Alavanca para o sucesso



É cada dia mais frequente se ouvir falar em educação como remédio para os males sociais, panaceia que especialistas e leigos consideram como instrumento que irá resolver desigualdades sociais, inserção em mercados de trabalho e enfrentamento de preconceitos diversos principalmente os raciais. Por mais que acontecimentos contradigam essa abordagem - com a vigência do racismo e o vigor dos outros preconceitos, com a manutenção das estruturas de poder e privilégios - a ladainha persiste: “se eu tivesse um diploma universitário, eu estaria bem empregado”, “a educação é a única saída” etc. Apesar de todas as evidências nas quais fica claro que o processo educativo foi reduzido a diplomas e titulações, a educação continua sendo proposta como a grande solução, pois nela ancoram todos os índices de sucesso.

A educação - que é um processo de aquisição de habilidades, de ampliação de referenciais cognitivos e comunicativos - foi transformada em instrumento, em alavanca para realização de condições que permitam sobreviver e realizar sonhos. Ter o título universitário, conseguir passar em concursos habilita pessoas para realizar desejos e propósitos. O processo educativo, quando é assim transformado em alavanca, perde finalidade. É a coisificação instrumental que permite futuro e nega o presente. É a maneira de manter o rebanho bem sucedido, que embora numericamente inferior aos existentes desprivilegiados e famintos, passa a ser o portador de verdades, o guardião de regras que apenas aumentam desigualdades, medo e dificuldades. Sair do “pé descalço”, para o “pé calçado” nada muda. Basta lembrar o desejo dos ex-escravos que quando conseguiram se calçar, mesmo assim, recebiam as chibatadas de terceiros, ou seja, a falta de oportunidades.

Educação é um processo fundamentalmente motivacional que mantém e restaura a curiosidade do estar no mundo. Abre perspectivas, cria demandas e questionamentos. Quando transformada em alavanca para o sucesso, para manter desejos e propósitos se nega enquanto possibilidade, e assim cria batalhões de apaziguados participantes, empenhados na manutenção do conseguido. 
 
Quando o processo educacional é voltado para mudar e criar novas realidades, ele transforma contingências em possibilidades. Só assim a educação amplia. Quando ela se restringe às categorias de manutenção e sacralização do adquirido conduz ao autoritarismo, discriminação, medo e alienação, deixando de ser um instrumento de transformação, apenas mantendo ilusões e privilégios.

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