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Mostrando postagens de 2022

Ignorância

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  Não conhecer, não discriminar, ou seja, a ignorância é a responsável pelo posicionamento. Isolar-se nos próprios referenciais e traduzir o mundo a partir dos mesmos é falar uma língua, desenhar direções, estabelecer critérios impossíveis de compartilhamento. Posicionado em seus referenciais e critérios o ser humano se isola e então precisa estar sempre pendurado em redes que o identifiquem e protejam. Desse modo ele é um apoiador ou um contraditor. Ele é rótulo, e também rotulado. É vítima e é agente. Não conhecer resulta de não questionar, não ampliar referenciais e assim só se pode viver em locais conhecidos, determinados e rotulados. O ignorante é o que se candidata às aflições e desespero humano que vemos no auto-sacrifício, no egoísmo, no apego, no poder e sucesso, na aversão e no medo da morte. Ignorante é o que não se percebe como ser humano com possibilidades e necessidades. Ignorante é o que acha que ao satisfazer as próprias necessidades tudo estará resolvido, isto é, se re

O medo da morte

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  Ao antecipar o futuro, ao continuar as implicações do que ocorre caminha-se para abismos, pois não há terra onde caminhar. No seu processo de vida o indivíduo descobre que existem finais. A morte, o cessar da vida é um desses finais comuns a todos os humanos. Esse conhecimento é tão simples e completo quanto saber que se é um corpo, um organismo constituído de células, tecidos, órgãos, que se mora em uma cidade, que se tem uma família. É uma informação, um referencial. Certos acontecimentos, e o passar do tempo, tornam relevante e pregnante a constituição finita do humano. A dramaticidade ou não dessa pregnância depende de quem, como e quando é vivenciada. Os limites, a doença, a idade, a época, a pandemia, a guerra, tornam muito próximo esse referencial, sempre percebido como condição humana, embora distante. Quanto mais próxima a possibilidade de morrer, maior a aceitação ou a não aceitação, menor ou maior o medo da morte. A morte quando vista como decorrência do processo de vida,

Aversão

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  Toda vez que alguma coisa ou alguém é excluído de uma situação ou sistema podemos dizer que a aversão, o não suportar, o detestar, o não querer conviver com aquela pessoa ou situação foram os responsáveis pelo comportamento de exclusão. De uma maneira geral podemos resumir a aversão em dois grandes grupos: as resultantes dos a priori ou preconceitos, e as resultantes de dor, sensação intolerável. Os preconceitos existem nas diversas culturas e sociedades e criam comportamentos de aversão: evitar o diferente (etnia, posição profissional, posição social e econômica); a discriminação aos fisicamente deficientes (lesados ou portadores de comprometimento francamente visíveis , assim como os que não são considerados belos, bem vestidos); e acontece também evitar o familiar, pois o mesmo pode desmascarar projetos, pode saber "o caminho das pedras" e assim pôr tudo a perder. É comum o novo rico odiar encontrar os vizinhos da comunidade onde passou a infância. É comovente ver o dese

Perdido em função das circunstâncias

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  Quando o indivíduo se define e situa pelo que o apoia, sustenta, anima e satisfaz, ele se contingencia. Estar em função das circunstâncias, variando segundo flutuações obriga a ter barcos, bússolas e outros instrumentos para estabilizar o percurso. Não se bastar, estar definido pela família, pelo dinheiro, pelas instituições religiosas, acadêmicas e outras que o abrigam e molduram é sempre despersonalizador. Não se sabe como viver sem ajuda financeira da família, não sabe como abrir mão do caudal de benesses conseguidas via universidades, organizações partidárias, comissões de cargos vitalícios etc. A dependência é uma constante na vida desses guardiões de vantagens e conveniências. Pensões sempre transferidas, cargos que se perpetuam, "golpes de baú", benefícios conferidos pela instrumentalização da beleza, ou da inteligência criadora de diferenciais, mesmo que engolidos por sistemas comercializadores, tudo isso é sempre valorizado quando há apego ao que propicia as conven

Egoísmo - tudo em volta de si mesmo

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Quando o indivíduo se coloca em destaque cria posicionamentos. Esse destaque pode ser de vítima ou de opressor, mas é sempre o de ponto de confluência, encontro de variáveis configuradoras de processos. Estar posicionado é manter-se no pódio vitorioso ou na depressão engolidora que foi para ele construída, ou que ele construiu ou escavou. Estar parado - a negação da dinâmica, o posicionamento - é neutralizador de processos. Tudo ocorre e o lugar da vitória ou do fracasso é mantido. Os que se sentem vitoriosos, e também os que se sentem desesperados, os que se sentem perdidos têm lugares cativos e fazem qualquer coisa para mantê-los. Para um indivíduo assim, a vida é considerada difícil, tudo é perigoso de adquirir, perigoso de perder, ele tem que se posicionar e então garantir o conquistado, ou perceber que o que quer não pode ser conseguido. Resolve que é preciso ficar quieto em seu lugar para ver se alguma vantagem ou ajuda surgem.  Essa atitude de se colocar na confluência dos proce

Distorções que estruturam o autorreferenciamento

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  As distorções decorrem da não apreensão da totalidade do que está diante de si. Colocando-se como centro, como ponto de confluência, o indivíduo pensa que o que ocorre deveria ajudá-lo e não prejudicá-lo, e que tudo sempre o maleficia. "Tudo tem que estar ao meu favor, não contra mim", "nada comigo dá certo" , diz o exilado do presente.  Retirar-se do que ocorre, do presente, e resguardar-se em gaiolas passadas ou foguetes propulsores do futuro almejado é lesivo. Retira da vida, do mundo, da convivência com um outro que ainda não foi transformado em objeto temível ou desejado para consecução de desejos. Ser cativo dos próprios referenciais - o autorreferenciamento - é o polarizante de isolamento, consequentemente de distorções. Assim, os acontecimentos são traduzidos pelos referenciais desse indivíduo que se acha o alfa e ômega dos processos. A culpa é sempre do outro, o outro não é confiável, o prejudicou ou tinha que ajudá-lo, assisti-lo, tinha que dividir rique

Superação e neurose - não aceitação do presente

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  O desejo de superar dificuldades, assim como de superar condições consideradas ruins para o desenvolvimento da própria vida, engendra metas. Tudo que é estabelecido e frutificado nos desejos decorre de não aceitações. Querer superar o que falta, conseguir o que não teve, preencher carências é o propósito, o motivo que lança o indivíduo para o futuro, estabelecendo, desse modo, o conquistador vitorioso ou o ressentido fracassado. Nesse contexto, ir além do próprio limite negando-o constrói as motivações para superação dos problemas e dificuldades. O que limita deve ser vencido, ultrapassado, integrado, absorvido, absolvido no próprio processo do estar no mundo. É como apreender as coisas, aprender a falar, aprender a ler, adquirir técnicas que promovam mudanças da realidade, que determinam aptidão e escolhas profissionais. É fruto do embate, do que está determinado, do que limita. Quando os processos vitais e relacionais são transformados em etapas a serem vencidas, a luta pelo poder

Questionamento e dedicação

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  Vivenciar o presente requer dedicação ao mesmo. É pela consideração aos limites, aos prazeres, aos medos e dificuldades que se estrutura a dedicação e a disciplina, tanto quanto a fruição ou expurgo do que acontece. Andar exige, inicialmente, por os pés no chão e em seguida estabelecer direção. Essa sinalização de caminhos é orientação e dinâmica, tanto quanto limite e repetição sistemática que automatiza. Toda vivência pressupõe encontro, determinação, escape, incerteza. Ao considerar apenas aspectos das vivências, se desestrutura totalidades, se desestrutura o que presentifica. A vivência do presente é a única que existe, embora seja também o anestesiante que apaga o que existe. Quando o presente se constitui em pensar para lembrar do que passou, ou antecipar, torcer pelo que se quer que aconteça ele se constitui em pântano, sumidouro de vivências, realidades e limites. Dedicar-se ao sonho, ao que se almeja, ao que não existe é negador da própria configuração existente. Os problema

Engenhosidade

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  A capacidade de tentar superar obstáculos criando apoios é exemplar como característica humana capaz de contornar e vencer dificuldades. Da descoberta do fogo, passando por colheres e panelas e chegando às naves espaciais, do enfrentamento de intempéries à adaptação e superação de doenças, a vida humana se caracteriza por criar e inovar. As mudanças biológicas, tecnológicas e sociais são uma resposta às dificuldades que foram enfrentadas e consequentemente mudadas. A neurose, o oportunismo, o uso e abuso do outro também se inserem nesse delineamento. Esse uso do outro - neurose, coisificação - é sempre construção, artefato, substituição, bengala para suprir deficiências, medos, incapacidades. Por exemplo, o desejo sexual por crianças - a pedofilia - geralmente resulta da tentativa de driblar a impotência, a dificuldade e medo diante do outro. Da mesma forma, a exploração do trabalho alheio, mais-valia e plágios intelectuais e profissionais, atestam a engenhosidade e também o autorre

Valor e afeto

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  A trajetória humana se desenrola, geralmente, em torno de valorizar e ser afetado. Uma das implicações desse processo é situar o indivíduo, o ser humano, como receptáculo, como reagente. Nada é próprio, nada é legítimo. Apenas cadeias e circuitos são continuados. Os causalismos deterministas aristotélicos, tanto quanto as quimeras platônicas povoam esse universo, são as balizas que se deve seguir. As orientações criam expectativas e metas; é sempre um além do dado, além do que acontece. Não se está solto, desencadeado, descontínuo. Família, comunidade, país, época representam valores que situam, apoiam e significam.  Ir além do valor, ir além do situante, buscar novos referenciais é criar antíteses libertadoras e também aprisionadoras, mas é o que possibilita andar, descobrir, ser livre para novos valores e novos afetos. As contingências são limitadoras, pois visam apenas satisfazer necessidades e manter compromissos. Nesse sentido, a liberdade é sempre ilusão, visto que estar solto

O insurgente transformado em bode expiatório

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    Frequentemente, nas famílias, nas comunidades e até mesmo na sociedade surgem situações nas quais se deseja o desaparecimento de indivíduos ou grupos para trazer bem estar, calma e prosperidade. O filho drogado, delinquente, que rouba, que agride irmãos, avós e pais, que quebra objetos em casa, quando oferecido como vítima propiciatória e é morto pela prepotência policial, por exemplo, gera alívio, bem estar e tranquilidade. Nos grupos de trabalho ou nas escolas, às vezes tem alguém que reage contra injustiças, contra prepotências do patrão ou arbitrariedade de professores e essa reação o isola fazendo com que ele seja considerado ameaçador quando punições ao grupo são esboçadas. Inicialmente a reação contra opressão e injustiça é aplaudida, entretanto, à medida que surgem ameaças que a todos atingem, como corte de salários, demissões, corte de água e luz das casas etc. aparecem também pressões dentro do grupo para que o insurgente se desculpe e se redima. A vítima, o injustiçado e

Mecanização, vazio e desespero

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" Sangro, logo sou " * Lendo Byung-Chul Han encontrei o seguinte: " Como quer que o chamemos, Ritzen, cutting ou o ato de se cortar é algo que se tornou hoje um fenômeno de massa entre os adolescentes. Milhões de adolescentes na Alemanha mutilam-se a si mesmos. De modo proposital se flagelam, causando feridas para sentir um alívio profundo. O método mais comum é se cortar com uma gilete. O ato de se cortar se desenvolve até se tornar um autêntico vício. Tal como ocorre com qualquer outro vício, o intervalo entre os atos de se cortar se torna cada vez menor, assim como as doses cada vez maiores. Assim, os cortes ficam cada vez mais profundos, sente-se "uma urgência de se cortar" ." * A descrição acima nos impõe uma série de constatações. A alienação, a coisificação estruturada pelos sistemas sociais e econômicos é de tal ordem que o indivíduo só sobrevive ao se transformar em máquina. As proposições familiares, que poderiam ser antíteses aos processos cois

Atordoar

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  A descoberta de limites sempre estabelece referenciais, sempre cria possibilidades e impossibilidades, que, por sua vez, se transformam em novos limites e também em caminhos frequentemente limitadores e/ou libertários. A circularidade de propósitos configura uma rotação em volta do mesmo ponto. A expectativa ilude e a mudança não acontece. Repetição é manutenção, tornando-se assim o "caminho da humanidade". O que faz mudar, então? - O que leva à mudança é o sair do círculo. Como ultrapassar o estabelecido, o circunscrito? - Só se descomprometendo, não buscando resultados ou soluções para o que desespera; só assim se permite a mudança. Não é renunciar, não é abrir mão ou desistir, é apenas ir além do limitante, é a quebra de compromisso com o que vai resolver, com o que vai mudar; é essa atitude que dá lugar à mudança. A mudança não é síntese, não é resultante, ela é a outra perna, o outro lado, o aspecto não vislumbrado, consequentemente, o não limitante, desde que configur

Entre verdades e mentiras, entre acertos e erros

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Como saber o que é verdade e o que é mentira hoje em dia? Essa pergunta faz imediatamente pensar em fake news . Como distinguir o que é falso? Como distinguir o que é errado? Recorrer a referenciais sociais, políticos, científicos permitem essa distinção, basta procurá-los. Na pandemia da Covid-19 por exemplo, era muito fácil verificar os abusos feitos em nome da ciência e da realidade, embora essa verificação se transformasse em missão impossível para os que se situavam apenas em bem e mal, acreditando em narrativas baseadas nesse maniqueísmo. Verdades e mentiras também remetem às noções de certo e errado, de cabível e incabível. Nesse contexto as motivações individuais precisam ser questionadas. É por meio desse questionamento que as respostas são encontradas. "Sair do armário", por exemplo, no que se refere à realização de motivações sexuais, é uma questão de ser fiel aos próprios desejos, tanto quanto implica questionamento da razão de negá-los. E assim, uma imensidão de

Saltos e piruetas

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  Ter objetivos definidos, desejos de superação de dificuldades e propósitos determinados, frequentemente funcionam como molas propulsoras. Esse estímulo constante faz com que se caminhe, se busque realizar desejos de complementar o que falta. Assim, propulsão constante, avidez e ganância funcionam como engolidores, neutralizadores da caminhada. Não se sabe como caminhar, não se vê como andar, mas se sabe onde se quer chegar. Todo relacionamento cria mudanças e a anulação de caminhos, o apagar de direções faz surgir novas posturas. Saltos e piruetas ilustram bem esse processo. Do caminhar em pé, bípede, descobre-se um jeito de cortar caminho, diminuindo dificuldades ao fazer piruetas. Enrolar-se em si mesmo para pisar-voar é a maneira, às vezes, de atingir objetivos impossíveis para o contínuo desenrolar de atitudes. Pular etapas roubando, por exemplo, mentindo, sugestionando, implorando, usando o outro é uma forma de atingir o que se deseja. Vitórias conquistadas pelo oportunismo cria

Perspectivas e limites

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Perceber limites é ampliar perspectivas, tanto quanto destruí-las. Tudo vai depender de como se vivencia o presente, o que está aqui e agora consigo. Quando o presente é pontualizado ele é apenas um trampolim, uma mola que impulsiona para o que se deseja ou para o que se teme. Ele não é percebido com tudo que o configura, ele é apenas o que está sendo útil ou o que está sendo inútil. É o propulsor, o que vai permitir chegar ao que se deseja. Qualquer base, qualquer ponte destruída, qualquer impedimento gera desejo, raiva ou depressão. Não se sabe o que fazer pois se vive em torno do mesmo ponto. Essa circunvolução cria mesmice. É a repetição que desespera, deprime, deixa todos os desejos e soluções ameaçadas. Essa vivência do obsoleto é expansiva, todas as coisas passam a significar dentro desse referencial, desse contexto de arcaísmo. Acabam as perspectivas, vem a depressão: o medo ou a vontade de morrer ao observar o impacto avassalador dos limites, da não perspectiva. Quando os limi

"Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura"

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    Outro dia, lendo Johan Huizinga - "Nas Sombras do Amanhã" (1935) - me detive na afirmação: "Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura" . Nesse sentido podemos entender cultura como acúmulo de conhecimento, como baluarte civilizatório e assim perceber que a educação é o que vai possibilitar a continuidade dos processos culturais. O ir para diante, o continuar cultura e ampliar confortos civilizatórios, sempre aparece mesmo em pequenas soluções diárias, como por exemplo manter a caneta e o tinteiro agora substituídos pela esferográfica, ser capaz de transportar líquidos, como coca-cola e água engarrafada, entrar em contato com o outro e suas ideias pelos livros e blogs, a digitalização dos processos, os botões que a um aperto tudo resolvem, e até a destruição dos mesmos via acionamentos perigosos e proibidos. Tudo isso é cultura, é civilização, principalmente agora exercida pelos avanços tecnológicos, aspectos que atualmente caracterizam

Último acontecimento: guerra Ucrânia-Russia

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Para entender qualquer coisa que acontece é necessário perceber o contexto e as implicações do que está acontecendo. O fato, o acontecimento é apenas um elo, um instante de uma sucessão, de um processo. Todo acontecimento é um momento, congelamento de processo quando visto como um fato, pois nesse destaque a continuidade é artificialmente quebrada. Quando se fragmenta processos em explicações de causa e efeito cria-se uma linearidade, uma simplificação que apenas açambarca fatos transformando-os em fontes mecanicistas e explicativas. Achar, por exemplo, que se é médico, engenheiro, músico ou professor por ter vocação e talento é admitir prévios, causalidades determinantes. Essas explicações baseadas em determinismo e vocação negam, cancelam toda uma vivência cultural e histórica, todo o processo relacional que configura o estar no mundo. Nos últimos dias assistimos as explicações jornalísticas sobre a guerra da Ucrânia-Russia. O que se ouve, o que se vê é a criação de referenciais valo

Monólogo e solidão

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A sucessão de fatos, de acontecimentos cria esclarecimentos, cria novidades ao ratificar ou retificar crenças. Essa simplicidade processual geralmente é desconsiderada. O que é esclarecido frequentemente se transforma em letra morta urdidora do que se quer ou do que se teme. Nesse contexto, esclarecimentos que poderiam se tornar alavancas de mudança se transformam em referenciais de lamentos e queixas. Os processos de esclarecimento permitem diálogo com o que nos circunda, com o que está diante e em nossa volta. Esse diálogo constante é o que possibilita questionamentos e consequentemente mudança. Ideias fixas, busca de realização de desejos, de superar faltas estabelecem monólogos. Rodar em torno do mesmo ponto, medir os passos não realizados, ansiar por solução é o que predomina no autorreferenciamento. O monólogo apaga o outro, apaga o mundo. É a maneira mágica e autorreferenciada de manter eterna solidão, carências e medos.

Revelação

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  Percepções, constatações, que muito esclarecem, que abrem novos horizontes ou que abrem novos abismos, são transformadoras. A mudança do habitual, do familiar é um processo geralmente esvaziador, pois quebra crenças e verdades. O abandono, a doença, o engano exemplificam exaustivamente essas vivências. Da mesma forma, ser reconhecido, ganhar na loteria, reencontrar irmãos, pais desaparecidos ou anônimos, também criam novos processos, novas vivências que potencialmente descortinam horizontes ou ampliam abismos. Nas próprias exemplificações fica clara a existência do inesperado que frustra porque é causador do mal, enquanto o inesperado que resolve problemas e esclarece enigmas é o que amplia condições e é bom. Mas, independente de valores, a quebra de certezas, as revelações, inicialmente, precipitam o vazio. As revelações são construídas pelas contingências. É o encontro de várias palavras, contextos, histórias e narrativas, expectativas e medos que irá estruturar o que se teme e o q

Desvincular

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  A separação sistemática de acréscimos, de acúmulos, enfim, de condensações, é feita pelo questionamento das próprias motivações. É isso que permite atingir as sistematizações dos resultados buscados. Não existe nada que seja puro ou único, tudo está vinculado a tudo, entretanto, só quando é apreendida a essência, o constituinte imanente dos processos, é que eles podem ser configurados, é que eles fazem sentido. Sempre há um ponto de interseção que tudo explica na vida dos indivíduos, mas é preciso saber que esse ponto não é causa, não é origem. Ele é uma confluência, um nó, um espessamento, que ao ser discernido e distinguido, desvinculado de seus estruturantes, possibilita compreensão, entendimento, descoberta. Essa é a vivência cotidiana resultante dos processos psicoterápicos, tanto quanto das descobertas, dos momentos de Eureka! que mudam o mundo, como a ciência e as verdades ou apreensões individuais que muito esclarecem. É o insight , e é, da mesma forma, a separação do joio do

Instantâneo

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  Perceber o que está diante de si é realizar a obviedade do estar no mundo. É estar vivo. Equivale a respirar. No entanto, essa vivência presentificada é cada vez mais impossibilitada pelos anteparos, situações que se insurgem, situações edificadas, construídas, que desviam e impedem esse processo de vivência do estar no mundo. Classificar, denominar, circunscrever são alguns dos impedimentos que, filtrando ocorrências para conseguir incentivar processos motivacionais, trazem vivências alheias ao que está ocorrendo. É como se não bastasse respirar, é como se respirar fosse um processo destinado a angariar resultados. Fica impossível viver por viver, fazer por fazer quando se objetiva resultados, quando não se percebe que o resultado é intrínseco ao próprio fazer, ao próprio processamento de comportamentos. Instrumentalizar, industrializar o espontâneo - o que está ocorrendo - é enquadra-lo em aprisionantes. Os rios correm sozinhos, mas, quando drenados, "orientados" e utiliz

Neurose e contingência

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Viver em função de valores, de resultados justificadores do próprio existir é se condenar à mecanização. Esses ajustes sociais capacitam para bons comportamentos que sempre vão trazer resultados satisfatórios e reconhecidos pela sociedade, tanto quanto cada vez mais alienam o humano de sua humanidade. A questão não é vencer, a questão não é ser aceito. Colocar a vida nesses parâmetros é negar quaisquer possibilidades de transformação. É o estar sempre esperando a remissão dos atos, a justificativa do existir. Geralmente esse processo é encontrado, é exercido como disfarce da não aceitação de complexos, sentimentos de inadequação e aspectos considerados inferiores. Reconhecer em si mesmo, e não aceitar, algo que é socialmente desconsiderado e querer ser considerado e aceito pelos outros, assim como querer ter os mesmos direitos dos que controlam e determinam status cria constantemente busca de realização e superação de impedimentos. Esse querer fazer diferença é responsável pelo estabe

Depressão, ansiedade e pandemia - Perspectivas de vida diante de impasses

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O futuro, o que está por acontecer é sempre uma decorrência do que está acontecendo, do presente, que por sua vez é continuidade do que aconteceu, do passado. A vivência, a percepção do inesperado decorre de percepções, de constatações descontinuadas, isto é, continuadas em outras dimensões, direções, decorrências. A decorrência de A é sempre A', A'', A'''... An. Nada está isolado. As combinações e arranjos que fazemos estabelecem outras continuidades e descontinuidades. Vivenciar o que está acontecendo como promessa, insinuação, possibilidade do que está por vir é ampliador de vivências, de constatações e possibilidades. Quando as vivências se esgotam em si mesmas, quando não apontam para nada, os limites são estabelecidos. Esses inesperados são vitalizadores ou desvitalizadores. O que esmaga, o que oprime, também explicita potenciais de mudança. Definidos os limites, as perspectivas de vida podem diminuir ou desaparecer, tanto quanto pela insurgência, pela rev

Percepção do Outro - Deus percebido como o outro X

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  A vivência do mágico, do irreal, do absoluto, com frequência é o faz de conta para tudo remediar. Estar impotente, sem saída, desesperado, tanto quanto esperançoso, tendo jogado todas as fichas no depois, no futuro, em alguém, absolutiza o relativo, cria deuses e Deus. É o faz de conta que as coisas vão se resolver. "A esperança é a última que morre", "a esperança ilumina e sustenta a vida", "os bons vencem, Deus ajuda", enfim, existe um infinito arsenal de conforto. São os equivalentes de drogas lisérgicas, lícitas e ilícitas que reconfortam, fazem esquecer o estar no mundo com o outro. Esse esquecimento custa caro. Ele aliena e isola, resume todas as distâncias que se faz em relação a não aceitação do outro como semelhante, a não o perceber e consequentemente se pontualizar. A ideia ou sensação de Deus desafia, complementa, seda, anima, protege, escraviza, divide e nega os limites da realidade. Deus pode ser pensado como transcendência, jamais como o o

Percepção do Outro - o outro percebido como plateia IX

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  A expectativa de resultados, o constante evitar de fracassos e críticas transformam o cotidiano em uma grande maratona. Juízes, comentadores e adversários estão sempre perto. Tudo fazer para desempenhar bem os papéis é a regra de ouro para o comportamento de quem depende de aplausos, de aceitação, e de evitar críticas ou rejeições. Essa atitude transforma a vida em constante busca de ser aplaudido, instalando também variações de humor e de motivações. O outro é o índice, é o que assinala se está bem ou mal. Quando aceito, elogiado, tudo caminha bem, caso contrário a vida encalha, arrastando consigo o torvelinho de fracassos, falhas e medo. Vive para  cuidar da aparência, e estar sempre bem vestido por exemplo, é a chave que abre mundos e caminhos. É também uma maneira de estar virando produto no grande mercado mundial. Assim as peças usadas significam, os detalhes revelam muito, a vida pode transcorrer sem problemas quando se acerta com a boa fantasia, a vestimenta que talvez o inclu