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Mostrando postagens de 2021

Sutilezas

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    Sutilezas, esses amorfos, se tornam densos quando contextualizados. Receber o café frio ou observar os olhos levemente arregalados podem exprimir o cansaço do estar junto, do nada mais ter que motive. A manutenção, o cansaço negado podem ser gritados por sutilezas. É a relação entre o que ocorre, como, quando e onde ocorre, que tudo explicita. Frequentemente temos que contextualizar situações em outros acontecimentos que encaixam muitas coisas - como acontece nas brigas reais - para entender início, meio e fim de processos. Gritos de agonia ou de prazer nada expressam isoladamente. O isolamento, a percepção descontextualizada transforma em ruídos os sons mais diversos. As formas sutis de amor ou de ódio são sempre manifestadas, embora nem sempre percebidas. A sutileza é o qualitativo que tudo atravessa, embora geralmente só signifique enquanto quantidade expressa. Nesse sentido, a sutileza só aparece quando se quantifica e nesse momento ela se nega. Explicar a piada, repetir a lada

Insight não é comprometimento

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  Algumas vivências podem ser atrapalhadas, confundidas pela memória. O presente contextualizado no presente permite a percepção do que está se dando, acontecendo enquanto situação que se dá, que ocorre. Quando o presente é contextualizado no passado, esse fato, esse contexto interfere na percepção do presente. Cria semelhança ou dessemelhança buscadas/encontradas. Esse processo quebra o vivenciado enquanto situação que se dá, que ocorre. Constatação acontece por estar presente, nunca antes ou depois. É necessário não deixar a memória interferir para que não surjam comparações que se misturam no que está ocorrendo. Estar totalmente no presente é se permitir a apreensão do que ocorre em toda sua beleza, em todo o seu horror, no que esvazia, no que integra. Constatar é definidor, é ampliador de limites e de possibilidades. É caminho, é o novo que resplandece. É o insight. Outro artigo meu sobre este tema: " Constatação - Impasse e movimento " (https://wsimag.com/pt/bem-estar/19

Ressignificações

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  Novos significados só são possíveis quando surgem novos contextos estruturantes. Trabalhar o significado simbólico e o lingüístico exige sempre contextualizações para que haja comparação dos mesmos. Símbolos estabelecidos, linguagem escrita, falada ou desenhada são sempre fatores de discriminação seja para entender ou conhecer (discriminar), seja para separar, excluir, isolar. Recortes parcializadores criam preconceitos. A história está cheia de inúmeros exemplos, dos mais habituais aos mais esdrúxulos como o vermelho da beterraba na sopa borsch da Rússia ressignificado e entendido como sangue de crianças na sopa; ressignificação para induzir o horror aos comunistas, horror considerado fundamental e necessário na guerra fria. Em alguns casos, ressignificar nada mais é que "puxar brasa para sua sardinha", isto é: transpor formas, e isso é sempre gerador de destruição se não forem mantidas as coerências significativas das formas. Nesse sentido falta às ciências humanas, tant

Metamorfoses

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  Quando se perde referenciais de convivência pela justaposição de finalidades, outros caminhos são gerados. Essa transformação é criadora. É como a fusão de qualidades: juntar amarelo com azul cria o verde. A nova cor, a nova forma, a nova ordem é integradora de semelhanças e dessemelhanças. Observa-se sempre uma parte em comum: o básico estruturante que permite integração. Não havendo essa estrutura, ou seja, havendo fragmentação, não pode surgir integração. O todo não é a soma de suas partes. Aparências na justaposição são evidentes. Isso obviamente tanto se aplica à individualidade humana, quanto aos agrupamentos humanos. A despersonalização, a inautenticidade expressam sobreposições, conveniências e problemas. Associações com esses referenciais são híbridos, máquinas de guerra, máquinas para relacionamento, exercício de finalidades mas de núcleo vazio, fragmentos dissociados. Seres humanos quando se aceitam, coesos em seu exercício de possibilidades, ultrapassam necessidades e con

Sem medir, sem contar

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  Não avaliar, não pesar, estar com o outro, com o que acontece independente da avaliação, da verificação de valores e vantagens é humanizador. Nos relacionamentos humanos acumular, ter o pedaço maior ou o que avalia como o melhor, nada significa pois seis é um acréscimo de uns, de dois etc. a quantidade não expressa a felicidade, não a esgota, nem define. Perceber o outro, o mundo por meio de limites valorativos estabelece preconceitos. É essa discriminação que alija o outro. É ela que cria conceitos cruéis de inferior, superior, melhor, pior. Atualmente, o dinheiro e o poder são os padrões métricos do ter. As pessoas são avaliadas, são consideradas boas, ruins, superiores, inferiores a depender do que têm. O ser foi diluído, encoberto, transformado pelo ter, essa velha constatação - ser x ter - diariamente assume novas formas desumanizadoras. Avaliar é a chave mestra que tudo codifica e destrói. Nessa codificação existem as pessoas de bem (ricas), as de mal (pobres), as confiáveis (d

Estabilidade

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  Qualquer situação é passível de estabilizar ou desestabilizar. As diferenças decorrem das participações. Ao conviver com o que infelicita e corrompe se consegue dizer não ou se acomodar. Ao negar, contradizer o que aliena e infelicita se estabelece negação e contradição responsáveis por nova direção. Nos relacionamentos familiares e profissionais isso é constante. Não questionar, se omitir, se acomodar em função de medos, vantagens, desvantagens ou desajuste oprime. Cada situação que causa estranheza, deve ser questionada. Só assim percebemos que é melhor mudá-las ou que é melhor  transformar nossas atitudes em relação às mesmas. Odiar a casa que se mora, desejar outro chefe, querer amigos mais prestativos são indicadores de não aceitação e metas frustradas. Perceber as próprias insatisfações e frustrações amplia as possibilidades de se sentir melhor com o que está diante de si, tanto quanto cria a urgência de transformá-las. O bem-estar, a tranquilidade dependem da estabilidade. Ess

Aceitação do que ocorre

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  Aceitar o que ocorre, mesmo quando limitador e opressivo, é o que permite ultrapassar antagonismos. Aceitar é o ponto de apoio, o fulcro a partir do qual as situações são modificadas, transformadas. Situações cruéis e extremas, tais como descobrir que o amigo é o inimigo que ameaça, que o pai é o violentador, ou que é a própria mãe quem propicia sua venda ao próximo caminhoneiro por exemplo, tais situações fazem com que se mude de atitude quando se aceita a percepção de que não existe mais o amigo, o pai, a mãe. O que existe são lobos em pele de ovelha, que despistam suas ações perversas na corrida para conseguir seus objetivos. Nessa percepção, o chão, a terra desabam. Essa mudança, a aceitação do que ocorre, perceber que o pai é o monstro que ameaça (no exemplo acima) permite que se lute, fuja, denuncie, enfim, que seja tomada outra atitude. Enfrentar a crueldade do outro é possibilitador de mudança e o enfrentamento só é possível quando se aceita a realidade percebida. Se acomodar

Nada além do que se vivencia

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  Nada além do que se vivencia, essa aparente pontualização, nada mais é que a total vivência de estar no presente contextualizado no próprio presente. A vivência do presente contextualizada no presente é característica da infância feliz (cada vez mais inexistente, pois invadida pelas regras e normas de utilidades, vantagens e necessidades). É também frequente, embora fugaz, nas vivências afetivas nas quais, pela intimidade, pelo prazer se é cercado por um turbilhão circunstancializador. São cada vez mais raras essas vivências, pois as expectativas de resultado, o medo de ser rejeitado, tanto quanto os anseios de conquistas interferem nas vivências do presente. Criam ilhas de expectativas e os recursos apelativos de performances e imagens voltadas para conseguir realizações geram simulacros, escondendo o que se é e revelando outros aspectos considerados aceitáveis e irreprováveis. Sem vivenciar o presente contextualizado no presente são construídas paredes protetoras, que são também as

Surpresa e cálculos

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  A percepção do que existe, a vivência do presente se torna exequível quando vivenciamos o que está diante de nós como o que está diante de nós. Esse se despir de desejos e significados faz apreender o que se dá, o que acontece enquanto ocorrência. Estar diante do outro, do além de mim, do que me continua, quebra aprisionamentos inclusive os de catalogação e sistematização. É a voragem - essa sucessão -, fluxo de vivências que dá continuidade ao que acontece, ou seja, ao que está acontecendo independente do que significa. Essa continuidade de vivências tudo muda. Via de regra acontece o que pode acontecer e assim nada causa surpresa, nem sai do lugar. As utilidades/inutilidades são os legalizadores do que acontece, do que pode ou não deve acontecer. Atualmente, até a própria morte ou a dos outros é calculada, estabelecida ou evitada. Inúmeras proteções e neutralizações são criadas até mesmo a ideia de morte necessária, utilidade descoberta para evitar desgastes, privações e tristeza.

Apreensão da totalidade

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Ultrapassar os limites da reação mecânica - reflexo dos e aos estímulos desencadeadores de respostas - permite ao indivíduo globalizar os acontecimentos, os fenômenos que ocorrem. A vivência do presente contextualizada no próprio presente, o estar inteiro e voltado para o que ocorre é o que possibilita essa vivência. Quando se está buscando atingir resultados e conclusões, tudo que acontece é conduzido para tais objetivos; sequer se percebe a totalidade das ocorrências, pois elas são segmentadas e utilizadas para o objetivo que se deseja. É a vivência fragmentada na qual a parcialização se transforma em impedimento para a percepção de totalidades. Na esfera individual, o querer realizar desejos é sempre obscurecedor, turva detalhes, deforma características. São clássicos os exemplos entre mestres e discípulos, como o de mostrar a lua para o aprendiz e ter como percepção pregnante por parte dele, o dedo que aponta e não a lua; é a transformação da parte/todo que aliena e exila possibili

O em si

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Kant afirmava que a coisa-em-si jamais poderia ser conhecida, pois não há um absoluto configurador. Para ele, é sempre por meio de outros conceitos, situações ou pessoas que a coisa-em-si é conhecida. Nem sempre os psicólogos pensam nos fundamentos epistemológicos das questões com as quais estão lidando. Para mim, entretanto, a abordagem epistemológica se impõe ao lidar com as estruturas perceptivas na própria prática terapêutica. Entendo que só por meio dos estudos da percepção é possível configurar o Ser, o Eu, o Si mesmo, tanto quanto o medo e a esperança, por exemplo. Não há o em si, não há a coisa-em-si, não há o absoluto, tudo que existe, existe enquanto relação. O estar diante, o estar com, o pensar sobre, o perceber o que ocorre são os dados relacionais que configuram e contextualizam. Não existe o absoluto, ou, o único absoluto é o relativo. Só há sombra se houver luz, morte caso haja vida, enfim, os opostos se continuam, gerando unidades polarizadoras. Os polos são aspectos d

Problemáticas humanas - questões estruturantes VI

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  Ter autonomia é ser gerido, regulado e orientado pelos próprios referenciais de sustentação. Essa é a base relacional, processual que permite vivenciar o que acontece enquanto esclarecimento. É o diálogo com o que se dá, com o que ocorre e que delineia direção e motivação. A globalização desse processo  implica na manutenção da unidade individualizada, fazendo com que não se vivencie o que ocorre em função de referenciais passados ou perspectivas futuras. Estar contido, limitado ao presente é estar sendo esgotado e situado no que acontece. Essa totalização de demandas, de configurações, unifica, pois o vivenciado é açambarcado enquanto possibilidades realizadoras e superadoras da própria vivência. Não se fragmenta em circunstâncias, não se divide em conflitos. Fundamentalmente essa vivência impede a trituração que fragmenta, dispersa e faz ancorar, estacionar nas circunstâncias que aplacam necessidades. Estar coeso, inteiro é o contexto no qual se estrutura autonomia. Exercendo a con

Problemáticas humanas - questões estruturantes V

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  Quase a totalidade das pessoas que buscam psicoterapia o fazem para diminuir ou resolver sintomas que atrapalham seu bem-estar na sociedade: angustia, ansiedade, desespero, medo, inibição, insônia, apetite compulsivo, anorexia, desejos sexuais compulsivos e obstinados, por exemplo. Esse tipo de busca psicoterápica já esclarece o que se deseja adquirir, o que se deseja normalizar. Essa escolha - fazer psicoterapia - esconde a chave que tudo explicita: a não aceitação, o não se sentir aceito, o não se aceitar. Essa estrutura de não aceitação é o que é deslocada por meio dos sintomas e aplacá-los promove ajuste, satisfação, mas não transforma as individualidades. Quando não ocorre esse processo de transformação o indivíduo é sedado em suas demandas existenciais e adequado a suas necessidades de sobrevivência. Geralmente as psicoterapias são exercidas como processos educativos que oferecem as melhores possibilidades para exercer antigas e esclerosadas necessidades. Não esquecer que elas

Problemáticas humanas - questões estruturantes IV

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Quando o fundamental é esconder fragilidades - não aceitações -, se busca trocar de pele, de aparência, removendo marcas ou cicatrizes. Sem certeza do sucesso começam as desistências. Os topos, cumes de montanhas, foram alcançados, mas as marés quando mudam, quando crescem, tudo submergem. Ansiedade, tensão, medo, expectativa constroem angustia e o desespero do estar no mundo sem certezas e sem garantias. A única certeza, que é a morte, o final de processo, apavora. Essa desintegração do indicado estabelece depressão, delírios, taras nas quais o outro é usado para aplacar e servir sua impotência, sua degradação enquanto indivíduo. Maldade, crueldade contra os mais fracos são constantes. Submeter e utilizar crianças para os próprios prazeres sexuais - substitutivos do não conseguir se realizar sexualmente -, maltratar e oprimir, são exemplos da incessante repetição da utilização do outro como exercício de poder, de prazer e crueldade. Quanto mais esse processo fragmenta, mais o indivídu

Problemáticas humanas - questões estruturantes III

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Ao se confrontar com os valores culturais se coloca a questão de adequação ou de inadequação. É a verificação, a constatação do estar ou não estar dentro do padrão valorizado. Saber se representa, se significa o que é socialmente considerado bom, melhor e adequado cria escalas de medida, padrões. Caindo em índices inferiores, estando abaixo da média, ou fora da mesma, do que é considerado válido, bom e passível de investimentos e aplausos, o indivíduo se sente subtraído, inferiorizado, mas se amolda, se adapta ao lugar que lhe é destinado. Esse processo é caracterizado por constantes ajustes e desajustes. Buscar adaptação quando se está abaixo do estabelecido como bom constrói pistas de competição onde driblar é uma constante. Nesses casos, parecer ser o que não é passa a ser um despiste fundamental para conseguir sucesso. Truques e muitos recursos são utilizados, tanto quanto um arsenal de comparações é mobilizado. Ostentar o anel de doutor no dedo, ser afilhado da autoridade paroquia

Problemáticas humanas - questões estruturantes II

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  Na neurose, estabelecer direções cria pontualizações e, consequentemente, vitórias e derrotas nada expressam salvo resultados.  Havendo globalização dos processos não importa onde se chega desde que se valorize o caminhar. A vivência, o estar com o outro, o estar consigo mesmo é o que permite descobrir capacidades e incapacidades, acertos e desacertos. Essa descoberta constante decorrente dos encontros, desencontros e impasses estrutura humanidade.  Sair da sua própria realidade ao estabelecer propósitos e metas é sempre esvaziador pois não totaliza, não engloba as diversas possibilidades humanas. Ter sido dragado e engolido por uma direção, mesmo que a mais privilegiada, é anulador de possibilidades. O privilégio de hoje, de ontem ou de amanhã, é uma circunstância aderente e configuradora de valores posicionantes, não é essencial. As circunstâncias são trajetórias, não se constituem como qualitativo definidor do humano. São como pegadas de processos, marca de pés, mas não o caminho,

Problemáticas humanas - questões estruturantes I

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  Toda problemática humana - ou em outras palavras todo comportamento neurótico - decorre da própria pessoa não se aceitar e sempre precisar ser aceita, validada, reconhecida, considerada. Sentir-se subdimensionada, diminuída, incapacitada, diferente do que é considerado agradável e harmônico obriga a uma verificação constante do estar sendo aceita e considerada. Essa frequente avaliação dos resultados de seus comportamentos estrutura o processo de insegurança. Pontualizado em função de resultados o indivíduo é polarizado para evitar falhas e buscar acertos, pois foi educado para conseguir bons resultados, para vencer na vida, superar seus deméritos, suas dificuldades e incapacidades. As vivências de aceitação e de não aceitação decorrem do relacionamento com o outro, inicialmente pais ou quem os esteja substituindo. Frequentemente os filhos são aceitos pelo que significam enquanto realização de sonhos e desejos, medos e temores, consequentemente, educados para repetir vitórias ou supe

A continuidade estabiliza

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    A continuidade estabiliza tanto para o bem como para o mal. O importante é a manutenção das estruturas configuradoras dos fenômenos que, pela permanência, podem ser questionadas, mudadas.  A miséria sem fim que aflige um terço da humanidade pode ser mudada quando configurada como falhas de sistemas econômico/sociais. Essa percepção passa a se impor e obriga a novas políticas econômicas e sociais. Muitas vezes os problemas paralisam e parecem insolúveis. Recentemente, por exemplo, o navio encalhado no Canal de Suez desafiou todos os esforços e técnicas para desencalhá-lo, mas a continuidade do problema, da impotência, abriu novos horizontes. O navio foi desencalhado e o tráfego restituído no canal, e os especialistas passaram a questionar a fragilidade da cadeia de comercio global.  O impasse redimensiona problemas e estabelece visões, insights criadores de solução surgidos pela impossibilidade, seja pela constatação de mediações necessárias ou pela inadequação dos sistemas. A persi

Solidariedade

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  Solidariedade é a ampliação de si pelo reconhecimento do que é familiar: o outro que continua sentidos e direções. Incluir-se em grupos, fazer parte da humanidade cria solidariedade. Atualmente a desumanização - a alienação do humano - torna difícil o exercício da solidariedade. Agir por tabela, ajudar a quem precisa porque sempre se ajuda a quem precisa, cria um direcionamento contingente negador da própria solidariedade, pois nesse esquematismo falta humanidade, sobra ação contingente, mecânica e utilitária. Ser solidário é ser com o outro, é continuar-se. As pontualizações de mecanismos alienantes muitas vezes transformam a solidariedade em uma sequência de ações alienadoras. Bastar ver campanhas para ser solidário é como se a aderência prevalecesse sobre a imanência. Ajudar não é seguir uma receita ou uma rota; é necessário criá-la independente de campanhas e aplausos. O voltar-se para os sentimentos de amizade, compaixão e boa vontade independe e é indiferente à felicidade, nece

Integração de limites

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  Limites podem ser integrados e quando isso acontece os obstáculos desaparecem, os limites passam a ser referenciais e dessa forma são transformados em apoio, em base. Esta base, o presente - os limites integrados - não dificultam, ao contrário, possibilitam fluidez. Dualidades continuadas, necessidades, possibilidades são referenciais agora despidos de significados amedrontadores ou alentadores. Saber o que se tem, o que se é, onde se anda, a paisagem que se descortina, tudo é configurador do estar no mundo, tudo sinaliza e orienta espontaneamente. A espontaneidade é o natural enquanto próprio, devido. Viver a própria vida é o único que se coloca. Olhos, braços, boca - corpo - são os constituintes, os estruturantes relacionais do conhecer, do viver. A percepção do ser, do si mesmo - possibilidade relacional - é exercida pelas próprias percepções. Vida é continuidade, é efeito virando causa, é causa virando efeito. Na realidade, a pontualização - em causa/efeito - é, como todo ponto,

Pretensa capacidade como deslocamento da impotência

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    Sentir-se incapaz e sem condições de agir, de modificar situações que estão sendo desagradáveis cria inconvenientes questionamentos ao estabelecido, revoltas e muitas vezes propósitos de boas ações. A não aceitação da incapacidade é gerada pela culpa, maneira de deslocar a impotência diante de acontecimentos, camuflagem necessária para persecução de objetivos, comprovando assim a evidência conceitual: a onipotência é sempre um deslocamento da impotência. Não admitir a própria incapacidade, não admitir e escolher a si mesmo como objetivo fundamental leva à criação de camuflagens, desde que o indivíduo quer se manter em posição, por exemplo, como responsável defensor da família e consequente com seus ditames de "chefe de família". Para essas pessoas, abrir mão do outro é uma maneira de se afirmar, de subir na escada das realizações. O lema é: nada me atrapalha. Acontece que, seguindo nosso exemplo da família, é a própria mãe, o próprio pai, o irmão que precisam de ajuda e d

Tristeza, fome e frustração

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      Interrupções, perdas, mudanças abruptas assim como mudanças temidas geram tristeza, que é uma ocorrência inevitável no processo da vida, na vivência dos afetos quando esses são modificados.  Quando essa vivência é transformada em referencial a partir do qual tudo é percebido, quando é mantida como situante relacional, ficar triste é uma atitude resultante da não aceitação de realidades passadas e agora posicionadas. É o resumo conseguido após avaliação, como por exemplo sentir-se feio, fraco, covarde, sem sucesso, que resulta de avaliação e comparação com os outros, com os padrões, com os desejos, com o que se esperava. É quase sinônimo de desânimo (a manutenção contínua desse desânimo, dessa falta de motivação é a depressão resultante de estar isolado, emparedado). Sentir-se feio, fraco, covarde sem sucesso são os frutos amealhados pela comparação com normas e padrões existentes, tanto quanto com os sonhos falhados.  Perdas afetivas, calamidades, acidentes, pandemias causam tris

Dúvida como solução ou negação de limites

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    Quando dúvida em relação ao que se vivencia, ao que se quer ou se espera, se instala, são criadas artificialidades. Esses instrumentos artificiais aproximam ou distanciam o que se está percebendo, questionando, temendo ou resolvendo. É uma situação na qual se faz lembrar a clássica afirmação dos gestaltistas alemães: o afastamento do problema gerador de dúvida pode ser uma aproximação solucionadora de impasse. Essa afirmação é contextualizada no conceito de meio geográfico - que é o meio tal como a ciência o descreve - e no conceito de meio comportamental - que é o meio tal como o indivíduo o percebe. A dúvida que se estrutura no que se apresenta traz sempre soluções, entretanto, quando ela decorre de avaliação e comparação com o que se pretendia, o que se almejava (futuro), ou o que se temia (passado), ela cria mais dificuldades, mais problemas, afastando as possibilidades de solução. E nesse contexto, por meio da atitude de duvidar se exerce onipotência, desconfiança, o autorrefe

Arremedos

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  Imitar, copiar, repetir, plagiar são formas diversas de arremedar. Cópias rascunhadas, esboços, insinuações povoam o dia a dia. A mentira, as fake news , o parecer que é o que parece ser são arremedos de democracia, de ciência, de verdades diversas. Imitar para enganar é o que estrutura o ilegítimo, o mentiroso. Nas vidas pessoais, se pautar em parâmetros configuradores do "isso é certo, isso é bom, é o honesto" cria todo um mercado de ilegítimos, cópias que podem ser acessíveis a todos. Bens de consumo, mercadorias constituem o maior campo de imitação, cópias e arremedos. Visando a mentirosa participação de todos, degrada-se qualidade destruindo recursos naturais. O mais caro, o mais barato, o médio, tudo pode ser adquirido, não importa se o leite adulterado é 75% água, importa que pode ser vendido como leite. Essa imitação e invasão de estruturas quebra características e instaura outras direções: legítimo não é o que é, é o que parece ser. Ser ou parecer quando transposto

"Liberdade é a compreensão das necessidades" - dizia Hegel

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Somente por meio de questionamentos, indagações, esclarecimento de dúvidas e divisões é que se percebe limites e dificuldades. Perceber os limites e a eles se dedicar abre horizontes ao desfazer os nós que aprisionam. Essa mudança de configuração cria mudanças perceptivas responsáveis por novos entendimentos e questionamentos. A continuidade e reversibilidade dessas vivências apontam sempre para novas direções, é a descoberta de possibilidades que configura o que Hegel dizia: "liberdade é a compreensão das necessidades" . No universo político social, quando se pensa que o ponto de apoio é também o ponto de opressão, novas compreensões e comportamentos são desencadeados: o medo desaparece ou o medo aumenta. Nesses contextos se descobre que "a união faz a força". O grupo é o existente fundamental para se desenvolver a mudança que possa ocorrer, as mudanças que possam ser operacionalizadas em reivindicações e consequente aquisição e manutenção de direitos sonegados e a

Variações e identidade

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  Todos percebemos igual tudo que odoriza enquanto ato de cheirar. A comida, por exemplo, pode ser percebida como odor, assim como tudo o que tem gosto é percebido como gosto. A igualdade da percepção se refere às estruturas das diferenças perceptivas, é equivalente a dizer que gosto é gosto, cheiro é cheiro, tato é tato, audição é audição, visão é visão. Entretanto, na igualdade do gustar, do cheirar, do tocar, do ouvir, do ver, tudo é diferente, existem características específicas individuais. A trajetória do dado é variável. Os receptores são tonalizados pelas características individuais de seus estruturantes, de seus contextos. O cheiro ácido do limão é uma fragrância variada em função de outros contextos olfativos, de misturas e interferências que podem neles neutralizar quaisquer percepções. Existem odores, gostos típicos e significativos, assim como sons expressam realidades e sentidos semânticos, como enxergamos o que está difuso, e o mesmo se aplica ao que ouvimos e pegamos. O

Doença, medo e revolta

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  Diante de impasses, acidentes e doenças, inicialmente vivenciamos obstrução, impedimento, interrupção. Nessas situações, o futuro abruptamente se insinua, se presentifica sob forma de planos, sonhos, propósitos e desejos frustrados, e assim o real, o acontecido é um espectro de expectativas, do que é ansiado, temido ou desejado. Essa superposição temporal nos arranca de nossos contextos atuais. O impacto causado por notícia de doença, de morte, de quebra de apoio, de mudança de planos causa medos, apassiva tanto quanto gera revolta, sentimento de raiva ou de inveja. Nesse turbilhão, se sai dos centros relacionais, das situações existentes na vida diária. Os filhos podem passar a ser percebidos, por exemplo, como os que não vão mais ser cuidados, os planos de vida, os empreendimentos, as superações de obstáculos e dificuldades são aniquiladas. Surgem o medo, a revolta, o desânimo. Aceitar o limite, que é a evidência, é aniquilador. Situações de não aceitação, de separação de amantes/f

De repente, o outro

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  Olhar para o outro, ouvi-lo estar atento a ele é uma das formas mais puras de generosidade, dizia a filósofa Simone Weil. Ouvir, deter-se diante do outro, olhar por olhar, ouvir por ouvir, estar diante sem a priori nem objetivo é raro, é difícil, é disponibilidade. Em psicoterapia, pelo treino e aprendizado psicoterápico se faz isso, entretanto, na vida, no cotidiano é quase impossível esse comportamento, pois o outro é sempre um acesso, um caminho, uma parede, um esbarrão e não significa enquanto encontro, embora só se realize enquanto tal. Perceber, ouvir, se deter é enfocar, é verificar e constatar, e essas são importantes etapas e caminhos de descobertas. É o enigma que se esclarece, é a mensagem que se lê, é o outro que se descobre, que se revela quando recebe atenção. Deter-se diante do outro, além de generosidade e descoberta, é encontro, é desafio. O outro quando ouvido deixa de ser enigma, deixa de ser antítese, é a descoberta que revela, é o texto que ensina, é o novo que

Mesmice

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  É comum ouvir acadêmicos, técnicos diversos e filósofos explicando alguns processos como sendo situações pendulares, como se fosse o ir e vir de contradições - indo ora para um lado, ora para outro lado - e confundindo isso com dialética de processos. O ir para a esquerda, para a direita, para o sim, para o não, nada configura enquanto antítese, apenas explicita trajetórias na reta. As abrangências não são contraditórias. As divisões arbitrárias segmentam movimentos e criam pendularidade e nesses contextos não há sim, não há não, muito menos mudança. O que existe são passagens, oscilações que nada configuram além das alternâncias não contraditórias do movimento. Psicologicamente, nas situações caracterizadas por constante dúvida entre fazer ou não fazer o que se deseja, cria-se oscilação, alternância de comportamento que pode se expressar em inúmeras situações, sejam elas inconsequentes ou graves, como por exemplo o uso de drogas lícitas ou ilícitas para manter o bom humor e o ânimo,

Caos e esperança

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  Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo   Empolgada com a perspectiva de ampliação da vacinação e com a autonomia científica do Brasil na área de vacinas, antecipei a publicação da próxima quinta-feira.   Mudanças da água para o vinho são consideradas milagres, prestidigitações ou apreciações incompletas de fenômenos. O inédito, o caráter de transformação mágica só existe quando processos e estruturas não são consideradas. Hoje, 26 de março de 2021, assistimos a esse processo no Brasil ao anunciarem a vacina BUTANVAC criada pelo Instituto Butantan, vacina com tecnologia 100% nacional que evidencia a autonomia do país na sua produção. A notícia parece milagrosa, causa esperança, alegria, revolta, raiva à depender dos contextos a partir dos quais o acontecimento é percebido. Como um país em pleno caos, sem liderança política, em crise econômica e com mais de 300 mil mortos em um ano de pandemia, consegue isso? Com certeza não é um processo fênix, não é um renascimento das cin

Práticas repetidas

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    Usualmente a repetição, a prática frequente é o que chamamos hábito ou costume. Afirma-se que essas repetições atingem níveis de inconsciência, tanto quanto de automatismos, pois seus mecanismos são explicados por condicionamentos ou manutenções inconscientes. Acontece que o hábito não é repetição ou inconsciência, ele é a resposta ao estímulo, é o automatismo do sim e do não, é a persistência do adequado, do aprendido. Nesse sentido, hábito como repetição mecânica, como resposta àquela pergunta implícita, funciona como o preenchimento de intervalos. Assim como na solidão se desmascara, grita e nada esconde, no hábito se repete uma resposta antiga. Não existem mais estímulos, entretanto restam respostas. É um dinamizador que segue a martelar no vazio. É o automatismo que nada configura, embora muito esclareça. A manutenção de costumes, geralmente entendida como hábito, nada explica, embora esclareça comportamentos. Apenas ocupa um lugar no espaço e como o preenchimento do vazio sig

Bom é o que detém

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  Na continuidade de circunstâncias, de contingências que adensam e enrijecem aderências, o maravilhoso é ser detido, ser ultrapassado. É um momento no qual transcendências são realizadas.  Estar polarizado pela contradição exercida pelo outro, ou por si mesmo, é possibilitador de questionamento e consequentemente de mudança. Viver as próprias insatisfações, os próprios problemas é uma maneira de começar a resolvê-los. Descobrir como é motivador o que se conhece e o que se trabalha, tanto quanto o que não se sabe para onde nos leva, mas que oferece surpresas e descobertas, é satisfatório, cria felicidade e alegria. É a curiosidade, o despertar, o ir para diante na continuidade do estar aqui e agora. Encontrar o outro - igual ou diferente - também pode ser um polarizante que detém. Esse processo é estar totalmente dedicado e sem alienação. Tudo é vivenciado enquanto vivência e não como pontos a atingir, situações a manter. A perda de limites posicionantes é libertadora e essa liberdade

Imersão

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  A dedicação possibilita inúmeras vivências. Totalmente voltado para o que se pretende e propõe se consegue imersões transformadoras. Esse processo é a continuidade do estar no mundo com o outro diante de obstáculos, soluções e problemas. A imersão é uma decorrência de estar vivenciando o presente. A continuidade da vivência presentificada cria disponibilidade e exila metas - que são propósitos antecipados -, fazendo com que tudo sinalize enquanto motivação. O percurso das nuvens, por exemplo, ou o deslocar de formigas são exemplos de ordens frequentemente não configuradas. Pensar em Deus, em natureza é lançar mão de extras com relação ao ocorrido. O que não se vê entre nuvens e formigas são andanças, movimentos, e isso as iguala. Semelhanças, diferenças tudo é continuidade de significações não explícitas. Certos contextos podem elucidar. Só a dedicação, a imersão, o voltar-se para, é capaz dessa realização. Não é empreendimento, não é propósito, não é desejo, é ombrear-se, voltar-se

Expressão

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    Expressar é significar. A expressão do significado sempre ocorre e é estruturada por diversos contextos. Símbolos - linguagem na esfera geral - realizam a magia que é a expressão do pensamento, do sentido, do que é vivenciado. No pequeno mundo individualizado, poucos gestos, poucas palavras, poucos olhares indicam muito. É o jeito de corpo, é o fingindo não fingir, é a expectativa, é o vazio que muito revela. Situações sínteses, olhares perfeitos e completos, palavras definitivas podem expressar tudo. Uma dessas palavras síntese é a expressa na tradição védica: Om . Tal palavra, tal som se transforma em vibração, transcendendo e afirmando códigos e referenciais de escuta. Outro exemplo contundente e corriqueiro encontramos na esfera individual: a força da unidade ou grito de uma mãe avisando ao filho que tem um obstáculo perigoso à sua frente. A expressão, às vezes, é uma maneira de dar vida, de presentificar anseios, medos e descobertas. Ela é a liga de encontros e desencontros. É

Sequências

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    As ordens estabelecidas nas instituições de transmissão do conhecimento não são limitadas pelo tempo embora o reflitam. O professor que ensina outro professor é um elo de uma corrente contínua. De diferentes maneiras são repetidas as mesmas coisas. Essa atemporalidade é o que recria e mantém o tempo. Este aparente paradoxo é estabelecido pela doxa , pelas opiniões que se superpõem, e que mesmo que variem são iguais enquanto resumo de ordens, regras e palavras. Assim são formadas as instituições e assim são transmitidos valores que sequencialmente criam conjuntos: humanidade por exemplo. Quebra de sequências surgem quando valores são transmutados, transformados. Essa é a grande ameaça que se desenha com os processos de alienação e desumanização. O ser humano poderá vir a ser ingerido como proteína capaz de alimentar famintos? O descrédito na humanidade ensejará sua superação? As quebras de sequências básicas são sempre mutações atordoantes no mundo biológico e também no psicológico.

Percepção de si e do outro

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A percepção de si e do outro é uma temática relevante em psicologia. As abordagens a este tema fundamentam psicoterapias. Freud achava que o outro era percebido em função de desejos, medos e anseios, era a projeção de demandas do inconsciente, e isso era o que lhe dava significado. Nesse sentido, na psicanálise a percepção do outro é uma projeção de motivações e comportamentos inconscientes. Diversamente, para mim, perceber o outro é uma consequência de estar no mundo. Esse simples fato, entretanto, pode ser uma resultante condensadora de inúmeras contextualizações. A variedade de contextos à partir dos quais o outro é percebido é imensa, embora possam ser significadas, condensadas em seus estruturantes: o outro é percebido como prolongamento de autorreferenciamento ou como presença que expressa outras relações e significados. O outro é o que está aí, diante. É o destacado que será significado enquanto ser, enquanto surpresa implícita, ou visualizado como coisa cujas funções são mantid

Ir além dos significados

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  Ir além do que acontece só é possível quando acontecimentos são considerados contextos, paisagens. É como estar viajando em um trem onde os trilhos, a estrada, os caminhos nada significam salvo direção percorrida. Essa objetivação de propósitos é a transcendência que possibilita ampliação. Não importa com quem se está, ou onde se esteja, o importante é que se está ouvindo, vendo, considerando, e isso sempre significa discernimento. Esse discernimento, o perceber que percebe, o conhecimento, tudo ultrapassa. Não é setorizado, não é dicotomizado por conveniências ou inconveniências. Tudo se sente, tudo se sabe. As possibilidades de vivência - ditas emoções, considerados pensamentos - caracterizam o humano. É a vivência do estar no mundo com os outros que realiza humanidade, que a torna contingenciada e sincrônica com os que convive, com os outros que encontra. Estar aberto e disponível é característica da humanização e permite transcender limites de bom, ruim, certo, errado, útil e inú