentar. A educação também foi transformada em bem de consumo: o...

Ideologia

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É um sistema de crenças e explicações que orientam o viver cotidiano. O século XX foi o século da "guerra fria"; ser de "direita" ou ser de "esquerda" era o polarizante principal dos movimentos políticos, sociais e até mesmo artísticos, culturais. Em 1917, com o triunfo da revolução soviética, uma nova ordem é inaugurada. A visão religiosa, os conceitos de divino, deixam de ser a explicação dominante dos processos sociais e econômicos. Não é a vontade de deus que estabelece as diferenças socio-econômicas, não é por pecado que se é pobre, mas sim por ser explorado. Esta nova percepção liberta: de vítima ou castigado, o homem  passa a se perceber oprimido. Luta ou se acomoda, se organiza ou é organizado. Manter o sistema, explorar ou mudar é a nova ordem inscrita diante dele. Guerra civil espanhola, libertação das colônias ainda existentes, declaração dos direitos humanos, divisões arbitrárias do mundo pós-guerra, tudo isto vai constituir um no...

Simples e complexo

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Perceber o simples decorre da neutralização de acréscimos e atalhos geradores de distorções, de dificuldades. Perceber a simplicidade é quase impossível; é muito difícil pois o contexto, as diversas variáveis, as inúmeras circunstâncias camuflam e obscurecem. Não é uma questão de significado, é uma questão de aposições e justaposições. O Princípio de Ockham * diz que tudo sempre tende para o mais simples, cientistas afirmam que a natureza é parcimoniosa; essas são diretrizes apropriadas quando constatamos processos contínuos. Tudo que é aderente é agregado. Estes agregados são também suportes, as vezes ocultadores, do que está acontecendo. Ao se deter no que ocorre, sem objetivos nem explicações, consegue-se perceber o que está acontecendo. Ao querer incluir o que está acontecendo em alguma função ou propósito, atribui-se valores, novos agregados, situações extras. Tudo fica muito complexo. Precisa-se de mais informação, verificação e garantias para saber se o que se percebe é o...

Atitude

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A psicologia do sec. XIX costumava dividir o homem em intelecto, atividade e vontade (emoção). Atividade se referia a gestos, comportamento motor, significando atitudes. Hoje em dia atitude é um comportamento que frequentemente se exerce, expressando a própria estrutura individual, psicológica, daí ela caracterizar a visão que se tem do mundo, de si mesmo e do outro. Em Psicoterapia Gestaltista, atitude é sinônimo de motivação; para nós também a motivação está sempre no contexto relacional; a motivação não é criada, construida "interiormente" e projetada "exteriormente" como pensam os psicanalistas,  os terapeutas da gestalt therapy e outros. Os gestaltistas, ao discutirem com os behavioristas, argumentavam que se aprendia independente das necessidades ( drives) estarem ou não saciadas. O requiredness , o carater de demanda explicado por Koffka, mostra como o ambiente, a realidade, cria a motivação (os publicitários bem sabem di...

Compromisso

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"Os impasses existenciais decorrentes de perceber o mundo, o outro como figura e colocar-se como fundo determinante desta percepção, este autorreferenciamento compromete a existência humana. Setoriza e maquiniza o ser humano, levando-o à corrida desenfreada da manutenção, do querer ser alguma coisa válida, aceita, reconhecida, considerada socialmente. Esta busca-luta, esta alienação, compromete. Surgem os padrões, normas e modelos de comportamento: as metas. Empenhado nesta conquista o homem desumaniza-se, passa a ser reconhecido pelo que o representa, por seus símbolos: carro, roupa, status, virórias, fracassos, sucessos, insucessos. O comprometimento com os rótulos cria a autofagia ou despersonalização, o vazio." * São vários os problemas que surgem da despersonalização, da alienação e um deles é a manutenção, o compromisso. Estar comprometido é índice de alienação, de divisão, fragmentação. Comprometer-se é estabelecer território, marcar presença e fazer acertos...

Sobrevivente não questiona

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A imanência do ser humano é biológica. " Essa estrutura biológica está em um lugar, em um tempo com outros seres. Estabelecemos relações percebendo, conhecendo. Perceber é conhecer, perceber que se percebe é categorizar. Essa categorização é o estar consciente de, é o saber que sabe ." * No mundo da sobrevivência tudo converge para a satisfação de necessidades, de desejos. Os julgamentos e valores, neste nível, são binários: bom e ruim, satisfatório e insatisfatório, lucro e prejuízo, eu e outro. A pregnância da imanência biológica desumaniza, não há antítese, consequentemente a dinâmica, a dialética do processo é transformada em paralelas: bom ou ruim, igual ou diferente. Psicologicamente, as vivências são desenvolvidas através de divisões paradoxais: o que apoia oprime, o marido que espanca é o que sustenta, o patrão que explora é o que permite a sobrevivência da família, por exemplo. Estas contradições não possibilitam antíteses, não permitem resultantes pois são med...

Adaptação e mudança - aceitação da não aceitação

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Geralmente o adaptado é o posicionado, o que renunciou a qualquer mudança para manter o que conseguiu. Assim vivendo ele é um mediano, é também o que não se aceita medíocre, adaptado. Surgem sintomas e deslocamentos a fim de criar um movimento, uma dinâmica - ainda que ilusória - diante de seus posicionamentos. Movimentos pendulares, ao longo do tempo dividem e fragmentam, estruturando não aceitação de ser o que é, de ter a vida que tem. No processo terapêutico, ao perceber a não aceitação, suas estruturas e implicações, surge a aceitação da não aceitação. É um momento muito importante, é a quebra da adaptação, do posicionamento e o início da mudança. Tudo é novo, diferente, as metas são transformadas em perspectivas, o que gerava vergonha e medo passa a ser questionante de responsabilidade, de participação; inicia-se a mudança responsável pela aceitação. Quando se está preso à idéia de que toda mudança decorre de luta, revolta e desadaptação responsáveis pela transformação social...

Por que se distorce? Por que se unilateraliza?

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Ilhados na sobrevivência os seres humanos percebem o que está em volta de si através de valores em função da satisfação ou insatisfação de suas necessidades (demandas). Uma das resultantes imediatas deste processo é a transformação do outro em instrumento, ferramenta, meio para satisfazer desejos (deseja-se o que falta) e necessidades (é o que permite sobreviver). O outro passa a ser caçado e utilizado para apoio e prazer. A distorção é resultante da manutenção de posicionamentos, da quebra da dinâmica relacional do estar no mundo. Inicia-se assim, um processo que se caracteriza por buscar metas, por autorreferenciamento etc enfim, distorção perceptiva, unilateralização. Neste contexto, tudo que se percebe, consequentemente o que se pensa - pensamento é prolongamento da percepção - é binário, mecânico, limitado: é bom? É ruim? Serve? Não serve? Este referencial, esta matriz verifica e avalia tudo que ocorre. Qualquer situação nova vai ser assim examinada. Nada é feito ao acas...

O oposto como semelhante

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O semelhante é o igual, o oposto é o diferente. Como entender oposto como semelhante, como sair deste antagonismo, desta divisão? As situações estão colocadas como paralelas, não há possibilidade de antítese, de confronto; existe assim a impossibilidade de surgir síntese, no caso, comparação dessa contradição, quase non sense . Opostos são contrários, são polos de uma mesma unidade. Só através da mediação podemos categorizar a oposição. Opostos pela condição de riqueza e pobreza, mas semelhantes enquanto seres humanos, por exemplo, é elucidativo. Quando se fala, por exemplo, em o ser e o mundo, em opostos ou antagônicos, gera-se sempre continuidade, gera-se semelhança quando é percebida a mediação que os dividiu, que os transformou em opostos. Ir além das parcializações, dos posicionamentos, possibilita perceber o outro, sua humanidade. Entrincheirados nas classificações sociais, econômicas, nos tipos físicos, nos critérios estéticos, transformamos as aparências, as r...

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