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Ganância consentida

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Skinner, criador do Condicionamento Operante ( Operant Conditioning ), dizia: “não tente se modificar, modifique seu ambiente” . Aparentemente esta ideia - um dos pilares da cultura norte americana - valida e incentiva o desbravamento, a modificação de tudo que atrapalha, motivando para o confronto e realização social, sendo um dos lemas do self-made man , do indivíduo socialmente realizado. Ao se atribuir condição imutável e perfeita, achando que o passível de mudança é o ambiente, o outro, o além de si, alicerça-se autorreferenciamento, metas, medos e ganâncias. É um engano pensar que realização resulta de impôr-se sobre o ambiente, de controlá-lo e adequá-lo aos próprios interesses e objetivos empreendedores. O empreendedorismo não pode ser um propósito, ele deve surgir do constante diálogo, do questionamento entre o indivíduo e o mundo. Só é possível enfrentar e mudar o mundo, quando há questionamento. O Condicionamento Operante - seus desdobramentos e alicerces sociais -...

Confusão - Perversão

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Quebrar a ordem, a congruência e as diferenças existentes é típico das perversões. Confusão resulta de ambiguidade. Não perceber o que está diante em seu próprio contexto estruturante leva às distorções perceptivas, estruturadas principalmente no autorreferenciamento. Frequentemente estas distorções criam ambiguidades, confusões na distinção de dados. As religiões, as psicoterapias, a psiquiatria, ao classificar, procuram resolver estas ambiguidades e estabelecer códigos e normas que permitam diferenciar comportamentos, entretanto, as perversões sempre ultrapassam estes referenciais ao remeter para o indivíduo que transgride estas normas. Que monstruosidade é esta? É uma simples anomalia resultante de condições adversas? Como pode um ser humano seviciar, utilizar para desejos eróticos, o próprio filho? Existem vários mecanismos, socialmente validados, para decidir o que pode ser considerado perversão. Interessante o que nos conta Mary Douglas, citando a obra de Evans-Pritchar...

Educação

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A educação é necessária para organizar, sistematizar e desenvolver potencialidades, tanto quanto para “polir arestas”, possibilitando encaixes sociais e civilizatórios. Na reversibilidade dos processos, frequentemente só se consegue isso via matrizes sistêmicas, artefatos que se constituem em formas, receptáculos de contenção que modulam, contêm e reprimem dispersões idiossincráticas e anômalas. Contradições não resolvidas, cerceadas pelos mecanismos educacionais transformam propostas individualizantes em regras massificadas. Hoje em dia, por exemplo, o “mens sana in corpore sano” , os ideais hipocráticos de saúde e estética, as transcendências preocupadas com equilíbrio e o bastar-se a si mesmo do Yoga, as ideias de autonomia e as descobertas psicoterápicas foram transformadas em kits de sobrevivência, moduladores midiáticos e comportamentais, nos quais o como fazer pragmático impera. Educados para sobreviver e conseguir melhor status econômico e poder de manipulação, somo...

Aderência indicando imanência

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Toda questão de sintomas, significados e indicações recai neste tópico: aderência como o que aparece (o que é percebido) e imanência como o que não aparece (o que não é percebido). A persistência da idéia de dentro e fora leva à associação de aderente com externo e imanente com interno. Este a priori interfere na percepção, na constatação e cria distorções perceptivas. Contextualizando-se na reversibilidade dos processos, na dinâmica do existente, não há distinção entre interno/externo. Ao perceber um ser humano, não percebemos seu fígado, seu cérebro, salvo se estivermos em aulas de anatomia, fisiologia ou em centros cirúrgicos, onde o fígado, o cérebro são os percebidos e seus possuidores, os seres humanos, tornam-se referenciais remotos, não determinantes do aqui e agora cirúrgico, por exemplo. A reversibilidade perceptiva privilegia, tanto quanto relega ao infinito, algumas constantes caracterizadoras do que ocorre; não considerar este processo cria divisões, unilateralid...

Resumos

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Resumos facilitam a globalização ou instalam fragmentação, manipulação, poder. Todo "faça você mesmo" , "pronto para usar” , “não desista nunca” funciona como incentivo para pular etapas, para entender processos como fins úteis, pontes para transpor descontinuidades e vazios. A importância da ligação, dos resumos, geralmente se explica por vivências funcionais ditadas por outras estruturas e motivações diferentes das configuradas como impasses. Resumos de processos dedicados à ampliação de necessidades, habilidades e pontuações são responsáveis pela Babel relacional que vai desde a exaltação das qualidades do novo detergente, até às viradas de opinião graças às habilidades de pessoas demagógicas, as pontuações destacadas pelos selos de qualidade, o IBOPE, as vitórias e resultados conseguidos. Esta manipulação dos processos, estes resumos, criam clichês, estereótipos, geram divisões, preconceitos, fragmentando o processo vital e social. Referências de bom, de r...

Propaganda

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Ao longo das épocas, o que se buscou através dos reclames do século retrasado, da propaganda do século passado e da mídia atual foi criar motivações, transformando-as em ferramenta de captação necessária para manutenção e ampliação de mercados (capital - economia), de ideologias (política), assim como criação de paraísos alcançáveis pelo sacrifício, esforço e catequese (religião). Toda vez que a motivação é transformada em vetor, toda vez que ela é desviada para alguma direção alheia aos seus estruturantes, ela é solidificada como instrumento de manobra, perde portanto, a função motivacional - intrinsecamente curiosa, questionante -, virando caminho, trilha para benefício, alívio e satisfação. Imaginemos se no mundo, nas telinhas e telonas, Facebook, Twitter e outras redes, o que aparecesse fossem questionamentos, toques denunciantes do que se escondeu e arrumou? Em outras palavras, imaginemos se em lugar do melhor perfume, cerveja ou iogurte, tivéssemos embates sobre desloca...

Reflexões sobre o medo

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Datas e eventos às vezes são referenciais, marcos que levam a reflexões e constatações. A vitória da Alemanha neste Mundial de futebol de 2014, me lembrou que setenta anos atrás - 1944 - a guerra matava e destruía; a monstruosidade dirigida pelo partido nazista alemão ceifava vidas e exercia bárbara crueldade contra milhões de pessoas. Os objetivos genocidas eram abrigados pelo mesmo povo que hoje celebra a vitória e confraterniza no Mundial. Derrotado e extirpado o nazismo, foi possível recuperação e superação da destruição e medo, o horror foi superado pelo povo alemão anteriormente cooptado. Vítimas de violência, de agressões físicas e morais, desenvolvem medos que podem ser superados de maneiras diversas, seja através do questionamento, seja aumentando o desejo de segurança, de proteção a todo custo, mesmo que destruindo o que ameaça. Inseguros e medrosos são manipuláveis, presas fáceis de ideologias fascistas como observamos tanto na Alemanha dos anos trinta e quarenta, ...

Sistema de referência

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Perceber é uma relação, um comportamento decorrente de relações estruturais que configuram um Fundo (contexto) e um dado, uma situação (Figura). As decorrentes e contínuas percepções são os contextos que possibilitam constatação (percepção da percepção) que é o conhecimento, criando valores e significados e também classificação e nomeação do percebido. Os sistemas de referência são formados desde os primeiros anos de vida, tanto quanto as estruturas de aceitação ou de não aceitação do outro, dos limites, de si mesmo. Os sistemas de referência são modais por excelência, desde que estão também imersos em horizontes culturais, sociais, econômicos. Os elos de fixação desta impermanente e anônima atmosfera são mantidos pelo outro. Estar com o outro, ser por ele criado, educado é o que permite constatar e integrar ou desconstruir sistemas de referência: o próprio corpo aceito ou não, assim como as referências culturais e sociais. Através do outro, geralmente pai e mãe, aprendemos u...

Natureza

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Spinoza dizia que a natureza é Deus ou Deus é a natureza. Com esta afirmação, ele situou o clássico dualismo entre corpo e alma de Descartes - denso e sutil - em outra dimensão; ultrapassou o dualismo cartesiano, mas, gerou outro: natureza incriada e natureza criada ou infinita e finita ou metafísica e objetiva. Natureza, em Spinoza, é o que está aí e existe por si mesmo, é a divindade infinita, eterna. Pensar natureza como prévio é o que possibilita o dualismo criado/incriado (originado/Deus) e as repercussões destas colocações são inúmeras nas metodologias científicas. Esta idéia de natural como não criado foi responsável pelo estabelecimento de conceitos reducionistas e arbitrários dentro da psicologia: talento, dom, instinto, por exemplo. Freud, como homem do século XIX, herdeiro de tradições biológicas mecanicistas do século XVIII, só podia pensar o homem (sua humanidade, referencial psicológico) como algo complexo, mágico, mas sempre determinado e estabelecido por condições...

Gratidão

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Vivências de incontáveis desconsiderações, abusos e submissões criam posicionamentos onde se percebe apenas o que satisfaz ou o que frustra. Nesta contabilidade, tudo é avaliado pelo resultado. O ter que atingir objetivos, transforma o outro em meio para um fim. Não existe o outro, desde que ele foi transformado em objeto útil/inútil. Esta coisificação do outro, gerada pela atitude sobrevivente norteada pela satisfação de necessidades, cria seres isolados em sua caminhada para realização de propósitos: não há gratidão, não há transcendência, apenas certezas resultantes de ter utilizado adequadamente tudo o que estava à mão. Voltar-se para o outro é impossível dentro do autorreferenciamento contingente; quando se percebe o outro, se percebe como algo diferente de si mesmo, como alguém que, se não for aplacado, ameaça. Este processo de cooptação e barganha, cria apoios, entraves, guindastes ou armadilhas. Transformar o outro em objeto de satisfação impede gratidão, pois os resultad...

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